Um mergulho pelo rio do Hinduísmo

Estive revendo o Yoga Sutra (conforme os textos do pesquisador Carlos Eduardo Gonzales Barbosa), para compreendê-lo em sua relação com o hinduísmo, desde a época conhecida como a do conhecimento revelado (os "Vedas"). O período "védico" estabeleceu uma base tão consistente que veio a determinar a principal corrente da cultura hinduísta. Essa base concretizou-se pelos textos revelados, os "Vedas", cujo saber foi mantido e divulgado, oralmente e por escrito. A linguagem dos "Vedas" seria até anterior ao Sânscrito.

No período posterior ao das revelações, surgem as Upanishads, que finalizam os "Vedas". Já não se trata mais de revelação, mas de compreensão prática e aplicada da revelação. Esse período caracteriza o surgimento das escolas do pensamento filosófico indiano, entre elas o Yoga.

Os guardiões das revelações védicas são os brâmanes, da Índia. E como todas as tradições, os "Vedas" foram sendo transmitidos dos mais velhos para os mais jovens, de modo a alcançar toda a população. Porém, além do conhecimento geral dos "Vedas", extensivos para toda a sociedade, cada família transmite o seu próprio conhecimento e também segue reverenciando a sua própria tradição, os seus "segredos e receitas", e os seus mestres ancestrais.

No contexto da sociedade hinduísta, há então uma corrente principal, originária dos "Vedas", e várias afluentes, que são as das várias famílias, com suas próprias tradições. Algumas dessas tradições familiares seguiram em paralelo, mas por vezes, se chocaram com a tradição principal. Foi o caso do Budismo, cuja origem legendária surge de um príncipe que segue seu próprio caminho, contrapõe-se à tradição principal, não em todos, mas em alguns aspectos, conquista multidões de seguidores, e espraia-se para o mundo. O Jainismo também surge em uma tradição familiar, dentro do Hinduísmo, prossegue com imenso vigor, cujo adepto de maior exemplo, conhecido no ocidente, é Mahatma Gandhi.

O tantrismo seria um nome genérico para as várias tradições familiares, não tão extensivas e notáveis como as linhas do hinduísmo citadas, do Budismo ou Jainismo. Quando se fala em "tantra", fala-se das várias tradições, que são familiares, que estão no grande rio do hinduísmo, mas que também seguem por caminhos próprios e restritos. Assim, essa denominação, "tantra", não se refere a uma escola apenas, mas a uma variedade de tradições familiares paralelas.

Já o Yoga vem da tradição principal. Mas que, no entanto, também decorre de uma situação político-social da época de seu surgimento. Isso é curioso, pois o Yoga vem da tradição dos "Vedas" e das consequentes "Upanishads". No entanto, seu surgimento coincide com o período em que o Budismo se torna muito forte, e competidor com o hinduísmo principal. Isso causa um desconforto para os brâmanes, os quais, afinal, vivem da arregimentação da sociedade que é influenciada por eles.

Em termos históricos, o surgimento do Yoga é aceito e incluído pelo hinduísmo tradicional, de certo modo, pela sua grande aceitação popular e potencial reação ao crescimento social do Budismo, seu contemporâneo.

Na visão do hinduísmo, o mundo existe, eu existo, mas a minha relação com o mundo é imaginária, principalmente porque a percepção individual da realidade é dada pela vivência pessoal de cada um. Eu, você e todo o mundo percebe o mundo de forma diferente entre si e, portanto, o modo como se vê o mundo vai condicionando o modo como se continua a ver o mundo. Assim, deixa-se de ver muitos aspectos da realidade por causa desses naturais condicionamentos. Ou seja, como a percepção da realidade determina a realidade, qual das percepções é a real?

Então, surge o Buda, e também diz que tudo é uma ilusão, mas ele é muito mais radical: "Eu também sou uma ilusão, eu não existo". Sua concepção filosófica contesta a visão da tradição, para ele a individualidade do "eu" não tem sentido, é uma mera manifestação percebida do princípio divino da vida. Porém, a intensidade do misticismo oriental era e é tão forte que o Buda, que não era sacerdote e não queria fundar religião nenhuma, de repente estava cercado de fiéis.

Patânjali, de certo modo, contrapõe-se a essa visão e afirma: "Eu existo, o mundo existe, a realidade existe; a minha relação com a realidade é que é ilusória". E ainda mais, ele faz alusão a um ser especial, que representa a divindade da vida: "Ischivara", o princípio divino, ao qual os yogues se rendem, submetem-se, entregam-se. O yogue trata de serenar a mente, para ter uma visão clara, apreender a realidade e nela agir com a liberdade do esclarecimento.

Essa sistematização do sábio Patanjali prosseguiu como uma escola, que dá sentido de aplicação prática a todo conhecimento tradicional, dos "Vedas" e das Upanishads. Sabiamente foi incluído pelos bhrâmanes, pela eficácia de aceitação popular, capaz de compensar a crescente aceitação do Budismo, em sua época. De fato, na Índia, depois de passado o reinado do rei Ashoka, Séc. III - a.C, o budismo não teve a mesma expansão que obteve, por exemplo, na vizinha China.

O Yoga Sutra de Patanjali, à semelhança do Budismo, propõe oito princípios para o agir adequadamente na vida. Indica oito degraus de comportamento: comportamento social adequado, comportamento pessoal adequado, controle adequado do corpo, controle adequado da energia, controle adequado da mente, a concentração, a contemplação e o estado de "samadhi". De modo que se possa perceber a realidade com clareza e nela agir-se com integridade ("Kaivalyam").

A proposta do Patanjali, assim como a do Buda, era a de um comportamento individual e social, em que se está tão íntegro, que se podem exercer as várias "personas" e também ser independente, liberto, íntegro. Assim, faz-se o que de fato deve ser feito, em estado de absoluta clareza, com a mente serena.

Thadeu Martins

 

 

      

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