No meta espaço da meditação

Boa parte da prática de Yoga se dá na vida cotidiana, nas pequenas coisas do dia a dia, quando eu ajo de modo a prestar atenção ao que faço, para estar em harmonia comigo mesmo, com os outros e com o mundo. Isso exige bastante concentração, pois preciso ficar atento ao que faço e, ao mesmo tempo, a mim mesmo.

 No entanto, quando tenho a oportunidade de me retirar do dia a dia e ficar apenas comigo, sem estar dedicado aos compromissos diários, nesses momentos então tenho mais disponibilidade para preparar o meu local de meditação, conforme a tradição Natha, que aprendi nos textos do Carlos Eduardo Gonzales Barbosa.

Nessa preparação, imagino que estou desenhando uma mandala enorme, com um quadrado dentro de um círculo. O círculo representa o horizonte geográfico, é um meta horizonte. De olhos fechados, imagino diante de mim, no plano do coração, esse grande círculo. Estou dentro desse círculo e também do quadrado, que se torna uma muralha de proteção. Sobre cada quina desse quadrado coloco um objeto especial.

Com a imaginação, na quina à minha frente e à direita, ponho uma fogueira; na quina por trás e à minha esquerda, faço uma fenda por onde passa o vento; ainda por trás, mas à minha direita, coloco um braseiro, que não ilumina, mas aquece; e de novo à minha frente, mas à esquerda, coloco uma bacia com água potável.

Observo que na minha frente, lá longe no horizonte, onde nasce o sol, está o Leste, que representa tudo que me é consciente. Atrás está a minha sombra, o inconsciente, o Oeste.

Então, no Sudeste, passou a haver uma fogueira flamejante, que me acrescenta iluminação, para esclarecer melhor o que me é consciente. O sol ilumina tudo, indistintamente, mas a chama dessa fogueira é a minha lanterna. Lembro também que, a seguir pela minha direita, está o Sul, nessa mandala, onde ficam simbolicamente meus antepassados e todos aqueles que me ensinaram ou ajudaram a ser quem eu sou.

Portanto, do lado direito tenho uma herança de conhecimento, para ajudar-me a compreender o que me está consciente, e a luz da fogueira para ajudar-me a esclarecer tudo o que está iluminado pelo sol da minha consciência. Somam-se assim as luzes do consciente, do esclarecimento e do conhecimento.

Já a Sudoeste, embora sem luz, há o braseiro (colocado por mim), há o calor que se mantém ativo e que acalenta a minha herança ancestral: que preserva aceso o conhecimento, mesmo inconscientemente para mim. Tanto o Sudoeste como o Oeste estão por trás de mim, nessa mandala. Aí, tudo é inconsciente, porém, verdadeiro, pois não consigo mudar com as razões da consciência. O inconsciente é absolutamente confiável. É por isso que posso acreditar em minha intuição.

À minha esquerda está o meu Norte, o meu futuro, que realizo com meu entusiasmo e com o auxílio do impulso irresistível, que é representado pelo vento que sopra daquela fenda na muralha, a Noroeste. Por fim, a Nordeste, na esquina do muro, está colocada a bacia com água doce, para alimentar a minha vida, pois a água doce representa o sabor, o alimento vital.

É, portanto, com entusiasmo e alimento que construo o futuro, baseado no que tenho esclarecido, do que compreendo do passado e dos valores que estão no inconsciente.

São esses oito sentidos ou direções da mandala, que constituem o ambiente do local de meditação. Em cada direção há um valor simbólico associado, pelas representações sugeridas pela tradição indiana. Os hinduístas, por compreenderem que temos uma natureza cultural, usam alegorias míticas, idealizadas, imaginárias. Essas representações ajudam na identificação daquilo com o que se está engajado. Eu, humano, ser cultural, embora não indiano, também preciso criar a aparência daquilo com o que me identifico e também do que constitui a orientação de meus valores.

Então, posso aplicar essa mandala, visualizar as oito direções e seus simbolismos. E como são lugares meta geográficos, nem é preciso estar de frente para o sol, ao amanhecer. Onde eu estiver, diante de mim, estará o "meu" Leste. Esse é um recurso interior de firmeza e estabilidade, porque esse referencial é totalmente meu, e independe de condição material.

A visualização desse meta espaço pode ser feita tanto de olhos fechados como abertos e a qualquer hora do dia ou da noite, num lugar onde eu me sinta seguro. Com ela irradio a minha mandala, a partir do meu centro afetivo, o coração, com o propósito de acalmar as paixões, tanto as negativas (de aversão), como as positivas (de prazer). Com essa mandala interior, posso esclarecer e compreender o que me está consciente, agradecer aos que me antecederam, entregar-me confiante ao inconsciente, projetar o futuro e me sentir mais tranquilo, em paz.

Thadeu Martins


      

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