E viva o presente!

Ao longo da vida, eu, você e todo o mundo vem desenvolvendo habilidades extraordinárias para lidar com os outros, com o mundo, para ser aceito e compreendido. Isso desde muito pequeno. Cada um tem que se adaptar às várias circunstâncias, ao grupo e a si mesmo para seguir sendo incluído. Mas, de algum modo, alguns desconfortos surgem.

Muitas vezes, tento esquecer ou encobrir o desconforto, mas ele prossegue me incomodando. A reminiscência aflora independentemente de minha vontade. São lembranças de algo que não ficou bem resolvido e, volta e meia, ressurgem. Em Yoga, busca-se dar atenção a essas reminiscências, de modo que se possa compreendê-las, resolvê-las e liberar-se delas.

Há muitas possibilidades de lidar-se com as reminiscências. A Psicologia possui vários recursos, as religiões também, de certa maneira. Eu, você e todo mundo, a partir das próprias experiências, também vai aprendendo a lidar com as reminiscências recorrentes. O sábio Patânjali destaca a prática da meditação, para serenar a mente e, assim, lidar com as reminiscências.

No entanto, pode acontecer de algumas das reminiscências insistirem em aparecer enquanto se está meditando. Pode ser algo corriqueiro, como um problema de trabalho, para o qual se tem que dar uma solução. E de repente, para total surpresa, pode surgir uma solução para esse problema durante a meditação. Isto é bastante frequente e confirmado por estudiosos no assunto: os insights surgirem quando não se está agindo intencionalmente para captá-los.

No entanto, também pode ocorrer uma daquelas reminiscências, para as quais se tem que dar especial atenção, que interessam tratar. Nesse caso, o melhor é deixar fluírem os pensamentos relacionados a essa reminiscência assim que ela aparecer. Vai-se puxando o fio da meada: os pensamentos encadeados que essa reminiscência pode produzir. Continua-se tranquilo e numa situação confortável, porque no momento em que se adota essa intenção, passa-se à posição de um observador de si mesmo. Cria-se, assim, um distanciamento, que esvazia as emoções e permite prosseguir a observar.

Este é o artifício da meditação: criar um distanciamento que permita ser dual; ser aquele que vivencia a experiência e, ao mesmo tempo, observar aquela pessoa (eu) que a vivencia. Isso faz com que as emoções fiquem deslocadas, esvaziadas. Elas passam a ser vistas sem dramatização, apenas sendo observadas.

Porém, a reminiscência está assentada num terreno dual: significado e emoção. A emoção associa-se a um significado, e essa junção pode não estar bem resolvida dentro de mim. Enquanto eu não a resolver, ela volta. Então, a dica, que eu sigo, é atuar em mim mesmo, sempre que ela voltar à tona, tentar responder a duas perguntas: qual é o significado dessa reminiscência e qual é a emoção que sinto em relação a essa recordação? Pode ser uma infinidade de coisas. Percebi o problema, paro e volto à causa até chegar onde tudo começou. Assim consigo chegar à origem daquele sentimento. Às vezes, a origem pode estar bem distante, na época em que eu era criança. Outras podem ser recentes, mas, provavelmente, têm alguma analogia com outra questão bem mais anterior.

O importante é perceber o quê a emoção significa para mim. Seja lá qual for o significado, certamente estará associado a uma circunstância e a mim. Mesmo que outras pessoas possam estar incluídas, eu tenho que considerar a mim mesmo como o protagonista da minha própria história, para resolver a minha questão emocional nessa história, que provoca a reminiscência. Alguém pode dizer que isso não é meditação, é autoanálise. Tudo bem, faz parte do processo meditativo essa autoanálise, porque eu é que sou responsável pela minha própria liberação. Na vida emocional, ninguém é súdito de ninguém mais.

As movimentações da mente poderiam ser reduzidas a duas naturezas: pensamento ou reminiscência. Pensamento é quando ativamente estou maquinando, fazendo projeções ou equacionamentos. Já as reminiscências surgem independentemente da minha vontade. O propósito na meditação é serenar tanto os pensamentos quanto as reminiscências, porém, no caso de querer compreender as reminiscências recorrentes, posso analisá-las, fazer perguntas, anotar as minhas respostas, e intercalar a análise com a meditação. Por habituar-me a fazer isso com regularidade (e com muita sorte), a minha vida vem melhorando e muito.

Thadeu Martins

 

      

ADQUIRA!

Saiba mais

MAPA