O ser e a Roda

Em minha releitura do Yoga Sutra, prossigo pelo caminho de "kaivalyan" – "Kaivalyan Pada" –, nome do último capítulo do texto de Patânjali. Vou revendo os sutras e os vários comentários. Basicamente, há um grande comentarista desse texto, Vyasa, que é até mais lendário que Patânjali, e destacam-se também Vachaspati (Séc. X) e Bhikshu (Séc.XV) entre os históricos. Eles fazem uma discussão filosófica, conforme suas épocas. Quem me apresenta a interpretação deles é o Dr. Jayadeda Yogendra, em textos que eram utilizados no Yoga Institute, na época em que lá estive como aluno residente.

O Dr. Yogendra reproduz as palavras desses comentaristas e faz correlações com as outras linhas filosóficas hinduístas, que tratam dos mesmos temas em seus contextos doutrinários. Então, para cada sutra, são várias páginas de discussão. O sutra que eu li esta semana está bem fixado na importância de serenar a mente. Alguém pode achar estranha essa ênfase no último capítulo, pois é assim que começa o próprio Yoga Sutra, quando Patânjali diz que "Yoga é serenar as movimentações da mente". É verdade; mas, nesse capítulo final, ele discute o porquê disso, e vai aos píncaros da filosofia indiana.

O mestre lembra que, no cotidiano, as minhas experiências geram resultados, que são percebidos por mim, com uma emoção associada a cada significado (ou vice-versa) e que cada percepção, associada à emoção e ao significado, gera nova memória. O que os comentaristas tradicionais dizem, em relação a isso, é o seguinte: a tal da mente é a própria memória, ela é constituída por essas impressões, que ficam registradas, das experiências de vida. E essas experiências, por mais insignificantes que sejam, ficam para sempre.

Na compreensão poética dos indianos, elas ficam para sempre; mesmo! Segundo eles, existe o "samsara", a roda das reencarnações. Tudo o que eu faço cria "karma", e este empurra a roda, que vai girando. Então, tudo o que eu faço agora gira a roda, que vai gerar consequências a seguir. A roda não para nunca, segundo os indianos. A dica deles é cessar as movimentações da mente, para não gerar "karma" e deixar de reencarnar a vida inteira, por várias vidas.

Se eu olhar de outro ponto de vista, menos poético, também posso perceber que existe um componente genético nesse "samsara". Afinal, fui gerado por um pai e uma mãe, que também tiveram muitas experiências e memórias; e os cromossomos deles também fazem parte deste conjunto memorizado. O novo ser, que surgiu da junção desses cromossomos, traz, portanto, memórias ancestrais, que desse modo remontam até a primeira coisa viva que surgiu na Terra, uma cianobactéria que se juntou com uma molécula de água, há 3,5 bilhões de anos, e que iniciou essa propagação de vida por aqui. É uma visão mais objetiva, mas razoável, de que se traz uma memória permanente, para a qual eu, você e todo o mundo vive acrescentando algo, com as experiências pessoais. Talvez por isso a roda do "samsara" continue a girar.

Nos sutras, Patânjali destaca a conhecida fórmula: cessada a causa, cessa o efeito. Se eu consigo serenar a mente, neutralizar essas memórias que ficam pululando, eu posso cessar o estímulo para ações que não teriam nada a ver com o presente, mas sim com as memórias. Na medida em que eu lidar com o presente sem criar mais complicações, eu diminuirei o movimento da minha roda pessoal.

Patânjali alerta que grande parte dos desejos e anseios (provocadores de ações) não são originais; eles são reminiscências dessas vidas passadas, dessas memórias, que vieram para ficar e ficarão, mas que eu, você e todo o mundo pode neutralizar, na medida em que serenar a mente.

E nesse ponto, o Dr. Jayadeda Yogendra chama atenção que há vários tipos de ação. Aquelas ações nas quais existe apego e que são as que vão criar problemas, porque se está apegado – ou porque se está interessado ou com medo do resultado. Está havendo identificação e interesse. Eu me identifico, fico interessado e me apego. Pronto, começam as complicações.

O Dr. Jayadeda diz que, de todas as ações, a que cria menos "karma" é a mental. Compreender, meditar, desejar o bem para os outros, enfim, ação mental que condiciona o bem, eis a melhor ação. Quanto mais a ação for sutil e estiver longe da matéria, menos será propícia a criar apegos e interesses no resultado da ação.

Os indianos falam em quatro tipos de ação kármica, conforme criem dor, prazer, dor e prazer, ou nem dor nem prazer. O "karma" da ação que provoca dor é o pior caso, uma ação material e maligna. O "karma" do prazer é aquele em que se faz uma boa ação, mas interessada pelo prazer do resultado, e por isso geradora de apego. O melhor "karma" seria o da ação desinteressada, em que faço porque é o que se deve fazer, não me envolvo no resultado dela, não sinto nem dor nem prazer, porque não há nada disso em jogo, não há nada pessoal.

Assim, é a ação no estado de "kaivalyan", é o agir com integridade, isolado da ação kármica, consciente de que a minha individualidade é mera circunstância, que nada é pessoal, e assim posso seguir nesse caminho, driblando naturalmente os "karmas".

Thadeu Martins

      

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