A natureza humana


* Aula aberta ministrada por Thadeu Martins no dia 20 de junho de 2007 no IESB.

A discussão essencial na abordagem deste complexo tema, sobre o qual se debruçam há milênios cientistas e filósofos, diz respeito à seguinte questão: a natureza humana é inata ou é ambiental? É determinada geneticamente ou pela forma como fomos criados? Basicamente, essa é a dualidade que temos como pano de fundo.

Para iniciar, vamos fazer uma volta ao passado, direto à pré-história. Há duzentos mil anos, nosso ancestral, o homo sapiens, vivia num ambiente altamente hostil, em condições precárias. A alimentação era escassa: folha, frutos e pequenos animais. Para sobreviver, nós fomos desenvolvendo a nossa capacidade de nos comunicarmos e de nos organizarmos. Assim, fomos criando o nosso ambiente social. Nesse ambiente, cheio de surpresas, fomos sendo obrigados a prestar atenção ao comportamento dos outros. Tem início a observação social. Quais critérios passamos a utilizar para dividir os alimentos entre nós? Em quem confiar? Além disso, esse ser muito frágil e sob muitas ameaças tinha que rapidamente fugir dos perigos. Então, ele tinha que identificar se a situação era perigosa ou não e agir. Isso nos permitiu sobreviver.

Conforme comprovou Darwin, a evolução se deu pela seleção natural entre os muitos que tiveram oportunidade de surgir no mundo. Ou seja, somente aqueles que estão mais adaptados ao ambiente conseguem sobreviver. Essa capacidade de perceber situações e reagir a elas marcou a nossa espécie, a nossa natureza. Mas, isso fazia parte do ambiente no qual estávamos surgindo. O ambiente criou situações de dúvidas, nas quais reagimos, conflituosamente; sobreviveu quem conseguiu se adaptar. Então, o ambiente e a herança genética interferiram nesse processo. A pergunta inicial continua sem uma resposta categórica.

Na visão da psicologia evolucionista, nós saímos da Idade da Pedra, mas esta não saiu de nós. Trazemos de lá códigos de comportamento que foram fundamentais para a nossa

sobrevivência. A percepção de como os outros se comportam vem dessa época, porque a confiança é essencial para a vida em grupo. O outro é o nosso problema e, ao mesmo tempo, o nosso parceiro, a nossa chance de sobreviver por colaboração.

A confiança talvez seja a característica principal que um ser humano procura no outro. Devido à nossa fragilidade, temos que nos associar a pessoas confiáveis – como nos tempos das cavernas, quem não dividia os alimentos era visto com desconfiança e rejeitado pelo grupo. Objetivamente, buscamos sempre perceber com quem estamos lidando para saber se confiamos ou não. Precisamos, ao longo da vida, estabelecer relações de confiança.

Nós e quem nos antecedeu levamos milhões de anos desenvolvendo essa habilidade de conviver, de observar, de saber com quem estamos lidando. Nós qualificamos tudo o tempo todo. Uma das coisas que mais fazemos na vida é qualificar e classificar. Para tomarmos decisões com informações sempre incompletas, mas que resolvem a urgência de cada situação. Na iminência do perigo real, quem demora a decidir não tem segunda chance, em geral.

Nós também fomos aprendendo que a confiabilidade de alguém, em relação a nós, depende da expectativa de voltarmos a encontrar essa pessoa e de esse encontro acontecer num ambiente que nos envolve, com o qual nos relacionamos. Pessoas que não mais encontraremos também têm menos razões para confiar em nós. Temos a característica ancestral de compartilhar informações. Confiamos e, ao mesmo

tempo, desconfiamos. A nossa vida é uma eterna seqüência de tomadas de decisões e nós decidimos com as informações que temos disponíveis. Isso está na nossa herança ancestral; afinal, na pré-história, precisávamos decidir rapidamente diante de uma situação de perigo, para sobreviver. E como tomamos decisões? A partir de uma informação classificada e de uma fonte de informação íntegra.

O prêmio Nobel em Economia de 2002, Daniel Kahneman, demonstrou que o ser humano toma decisões em termos emocionais. Levamos em consideração todas as informações disponíveis, mas no final das contas, sempre tomamos decisões de forma emocional.

Independentemente da nossa formação, só tomamos decisões racionais quando estamos num ambiente absolutamente profissional, que nos exige a tomada de decisão metodológica. A grande maioria das nossas decisões é feita com o cérebro réptil (que antecede aos mamíferos), o qual é anterior ao cérebro periférico, intelectual. É a reação da fuga ou ataque. A decisão, de lutar ou correr, é rápida e a tomamos baseada na emoção do nosso cérebro réptil, que rapidamente qualifica. Esse cérebro não trabalha com muita informação, não faz lógica, ele qualifica a emoção e reage. Essa é a maneira como nós atuamos.

Está provado que até a água reponde a sentimentos. Haja vista as pesquisas feitas pelo cientista Emoto. Ele comprovou que a água reage a palavras que têm conotação positiva ou negativa de sentimentos. O Dr. Emoto pegou vários frascos com água e os submeteu a vários estilos de música e a palavras com intensidade afetiva. Depois ele resfriou a água a tal ponto de poder, com um microscópio especial, fotografar os desenhos que os cristais da água formavam. Os desenhos ficaram belos, harmônicos, depois que a água foi submetida a palavras de caráter efetivo positivo; e ficaram horrorosos, disformes depois que a água foi submetida a palavras de caráter negativo. Essas pesquisas podem ser vistas no filme "What the bleep do we know" (Quem somos nós). Uma vez que somos formados por 70% de água, que a água se emociona e que tomamos decisões emocionalmente, alguém poderia afirmar que a natureza humana é aquática!

De volta à questão central: o que é genético (natureza) e o que é ambiental (que depende do meio)? A reposta mais provável é que seja um pouco de cada. Há em nós muita influência inata, genética. Por outro lado, ao longo da nossa vida fomos procurando confiança, sinceridade; fomos qualificando informações para tomar decisões e fomos desenvolvendo a nossa natureza humana, não com aquilo que é inato, mas sim com o que é ambiental, que foi sendo acrescentado pela nossa compreensão racional e emoção aquática.

Os dois lados da questão têm razão. Conforme já vimos, estudiosos de todas as áreas demonstraram que a natureza e o meio ambiente nos influenciam. Do ponto de vista prático, nós essencialmente somos água e mais alguns elementos de natureza material. Temos um DNA que determina, basicamente, a organização das nossas proteínas. Ou seja, determina a nossa aparência, a nossa plástica, o nosso instrumental, mas não o modo como nos comportamos. Nós temos aptidão genética para o aprendizado, para uma linguagem muito articulada. Mas se nós não formos criados num ambiente em que as pessoas falem, nós não desenvolveremos a linguagem. Ou seja, não basta a determinação biológica, é necessário o aprendizado.

Então, em nossa natureza temos uma característica educacional. E quem nos educa? São as circunstâncias que nos possibilitam estabelecer relações de confiança, reconhecer iintegridade, qualificar. Somos educados pelas circunstâncias. Ao longo do tempo, somos educados e vamos educando as pessoas, para que nós e elas demonstremos virtudes. Como as virtudes surgem? Pela educação circunstancial. Nós vamos estimulando comportamentos para nos tornarmos virtuosos. A moral e a virtude são fruto e condição do convívio social.

Por um lado, nós temos uma natureza determinada biologicamente, que vem preparada para a interação social. A partir dessa interação, nós desenvolvemos a nossa natureza educacional. O grau de desenvolvimento dependerá das circunstâncias nas quais estamos envolvidos. Por outro lado, no meio da matéria existe o sutil, que determina inclusive a organização da matéria, como o DNA, com os nossos 33 mil genes que caracterizam o genoma humano. A nossa natureza educacional é totalmente sutil, é código, cultura, moral, virtude, as leis, a atuação política, etc. Mas, esse sutil precisa se configurar também materialmente. Neurônios são físicos ou sutis? Sim, são físicos, mas é com eles que criamos as conexões que fazemos da compreensão da vida. Então, nós guardamos o sutil no meio físico (embora de forma invisível). Existe sutil no físico e vice-versa. Podemos dizer que o viver é uma permanente transformação de um no outro.

Quando nos organizamos socialmente, nós estabelecemos regras de conduta para suportarmos conviver uns com os outros. Essas regras que criamos são orientadoras da formação da virtude. E para que serve a virtude? Para demonstrarmos integridade, para as pessoas terem confiança em nós. Mas como adquirimos virtude? Tudo depende das circunstâncias. Esse processo educacional é formador dos nossos códigos de comportamento.

Isso nos leva para uma natureza ética. Nós temos uma natureza física, uma natureza educacional, a qual desenvolve uma aparência ética. Somos seres sociais, de um tipo anfíbio"com os pés na terra e a cabeça num oceano conceitual" (citado pelo Historiador Toynbee, em "A humanidade e a mãe Terra"). Assim, também somos um ser essencial, a alma, que um dia se liberta deste mundo social. Nós somos simultaneamente corpo e alma, ambos influenciados biologicamente e educacionalmente. Isso vale tanto para a compreensão ocidental quanto para outras culturas. Em praticamente todas as compreensões humanas que levam à filosofia e à religião, acabamos sendo sintetizados em alma e corpo. Porém, sempre com um intermediário.A mente, que alguns identificam com a consciência.

Uma das grandes discussões atuais é a seguinte: se é a mente que faz o mapeamento do nosso genoma, até que ponto podemos confiar nesse mapa que a mente faz dela mesma e de nós mesmos? Até que ponto é legítima a descrição da realidade, à qual só temos acesso por meio dessa intermediação? Como podemos falar de uma essência se só temos acesso a ela por meio da mente? Essa questão parece que ficará para sempre. Mas, todos nós temos clareza que a nossa percepção de mundo é intermediada pela nossa mente. E onde está a mente? Hoje em dia já se sabe que temos neurônios no corpo todo. A nossa mente não está apenas no cérebro. E se pegarmos o cérebro, não vamos pegar a mente, porque essa é sutil.

A experiência viva que temos é simultaneamente sutil e densa. Estamos falando do máximo da sutileza da alma e do corpo e estamos lembrando que existe uma intermediação feita pela mente. Esse foi o nosso grande trunfo. A partir da nossa organização mental, conseguimos nos organizar como espécie, trocando códigos e compreensões. De todos os códigos, os mais importantes têm sido justamente aqueles que remontam à Idade da Pedra e que nos permitem ser dignos de confiança: quando nós demonstramos integridade. E então nós chegamos à ética. O grande desafio da humanidade é desenvolver o comportamento ético, por que essa é a condição para a nossa sobrevivência em grupo, como espécie.

Não basta compreender a nossa natureza. É preciso exercê-la. E o maior desafio no exercício da nossa natureza é harmonizar a ética e a busca da felicidade. Ou seja, o nosso desejo de ser feliz e o convívio com os outros.

Por exemplo, no antiqüíssimo hinduísmo, são sugeridos cinco controles de comportamento: da ofensa e violência à vida, do mentir, do roubar, da sexualidade, da cobiça e da inveja.

Também são estimulados cinco hábitos virtuosos: pureza (de pensamentos, propósitos, sentimentos e da higiene), contentamento (com o que já se tem, com o que já se é), persistência (perseverar na ética, na pureza, no contentamento), conhecimento (tanto autoconhecimento quanto conhecer onde se está no mundo e no social) e aceitação da vida como ela é (render-se à vontade divina, entregar-se à vida).

Esses códigos são ancestrais, vêm da Idade da Pedra. Como já vimos, temos que inspirar confiança. No jogo da vida, a confiança é essencial. Por isso, precisamos demonstrar integridade. E nós percebemos essa integridade qualificando e classificando os outros. É o método mais rápido de compreender. Ou seja, nós qualificamos e classificamos a informação que nós temos e tomamos a decisão com essa pouca informação. Mas essa tomada de decisão é, em última instância, sempre emocional. Provavelmente a origem das decisões emocionais ou é devido ao nosso cérebro réptil ou ao fato de 70% do nosso corpo ser constituído por água; a água é emocional e antes mesmo de haver o nosso sistema cerebral complexo, a ameba já se emocionava. Afinal, antes de nós sermos humanos, somos tudo o que nos antecedeu. Isso é um pouco do que pensamos que sabemos sobre a complexa natureza humana.

Muito obrigado.

Thadeu Martins

      

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