Novidades na Meditação

Tenho aprendido muito com os livros do Carlos Eduardo Gonzales Barbosa, estudioso brasileiro de sânscrito, hinduísmo e Yoga. Os textos dele têm me ajudado a compreender, com outros pontos de vista, muitos conceitos e ensinamentos que tenho incorporado nos últimos 40 anos. E um dos novos aspectos, que me têm chamado atenção, é relativo aos rituais de meditação.

Depois dos exercícios de Yoga que pratico, concluo com a prática de meditação. Quando medito, o propósito principal é serenar a mente, ficar tranquilo. Mas, de verdade, esse serenar a mente não é propriamente um fim, é um meio. Crio condições para um objetivo maior: viver feliz. E esse objetivo está muito vinculado às condições de eu conseguir perceber a realidade de modo menos deformado, pois, assim, serei capaz de enxergar sem as "lentes mentais" que uso diariamente. Afinal, eu, você e todo o mundo é educacional, aprende a ver a realidade de uma determinada maneira (aquela que apreendeu).

Então, o propósito de serenar a mente é de eu me transformar em alguém capaz de perceber a realidade com o mínimo de influência das minhas próprias sensações. Não é nada fácil, pois vejo tudo com a herança cultural que tenho. Alguém poderia até concluir que o propósito de Yoga é impossível, pois sempre haverá uma grande quantidade de filtros entre mim e a realidade. Mas como isso tudo é relativo, se eu conseguir retirar muitos filtros, já vai melhorar bastante. A vida ficará muito melhor.

Quando a mente serena, ela diminui os condicionamentos, que o organismo traz, de ansiedades e outros sentimentos acumulados, e que criam todo o tipo de mal-estar. No entanto, ao sair do modo de viver com tranquilidade, volta-se ao modo habitual, que privilegia a doença, estimula a criação de planos de saúde e de outras armadilhas sociais de preocupações e medos.

Os exercícios de Yoga têm o propósito de ajudar a manter a saúde em bom estado, principalmente a condição de respirar bem e de manter a estrutura óssea bem posicionada pela musculatura, para que os desvios não aconteçam ou sejam apenas eventuais. O fundamental mesmo é a pessoa viver em paz, alimentar-se bem, dormir tranquilamente, ser socialmente aceitável, lidar bem com os compromissos, ou seja, evitar problemas e permanecer em paz. Dessa forma, presta-se mais atenção à realidade de modo a vê-la do jeito que ela é propriamente e, com isso, pode-se viver uma vida mais plena, mais feliz. Em geral, esses cuidados dão certo.

Com o foco na meditação, é importante começar bem o dia. Já iniciar o dia meditando. Antes de sair do quarto e encarar as mil obrigações do dia a dia, nem acender a luz, ficar no escuro, sentar no chão ou na cama e fazer uns quinze minutos de meditação.

Nessa hora, vai-se criando um ritual, do qual eu quero falar agora, com o que depreendi dos textos do Carlos Eduardo Barbosa. Trata-se de um ritual muito antigo, que a partir do século VI foi sendo aperfeiçoado pelos Natha, importante grupo religioso hinduísta que preservou o Yoga, num período em que este quase foi esquecido na Índia. Os Natha desenvolveram um jeito especial de preparar o local da meditação. Para eles, esse local deve estar orientado para o Leste. Mas não é preciso estar, necessariamente, de frente para o Leste geográfico, onde nasce o sol. O importante é imaginar, com os olhos fechados, que, diante do meu peito, está o Leste. O principal local de meditação é o próprio corpo. Assim, o importante é o local do meu corpo em relação a esse espaço virtual de meditação, que não está referido geograficamente, mas mentalmente ou espiritualmente, como se quiser, para dar um sentido meta geográfico. E a direção primordial é a que está diante do meu coração e dos meus olhos; ela então será o Leste.

O importante é o simbolismo que o Leste representa: a consciência. Diante de mim aquilo que está iluminado, que eu posso ver e representar. Mas atrás de mim (no Oeste), há também outra direção (sentido) muito importante: o inconsciente, pois a realidade também inclui aquilo que eu não vejo. Então, ao meditar, devo considerar que vou lidar não apenas com as coisas de que terei consciência, mas também com muitas outras que estarão inconscientes – externamente e interiormente a mim.

Vivo em um mundo que estimula a consciência e descarta a intuição, no entanto, há um campo enorme que não está consciente para mim, para você e para cada um. Experimente, por exemplo, abrir os seus braços até onde você conseguir ver, ao mesmo tempo e com os olhos para a frente, as suas duas mãos. Isso abrirá pouco mais ou menos que 180 graus, dentro dos quais conseguirá ver as coisas ao seu redor. No entanto, dos outros 180 graus você não conseguirá ver nada, embora possa intuir, inferir alguma realidade, a qual estará de fato fora da sua consciência. Perceber a realidade, portanto, significa considerar o que há de Leste a Oeste, mesmo que eu não esteja vendo tudo.

E o que representaria o Sul no meu local de referência? Representaria tudo o que me foi trazido culturalmente: o passado, as contribuições dos meus antepassados, o que apreendi pela generosidade dos outros ou pelas suas influências. Enquanto o Norte indicaria o que vou contribuir, aonde vou, o futuro.

Fecho os olhos e imagino um grande espaço, extensão de mim, esse espaço projeta-se a partir do meu coração, que se projeta lá para frente, num céu imenso ao redor de mim, totalmente escuro. Aí o sol começa a nascer no plano do meu coração, trazendo a consciência da luz no Leste. Eu concentro também minha percepção na direção Oeste, do inconsciente – que é muito mais fidedigno, pois não tem os filtros da consciência. Percebo também, pelo Sul (à minha direita), tudo aquilo que me formou (e agradeço), e pelo Norte, para onde vou, o que eu quero vir a ser (e me entusiasmo). Desse modo, eu e o meu dia começamos sintonizados nas direções que me dão estabilidade e firmeza!

Ainda há os quatro sentidos (ou direções) que complementam esses quatro cardeais, mas que ficarão para outra conversa.

Thadeu Martins

      

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