Relaxamento essencial

O relaxamento talvez seja uma das práticas mais fáceis, simples, agradáveis e efetivas e que também propicia o estado de não agir, que é cada vez mais raro na vida cotidiana, na qual seguem-se receitas ou rotinas, na maioria das vezes. Algumas delas estão profundamente instaladas dentro de mim, de você e de todo o mundo, como verdadeiros aplicativos ou programas operacionais robóticos.

Isso também significa que essas receitas são formas de inteligência. No entanto, quando se fica sem fazer nada, nem pensar, um outro tipo de inteligência está em atuação. O corpo continua a funcionar de forma perfeita, graças, por exemplo, ao sistema nervoso autônomo. Essa é uma inteligência vital, essencial, à qual eu, você e todo o mundo acrescenta um aprendizado, daquilo que é apreendido no cotidiano. A partir dessas experiências, adotam-se outros modos de viver e de relacionar-se. Portanto, estou falando de níveis de inteligência: a inteligência essencial e todas as outras inteligências, às quais acrescentam-se rotinas e eficiência.

Quando relaxo, de início, uso um pouco da inteligência adquirida, operacional, para comandar o relaxamento. Então, fecho os olhos, vou sentindo o corpo, parte por parte, até relaxar por completo. Nesse momento, não preciso mais comandar. A minha inteligência operacional pode descansar.

Isso é algo extraordinário e ao mesmo tempo tão comum! Deixo o meu corpo viver por ele mesmo. Os condicionamentos que eu criei com a minha inteligência operacional – preocupações, lembranças ou projeções – não têm oportunidade de vir à tona. Eu, assim, me libero dessas maquinações, o que torna o meu dia muito melhor. Fico muito mais tranquilo, em paz.

Se o único exercício de Yoga, que se fizesse ao longo da vida, fosse o relaxamento, isso já seria a glória, em termos de saúde. O relaxamento diário traz enormes benefícios. É possível dizer que quase 80% dos males, que afligem todas as pessoas, são doenças adquiridas. São adquiridas e se tornam condicionamentos mentais. Ao relaxar, permito ao meu organismo não se submeter àquelas programações mentais de doença.

É por isso que os médicos dizem: "repouso absoluto". Durante o repouso, o organismo cura-se. Então, é bom que todo o mundo repouse bastante. À medida que se faz isso, vai-se criando o hábito de desligar a inteligência operacional e deixar agir a inteligência essencial, que vai "descondicionar" as doenças. Assim, recupera-se a própria vitalidade que, por alguma razão da vida, estava abalada. Essa boa prática diminui a permanência dos males adquiridos.

No entanto, sempre haverá algo mal resolvido da infância e que ficou reprimido dentro de mim. Conforme explica a psicologia, eu reproduzo comportamentos que me fazem vivenciar uma determinada situação ou emoção que reprimi no passado. Nem lembro dessa sensação, mas a realizo. E tenderei a praticar inúmeras vezes, porque, lá no meu íntimo, tenho a esperança ou o projeto de desta vez sair-me bem daquela situação em que, por alguma razão, tenho me saído mal. Até as relações que estabeleço, de algum modo, seriam com pessoas que eu (até inconscientemente) escolho, porque permitem que eu reproduza essas situações.

É claro que há várias armadilhas nisso; aquilo tudo já passou; talvez nem tenha sido assim tão grave – e se foi, já passou, faz tempo. Portanto, o fato em si mesmo "já era". Talvez o que me reste seja tomar consciência, esclarecer, compreender, aceitar a situação, fazer o que ainda houver de objetivo por fazer, perdoar e prosseguir vivendo. Assim, pelo menos eu me liberto. Libero-me daquele comportamento nocivo, repetitivo, que me faz sofrer. Paro de ficar encucando, de colocar culpa nos outros ou em mim mesmo.

Para mim, o modo mais eficiente, para alcançar essa liberação, é o de prestar atenção nos fatos que se repetem em minha vida. Por que eles acontecem com tanta frequência? Se é sempre comigo que acontecem, então, não dá nem para colocar a culpa nos outros. Provavelmente, fui eu que me coloquei nessa situação em muitas e muitas vezes.

De algum modo, eu crio essa situação. Tento reproduzir a mesma experiência, inúmeras vezes, para ver se desta vez resolvo-a bem. Mas a chance de me dar mal, repetidamente, é muito grande. Afinal, aquilo não está resolvido. O melhor é parar e prestar atenção em mim mesmo, em minhas emoções características e nos comentários que as outras pessoas emitem sobre mim, para esclarecer e compreender o que estou reproduzindo inconscientemente.

Assim, vou tornando consciente algo que acontecia de forma inconsciente: os sentimentos associados às situações desconfortáveis; os próprios comportamentos que propiciam as situações desconfortáveis. Esse esclarecimento dá oportunidade de compreender melhor e aceitar ou não aquelas situações, para rever e até mudar o meu comportamento habitual. Com certeza, essa mudança de comportamento me dá uma condição de liberdade, de liberação, de paz, muito maior do que aquela que antecedia à tomada de consciência. Desse modo, dou oportunidade para a minha inteligência operacional atuar para libertar-me daquilo que frequentemente me incomoda.

Depois desse prestar tanta atenção, que dá um trabalho enorme, que não é físico, mas mental, de perceber o que andei fazendo com a inteligência operacional (depois de tanta encucação), o melhor a fazer é um bom relaxamento, um trabalho físico de não agir. Dou, então, uma chance à inteligência essencial, por simplesmente não fazer nada, nem pensar, deixando-a atuar a meu favor, como ela sempre faz, naturalmente.

Thadeu Martins

 

      

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