De mim a mim mesmo

Nas situações do cotidiano, tudo pode dar errado se eu não perceber onde estou e não me perceber nesse lugar e situação. Essas duas atitudes estão associadas aos exercícios de Yoga, em que se fazem alongamentos na vertical, na lateral ou nos quais se fica sentado com a coluna ereta. Nessas posturas, dá-se especial atenção à respiração e ao ritmo pessoal. Também cultivam-se duas outras atitudes em Yoga: o desapego e a autoconfiança.

Pratica-se o desapego nas posturas em que se fazem inclinações para frente, mostrando a nuca, e nos exercícios em que se fica de cabeça para baixo. Em contraposição a essa atitude de abrir mão do agir, praticam-se os exercícios de curvar-se para trás, inspirando de peito aberto, estimulando, assim, a autoconfiança.

Faço de tudo para incorporar essas quatro atitudes – perceber onde estou, perceber-me, desapegar-me e cultivar a autoconfiança – propiciadoras do agir com tranquilidade e eficiência; para agir naquilo em que tenho condições de realizar, em que o ambiente é favorável, em que estou sintonizado e no qual sinto confiança.

Os exercícios físicos em Yoga também propiciam, por um lado, que eu me libere das minhas "personas", as máscaras habituais, ao cultivar as quatro atitudes, pois elas têm um foco nos aspectos sociais. As posições meditativas, por outro lado, têm o objetivo de voltar-me, ainda mais, para mim mesmo, em prol da integridade pessoal e da apreensão direta da realidade.

Segundo os sábios, quando a mente está serena – depois da meditação, por exemplo –, ela torna-se espelhada como a superfície de um lago, bem tranquila, que reflete a realidade. A mente, nesse estágio, refletiria uma realidade de apreensão direta, pela serenidade.

O sábio Patânjali faz precisas sugestões de comportamento social, em um minicódigo de conduta adequada ao praticante de Yoga. São os dois primeiros dos oito grupos de comportamentos: (1) restrições ("yamas"), (2) recomendações/estímulos ("niyamas"), (3) controle do corpo ("asanas", posturas), (4) controle da energia e da respiração ("pranayamas"), (5) introspecção ("pratyahara"), (6) concentração ("dharana"), (7) contemplação ("dhyana"), e (8) o estado de "samadhi".

Os "yamas" e "nyamas" são regras bem simples. Basicamente, Patânjali afirma que o praticante de Yoga não ofende, não mente, evita se dispersar nas emoções exageradas, não rouba e não cobiça. Além desses cuidados, é estimulado o cultivo da pureza, do contentamento, da persistência, do estudo e do entregar-se à vontade divina.

Assim, a prática de Yoga tem uma pequena parte de exercícios físicos e uma grande ênfase em exercício social. Os dois conjuntos de práticas têm um propósito integrador de transcendência das aparências, para o viver plenamente e em harmonia com a realidade.

A imagem citada, das águas plácidas de um lago que refletem a realidade, traz um convite a deixar a mente tranquila, refletindo a natureza interior, talvez por ser no mundo interior, onde mais se tenham condições de cultivar a graça do convívio, a qual está sempre à disposição.

Thadeu Martins

 

      

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