Para fazer a natureza acontecer

Prossigo relendo o Yoga Sutra, de Patanjali. Neste momento de estudo, venho usando duas fontes: o livro do Carlos Eduardo G. Barbosa e os quatro volumes de textos das aulas do Dr. Jayadeva Yogendra, que eu trouxe do Yoga Institute. Nesse material, tenho tanto aquele com visão histórica e sintética como estes que se estendem, em cada sutra, com dezenas de páginas de comentários.

O último capítulo tem características bem diferentes dos outros três. Seu nome é "Kaivalyam Pada". "Kaivalyam" é uma palavra-chave em Yoga, que vale horas de conversa! Há várias possíveis traduções: aniquilamento, isolamento ou integração. O sentido é de estar tão íntegro consigo mesmo, tão próximo do "eu interior" ("atma"), que o agir torna-se o mais independente dos condicionamentos acumulados pela vida social. Assim, age-se com total esclarecimento.

Esse estado de "kaivalyam" é a síntese de um processo: o serenar a mente, o desenvolver atitudes e habilidades sociais e individuais de compreensão e o cultivar o estado de "samadhi" – de ver a realidade como ela é.

"Kaivalyam" também pode significar aniquilamento, no sentido de destruir os filtros com que se percebem a realidade. Então, não haveria mais dualidade, bem ou mal, e outros grandes contrastes. Passa-se a lidar com os fatos como eles de fato são. É um estado de plena unidade.

É difícil chegar a uma definição mais precisa de "kaivalyan", por isso estou lendo e relendo os textos. Mas tenho me interessado bastante por dois aspectos: as reminiscências, as memórias, sempre ficam dentro da mente, por mais que eu possa compreendê-las ou neutralizá-las ou apaziguar a mente; o outro ponto que achei complementar é a percepção de que o estado de "samadhi" vem e vai, vai e vem. Ou seja, por mais que eu pratique a meditação, essas memórias podem vir à tona e me retirar desse estado. Entre essas várias reminiscências, que vão estar comigo por toda a vida, algumas são muito antigas e podem até anteceder a minha existência, na medida em que sejam registros transmitidos de forma hereditária, por exemplo.

Patanjali diz, lá no Yoga Sutra, que dessas memórias todas, que estão na origem de muitos dos meus comportamentos, principalmente defensivos, está o medo e a negação da morte ou, de forma afirmativa: a esperança de permanecer vivo e incluído socialmente. Então, seja no negativo ou no positivo, eu, você e todo o mundo traz essa compulsão de vida que leva a todo de tipo de ações ou reações que promovam a eternidade. Ao mesmo tempo, isso é uma afirmação do desejo de permanência, de continuidade, e uma negação da morte, do fim.

Mas o fato é que me estou referindo a algo inevitável: se eu nasci, vou morrer um dia. Já que isso eu aceitei, não há como fugir, então é melhor lidar com as outras razões do sofrimento, os "kleshas": a aversão àquilo que me ameaça ou o anseio daquilo que me dá prazer. No entanto, Patanjali diz que na raiz do sofrimento está o egotismo, quando fico focalizado apenas em mim mesmo, sem perceber o todo. Sofro por ignorar o contexto maior, supervalorizo-me como um eu especial, cultivo aversões e anseios e fico cultivando a permanência ou a negação da morte. Seriam esses, portanto, os cinco motivos de sofrimento.

No último capítulo do Yoga Sutra, Patanjali destaca essa compreensão e dá a dica: eu posso cultivar o esclarecimento. Ele começa esse quarto capítulo comentando que a realização de "kaivalyan" pode se dar por uma herança genética (para quem já veio pronto), por ingestão de substâncias, por rituais com mantras ou por "samadhi". Porém, enfatiza que, desses quatro, o melhor mesmo é o de "samadhi", pois nenhum dos outros tem constância, continuidade, e podem estimular a ilusão de onipotência. Ainda melhor: "samadhi" não tem contraindicação! Na visão de Patanjali, o estado de "samadhi" – que corresponde à "moksha", liberação da consciência – é que é o mais estável, consistente, perene e que vale a pena cultivar. Interessante, não?

Por isso essa releitura tem me chamado tanta atenção. E como o texto se aproxima da filosofia! Por muitas vezes eu percebo que há uma fantasia de que o praticante de Yoga teria poderes mágicos, seria um ser especial, diferente, que dispensaria o estudo, porque o conhecimento chegaria até ele pela iluminação. Mas quanto mais eu leio Patanjali, mais eu percebo que ele é muito direto nesse aspecto. Na verdade, ele refere-se à estratégia de vida, que Yoga é de fato. Ele fala, literalmente, que o único poder que o yogue tem é o de esclarecer a realidade e, no máximo, o que ele pode fazer é retirar alguns obstáculos para que a natureza possa acontecer. Uma boa imagem é a de um lavrador que, com a sua enxada, abre caminho para a água escorrer do riacho até a plantação. Não é ele quem faz a plantação crescer, mas sim a terra, o sol e a água (isso foi dito originalmente por Vyasa, o principal comentador do Yoga Sutra, há séculos).

Isso me faz lembrar os quatro verbos da prática da amorosidade: esclarecer, compreender, aceitar e prosseguir. Eles formam quase um método! Em Yoga, também posso utilizá-lo, mas para esclarecer, tenho que ter conceitos anteriores. O tempo todo, eu tenho que ser capaz de esclarecer e compreender como a natureza acontece, para, então, perceber quais obstáculos posso retirar para facilitar o que a natureza pode realizar. Para mim está implícita, assim, uma atitude de respeito, de aceitação de que é a natureza e não eu quem realiza. Tenho, portanto, a humildade de reconhecer que apenas colaboro, e isso faz toda a diferença!

Quantos obstáculos precisam ser retirados em mim, para que a natureza humana revele-se no seu melhor? Que obstáculos nem pensar em retirar, para não revelar o seu pior? Embora o que seja melhor ou pior dependa, em grande parte, das circunstâncias. Como disse, essa conversa pode render horas.

Thadeu Martins

      

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