O lugar da meditação

A tradição de Yoga e meditação parte do princípio que a realidade é filtrada pelas muitas heranças culturais que eu, você e todo o mundo tem, como ser educacional. Eu não sou simplesmente, eu aprendo a ser. Quem me ensina é a realidade, intermediada pelas pessoas que lidam comigo.

Por isso, a minha condição de felicidade tem tudo a ver com o modo como percebo a realidade e me percebo. Então, seria ótimo eu aprender a ver, sentir, perceber a realidade de um modo que eu não complique demais, e aceitar a realidade como ela é. Lembro, no entanto, que tudo que eu não consigo perceber também faz parte da realidade.

O ensinamento de Yoga ajuda a compreender que a realidade pode ser bastante favorável ou prejudicial, dependendo da maneira como eu a encarar, considerar e levar a minha vida. O que se propõe é o hábito de serenar a mente, de tal modo que os meus muitos filtros da realidade se dissipem, para eu perceber a realidade o mais próximo possível do que ela é de fato e, ao mesmo tempo, desenvolver a capacidade de aceitá-la e prosseguir vivendo em paz.

Desenvolver essa habilidade é mais exigente no âmbito social, pois nele me deparo com valorizações sociais praticamente em todos os momentos da vida. Mas o quanto estou condicionando, desse modo, a minha paz interior à aprovação social, que é algo meio indeterminado, mutável e despersonalizado? Arrisco-me assim a nunca ter a referência autêntica da paz e da felicidade.

Viver socialmente requer a habilidade de fazer de conta que sou "normal". Assim, fico mais ou menos parecido como todo o mundo está, para ser mais econômico e não precisar gastar tanta energia, para explicar como sou feliz de um outro modo, enquanto, cultivo a minha autenticidade, quem de fato sou.

Yoga e meditação viabilizam o propósito de praticar esse equilíbrio, de cultivar a autenticidade, de serenar a mente para que ela não fique muito afetada pelo turbilhão social. Assim, são reduzidas as condições de sofrimento, que em geral são impostas por medos, anseios, ignorância, egoísmo, por querer estar sempre incluído. Pode-se olhar a realidade, com mais independência dessas condições negativas, de modo que elas sejam neutralizadas. Cultivo, portanto, a paz e lido com a realidade do jeito que desejo, ajudado pela minha autenticidade.

Mas, claro, não tenho tanta onipotência assim, não estou totalmente no controle. Quando abro os olhos, por exemplo, só consigo enxergar 180º graus à minha frente. Os outros 180º não vejo, mas eles fazem parte da realidade. Estou me referindo ao inconsciente. Para ter acesso ao inconsciente, fecho os olhos, respiro, sereno e me deixo envolver por ele. Dessa forma, eu posso também sentir os meus valores, pois eles foram cultivados inconscientemente. E o melhor é que esse inconsciente nunca vai me enganar, porque não tenho como colocar filtros nele. Ele manifesta-se, até quando não quero: no sonho, no impulso de fazer algo ou numa inquietude interior. Ele é enorme, é tudo aquilo que está fora da minha consciência física e social.

Vale, portanto, cultivar condições de firmeza, tranquilidade e conforto interior, de modo que eu possa apurar a minha intuição, que é o recurso que se tem para sintonia com o inconsciente, tanto o que me seria individual como o que é coletivo.

Os acréscimos, que venho fazendo à minha prática de meditação, tem esse propósito e referem-se a uma tradição que une a ação física com a idealização mental. Não basta filosofar, preciso sentir o meu corpo e bem tratá-lo, pois ele é o meu território e é com ele que eu vivo.

Segundo a tradição hinduísta do grupo Natha (séc. VI), da qual, quanto mais aprendo, mais admiro e respeito, é muito importante preparar o lugar da meditação. E aí há dois lugares: o geográfico, o lugar onde estou sentado – que deve ser confortável e agradável –, e o lugar metageográfico, o lugar no meu espaço interior. Enquanto o lugar físico precisa de condições materiais favoráveis, o metageográfico tem que ser preparado mentalmente, de uma forma mítica, para direcionar a minha emoção, tanto de modo alegórico, como de modo simbólico.

Para tanto, de olhos fechados, imagino um espaço que se forma pela projeção do meu coração, pelos oito sentidos de uma rosa dos ventos, e vou atribuindo energias e sentimentos a esses sentidos metageográficos. Assim, projeto à minha frente o Leste, onde nasce o sol, onde está o que é consciente, com o propósito de aceitar a realidade; de modo análogo, a minha sombra, projetada para o Oeste, eu associo ao que é inconsciente, e que representa tudo que não vejo, mas respeito; projeto à minha direita o Sul, que associo ao que apreendi para viver e, portanto, agradeço aos que me ensinaram e me antecederam; assim como, projeto à minha esquerda o Norte, que representa o futuro, para onde vou, com entusiasmo. Ao mentalizar essas imagens e estas palavras – aceitação, respeito, gratidão e entusiasmo – e trazer isso para dentro do coração, crio condições de firmeza e tranquilidade.

Os outros quatro sentidos, diagonais, são as de conforto, aquelas que vão acrescentar condições agradáveis à meditação. No desenho mental, seria como se eu tivesse levantado quatro paredes nos limites distantes, à frente, por trás, à direita e à esquerda (uma muralha quadrangular inserida no círculo do horizonte). Em cada canto dessa muralha (dessa minha mandala mental) colocarei também energias e sentimentos que darão conforto à meditação.

No Sudeste estará uma fogueira controlada, cujo fogo me ajudará a esclarecer o que vejo (no Leste consciente), com a ajuda do que apreendi (pelo Sul dos meus ancestrais); no Noroeste haverá uma fenda na muralha, por onde surge o vento, irresistível e impulsionador do meu entusiasmo para eu realizar o futuro; no Sudoeste, sobre a muralha, tenho algo equivalente ao fogo, um forno aberto de tijolos com brasas incandescentes, que não iluminam, mas que acalentam e mantêm a minha energia (herança cultural do Sul e os meus valores inconscientes do Oeste); por fim, na direção Nordeste, sobre a muralha, tenho uma grande bacia d'água doce, que me nutre para a construção do futuro.

Tudo isso eu crio dentro de mim mesmo, um lugar de meditação, de autocondicionamento positivo, independente de qualquer realidade material, estrutural ou social. Nesse lugar, que reúne os elementos emocionais e míticos necessários para a realização do meu futuro, eu me preparo para lidar diariamente com a realidade.

Thadeu Martins

      

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