Cinco recursos de transcendência

Os exercícios de Yoga têm o propósito de trazer a atenção para mim mesmo, para ser quem sou. E o que sou nesta vida é um todo que tem o sentido da individualidade, e que é capaz de conceber, de dar direcionamentos; de promover transformações, a partir de interações com os valores que tenho e com as demais individualidades.

Os meus valores são expressões dos meus sentimentos, os quais determinam o que faço; avaliam as minhas ações e as dos outros; direcionam em um certo sentido, e definem a reorientação dos conceitos que a minha individualidade cria ou acredita.

É nos relacionamentos sociais que os valores são confirmados, transformados ou reorientados. Isso se dá no campo do afeto, dos sentimentos, das emoções. Eu, você e todo o mundo está sempre fazendo esse jogo valorativo, que está no campo das relações. Já o processo produtivo, do trabalho, da labuta para a sobrevivência, está baseado na aplicação do tempo e da matéria, dos recursos. Neles se utilizam as habilidades de administração do tempo e as técnicas de manipulação de equipamentos, de instalações, de objetos e estruturas.

São, portanto, quatro campos, que se aplicam tanto ao indivíduo como às organizações humanas: da identidade (autoimagem e conceitos); do afeto e relações (sentimento e valores); do querer (motivações e processos de produção); da segurança (recursos físicos e estruturais). Ao desempenhar um papel na sociedade, no trabalho ou na família, estão-se mobilizando essas quatro dimensões, campos ou níveis qualitativos do todo perceptível.

Quanto mais harmonizado estiver o funcionamento desses quatro aspectos, melhor será para quem estiver envolvido. Se eu ficar somente no nível conceitual, conseguirei adaptar-me apenas em ambientes não emotivos, frios, em que as pessoas não se relacionam de forma afetiva. Se ficar apenas no sentir do afeto e das relações, poderei ter sérias dificuldades se não me sentir incluído, aceito ou amado. Um coração angustiado pode até chegar a um infarto. Se enfatizar apenas o sentir e o querer, provavelmente ficarei refém das paixões. Num extremo, posso chegar ao pânico e em outro, poderei ficar compulsivo: por alegria, comida, sexo, trabalho, e por tudo o que apazigue a emoção superlativa. Nesses casos, ficaria aprisionado nos remoinhos do querer, impulsionados pelos ventos sentimentais. Desajuizado. Do mesmo modo, a ocupação excessiva com segurança e recursos poderia imobilizar-me, petrificar-me com tudo o que tenho ou preciso manter (com ou sem a ajuda do mitológico rei Midas).

Pratica-se Yoga, no viver, com essa compreensão: harmonizar essas quatro dimensões do agir, para ir além (antes de ir para o além). O desafio cotidiano é o de harmonizar a atuação nesses campos do indivíduo e das organizações; mudar-me para melhor; querer ser eu mesmo, e ainda melhor comigo e com os outros no mundo.

Assim, de um modo bem didático, quando respiro, estou tratando o meu campo valorativo, pois é nessa dimensão que os sentimentos avaliam os resultados da realidade; quando faço um "asana", estou tratando a estrutura, o corpo físico, os recursos estruturais. Ao projetar a intenção, medito, e me volto para mim mesmo, percebo a minha própria imagem, ou a imagem da instituição em que atuo ou da família à qual pertenço. Essa projeção está relacionada com o sentido de individuação, com a minha identidade. Não existe imagem mais extraordinária para aceitar do que a minha própria (com ajuda de Narciso, da ninfa Eco e da rainha malvada), ao vê-la refletida nos espelhos da vida.

Os gregos antigos associavam esses quatro campos aos quatro elementos: terra dos recursos (o corpo e as coisas), água dos processos vitais (o querer e a dedicação), ar do sentir (os valores e as relações), fogo da individualidade (a compreensão, os conceitos, a imagem). Ainda haveria um quinto elemento, que os quatro anteriores não seriam capazes de caracterizar, que os antigos chamavam de éter, o etéreo. No Hinduísmo, ele também é chamado de vazio. Alguns cientistas usam a expressão "além do espaço-tempo", e são várias as formas de se referir à transcendência, ao "ir além" dos quatro elementos.

Estou falando, portanto, de um além, no qual é preciso viver intensamente. Trata-se de um caminho de acrescentar esclarecimento, compreensão e apreensão da realidade ao agir, para harmonizar as atitudes e os comportamentos com os outros e com o mundo; aceitar os meus limites, os dos indivíduos, os das organizações, os da matéria e os das relações sociais; e dispor a meu favor o fazer material e a abstração prática.

Com essa intenção, vou reorientando o meu viver de modo gradual: desenvolvendo o hábito de meditar de olhos fechados e sozinho em lugares protegidos, enquanto vou testando a habilidade de abrir os olhos e também o coração e as mãos para lidar com os outros e com o mundo, com a sorte que me ajudou até agora. Os desafios para a tranquilidade pessoal aparecem na hora de agir na realidade e nas circunstâncias, porque é bem pouco o que está sob meu controle; graças a Deus!

Thadeu Martins

 

      

ADQUIRA!

Saiba mais

MAPA