Yoga, o recolhimento ao coração

O sábio Patânjali, logo no início do texto dos "Sutras de Yoga", afirma que Yoga é o recolhimento das atividades da mente ao coração, de modo a ser quem se é verdadeiramente. Então, cada um de nós, com essa intenção, e o exercício de assentar a mente no coração, vai tranquilizar-se naturalmente e assim prosseguir, em sua plenitude, sendo quem verdadeiramente é.

Mas, fica a pergunta: como se recolhe a mente no coração?

Conforme ensina o sábio Patânjali, a mente é expansiva em suas atividades. Os pensamentos, como normalmente se chamam as atividades mentais, são expansões da nossa mente – algo semelhante às ondas provocadas por uma pedra no instante em que cai num lago, ou às ondas sonoras e tridimensionais que se ouvem. As ondas mentais se projetam para fora de nós, para tudo o que lhes for perceptível.

O nossos núcleos mentais, as nossas personalidades, estão sempre se expandindo, procurando encontrar a si mesmos em tudo que vê. Isso pode ser um alerta importante, por exemplo: quando eu me fixar em reclamar, repetidamente, de alguém, é porque a mente expandiu-se e grudou naquela pessoa; uma das minhas personalidades está reconhecendo naquela pessoa algo de mim mesmo e que me faz reclamar; desagrada-me, embora eu não perceba isso em mim e só perceba no outro.

A nossa mente se fixa naquilo em que encontra alguma sintonia com ela mesma, então o melhor é compreender a situação e resolvê-la, para mudar logo de estação, em vez de se ficar "amarrado" em encrencas, que talvez nós sejamos a principal causa (não intencional).

São cinco os tipos de atividade ou expansão mental citados nos Sutras: a evidência, a inventividade, a imaginação, o sono e a memória. Elas se expandem e grudam em tudo a que damos atenção, no nosso mundo perceptivo.

Mas essas atividades mentais tanto podem estar em seu estado natural, em que não nos incomodam, quanto em estado perturbado, a nos incomodar e trazer desconfortos.

Patânjali aponta cinco estados que perturbam as nossas atividades mentais: a ignorância, a egoidade, a busca do prazer, a aversão à dor e o medo de ser excluído (de não pertencer a um grupo a que damos importância afetiva, por menor que seja ou o grupo ou o afeto). Essas seriam, portanto, as cinco principais causas do sofrimento mental.

Lembrando que essa egoidade nada tem a ver com egoísmo. Egoísta é apenas a pessoa que não pensa em mim (risos). Já egoidade é quando, por exemplo, faço uma atividade, não pelo fato de ela ser necessária, mas sim porque eu poderei me orgulhar de a ter realizado, se ela der certo, ou porque me envergonharei se ela der errado, i.e., eu, que sou o agente da ação, me faço mais importante do que a atividade necessária. Eu coloquei "ego" onde ele não precisava existir.

A ignorância é um conceito um pouco mais sutil. Basicamente, é confundir quatro conceitos básicos com os seus opostos: o eterno com o transitório, o puro com o impuro, o conforto com o desconforto e o verdadeiro com o falso. É tomar algo pelo que ele não é.

Mas alguém poderia se perguntar: como o prazer seria causa de sofrimento? O sofrimento passa a ocorrer quando ficamos dependentes de doses diárias de prazer; assim como de inclusão ou mesmo da possibilidade de dor.

A dependência "química" do pertencimento, então, é das mais comuns, porque ninguém quer sentir-se excluído. Desde criancinha aprendemos a fazer algo para sermos aceitos. Essa criança carente, que precisa ser incluída, vai nos acompanhar por toda a vida. Podemos, assim, ficar sempre dependentes da avaliação das outras pessoas. Então, adote-a e cuide da sua criança, para ela livrar-se dessa dependência da permissão para ser feliz.

Embora essas perturbações, que levam ao sofrimento, possam ocorrer a qualquer tempo, nós podemos nos livrar delas com o auxílio do nosso coração.

Sim! Os yogues sentem a presença de si mesmos no coração. De modo que somos ao mesmo tempo dois "eus": um operador e um supervisor, aquele que atua e aquele ("tranquilão") que observa o operador em ação e que pode orientá-lo para o melhor.

Assim, as perturbações atingem apenas e temporariamente o operador, não o supervisor, que tem o papel de preservar a calma, a tranquilidade, a possibilidade de o operador sair das perturbações.

A chave do sucesso, para lidar com as perturbações, é o recolhimento ao coração. Esse é o propósito dos exercícios de Yoga: cultivar o estado de interiorização (também chamado de Samadhi), em que você se recolhe ao seu coração habitualmente, no dia a dia dos seus afazeres cotidianos. Para quando uma perturbação ocorrer, você estar treinado para apoiar-se na sua tranquilidade interior e poder lidar com a situação perturbadora.

O Samadhi é um hábito a ser cultivado. O desafio é você exercer todas as suas atividades habituais, mas em si (e nunca fora de si), de tal modo que você seja o tempo todo o operador com o supervisor, que habita o seu coração.

No estado de recolhimento dos yogues, o operador e o supervisor ficam em harmonia, um com o outro. Assim, o coração pode orientar a percepção da realidade do operador, e ela passar a ser vista como ela é realmente e não distorcida pelas emoções.

Na compreensão dos yogues, o eu do coração está em tudo que existe e, por isso, ele não depende da percepção do operador, ele não precisa perceber o mundo; ele é a própria verdade do que existe. Ele é espiritual, não depende da percepção material. Embora a voz que vem do nosso coração, a intuição, nos dê a sensação de individualidade, ele está em todo lugar e nos outros também.

Um bom exemplo, desse estado interiorizado é o da total concentração, em que um médico cirurgião se encontra ao fazer uma operação de alta complexidade; ou um equilibrista, ao atravessar, em uma corda bamba, por cima de uma cachoeira; ou nós mesmos, "andando" de bicicleta.

Vivemos em um equilíbrio precário, instável, mas em que o nosso movimento nos dá uma extraordinária estabilidade. Podemos fluir pelo mundo, inabaláveis, percebendo as coisas como elas realmente são e não com a aparência que elas possam apresentar ou ser apresentadas.

Você pode praticar esse hábito de estar em contato com o seu supervisor interior, que está no seu coração.

A maneira mais fácil de criar esse hábito é respirar.

Sim! O respirar que fazemos o tempo todo. Quando você inspirar, sinta o ar indo até o seu coração, com a intenção de você ir até o seu coração, onde o sangue é alimentado para levar o oxigênio às trilhões de células do seu corpo. Continue a fazer tudo o que faz habitualmente, mas respirando dessa forma, com o propósito de ser plenamente você mesmo. Ao expirar, sinta o ar saindo do seu coração, para liberar para o espaço o que você não precisa internamente.

Perceba o seu corpo como um caminho para o coração, para harmonizar-se com o seu supervisor espiritual, que nele se manifesta. Você pode espalhar essa sensação de harmonia do seu coração pelo seu corpo todo, como se estivesse a sorrir para você mesmo e dirigir-se para as atividades que têm a ver com você; seguir a sua vocação de felicidade e harmonia no mundo.

Dessa forma, você estará praticando o principal hábito de Yoga: o recolhimento ao coração.

Thadeu Martins, em conversa com Ricardo Borges

 

      

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