Yoga, Budismo, Islamismo e o segredo da realidade futura

O sábio Patanjali, do Yoga, e o príncipe Gautama, do Budismo, surgiram quase na mesma época. Buda foi discípulo de Mahavira, o reformador do Jainismo, por volta do século V a.C., enquanto Patanjali estabeleceu a doutrina do Yoga nessa mesma época.

Tanto o Jainismo reformado quanto o Budismo e o Yoga eram formas de crítica intelectual ao domínio e à manipulação dos brâmanes. No entanto, por uma circunstância que logo se sucedeu, a dinastia Mauria, do poderoso imperador Ashoka, conseguiu fazer com que a Índia se tornasse budista, em consequência da conversão daquele monarca. E assim permaneceu a Índia por cerca de um milênio. Mas, nesse período, muito do Yoga foi absorvido pelo Budismo, pelas similaridades que tinham essas duas linhas doutrinárias.

Por isso é possível encontrar no Budismo muito das técnicas de meditação e dos princípios do Yoga, assim como se encontram em ambos muito da tradição Jainista, que é mais antiga. Por exemplo, o código de ética (yamas): não ofender, não mentir, não roubar, não se dispersar e não cobiçar. São preceitos jainistas, que foram integralmente absorvidos pelo Yoga e pelo Budismo.

Os principais comentadores do Yoga surgiram naquele período Budista. Portanto, acontecia uma tendência de eles aproximarem o Yoga com o Budismo, enquanto no período seguinte, em que o Hinduísmo volta a ser principal, são os brâmanes que tentam alinhar o Yoga com o Bramanismo.

No entanto, foram os Nathas, uma imensa seita hinduísta que preservou, de fato, o Yoga em suas tradições (conforme a doutrina de Patanjali) e o incrementou com as tradições tântricas, pelo menos até a idade média, quando se produziu o Hatha Yoga e outros textos mais ou menos conhecidos, porém, plenos de sabedoria e da tradição original.

Hoje em dia, o Budismo e o Yoga, com os quais se tem contato, são versões modernizadas. Verificamos uma grande variedade de tipos de Yoga: Yoga ginástica, Yoga cristão, Yoga budista e outros. Já o Budismo, entre suas derivações, é mais vivenciado como uma religião messiânica e ampla, uma das maiores do mundo. Embora, originalmente, tenha sido apenas uma linha de pensamento e ação, derivada do Jainismo reformado por Mahavira, mestre de Buda.

Buda havia sido um príncipe de um reino bem pequeno ao norte de Varanasi, ao norte da Índia – no território da grande Índia (Mahabarata). Ele renunciou à sua condição de nobreza para seguir Mahavira, mas talvez o tenha superado em influência popular, pois, o Budismo, além de espalhar-se pela Índia, prosseguiu para a China e arredores.

Quando o Hinduísmo retorna ao poder na Índia, o Budismo já se tinha exportado de lá, de modo majoritário. Depois, foi a vez do Islamismo predominar na Índia, mas por meio de invasão, e não por ter brotado originalmente como o Hinduísmo e o Budismo.

No entanto, também o Sufismo, islâmico, adotou muito do Yoga. Talvez porque o Yoga sempre tenha sido uma doutrina em vez de uma religião.

De modo bem simplificado, pode-se dizer que uma das principais diferenças filosóficas entre o Budismo e o Yoga diz respeito à percepção da realidade, do mundo e do indivíduo: para o Budismo, nem nós nem a realidade somos reais; logo, a relação entre nós e a realidade é ilusória. Segundo o Budismo, tudo é ilusão. Já para o Yoga, a realidade existe e nós também existimos, a nossa relação com a realidade é que é fantasiosa.

Conforme comenta o professor Carlos Eduardo Barbosa (no “O livro de ouro do Yoga”, ed. Ediouro), essa assertiva do Yoga teria agradado ao povo, de tal forma, que conteve um pouco a debandada do Hinduísmo para o Budismo, no período de sua expansão inicial; e, talvez por essa razão, os brâmanes tenham se aproximado do Yoga naquela época, e mais tarde o tenham abandonado, quando o Budismo perdeu a sua força, depois do fim da dinastia Mauria, daquele imperador Ashoka.

Mas a sorte da tradição Yoga, conforme explica Carlos Eduardo Barbosa, em outro livro (“A meditação dos yogues”), foi ter sido preservada pelos Nathas, antiga seita hinduísta e presente em todo o território indiano, que sempre se manteve firme na tradição do Yoga, em meio àquelas mudanças de marés políticas e religiosas.

Os Nathas ritualizavam a meditação yogue, de modo a tanto se permanecer na realidade como também a criar uma realidade virtual própria do meditador. Na meditação dos Nathas, eles focalizam a atenção e usam a imaginação para criar esse espaço virtual em volta de si.

Primeiro, os Nathas sugeriam sossegar e imaginar um lago que se estende a partir do coração, na altura do peito do meditador, em que será possível ver o horizonte, no qual eles visualizam o sol nascendo, para sintonizar dentro de si a vontade de ver com clareza a realidade, que surge diante deles.

Em seguida, levam a atenção para o céu noturno estrelado que está atrás das próprias costas do meditador e que representa a ordem do universo, com o qual todos nós convivemos muito antes de nascer. Esse céu noturno e estrelado simboliza a confiança que se deve ter em nosso inconsciente e se deve instalar em nosso coração.

Depois, a atenção vai para os nossos ancestrais e aqueles que nos educaram e orientaram para sermos quem somos hoje. Então, aponta-se simbolicamente para eles com a mão direita, na direção do horizonte, com um sentimento de gratidão, que também se distribui por todo o corpo.

Já a mão esquerda representará o futuro, ao qual podemos direcionar o entusiasmo que realiza o futuro individual.

Mas antes de partir para o futuro com entusiasmo, precisa-se de perceber a consciência representada pelo sol nascente, diante de nós, bem como sintonizar-se com o inconsciente, representado pelo céu noturno e sua perfeição estrelar, que é a fonte de confiança em nossos valores e na verdade.

Para o futuro, o que temos é ainda apenas uma intenção, que tanto pode ser de curto ou de longo prazo de realização. Para orientar nosso entusiasmo futurista é necessário se apoiar na clareza, na confiança e na gratidão, para se ter mais sorte, do que apenas contar com o entusiasmo para a concretizar os nossos planos. De modo que o futuro venha com a nossa boa intenção de ser o melhor dos futuros – para você e para as pessoas com quem você interagir ou conviver.

O espaço virtual que você criar será exclusivamente seu, do jeito que você o conceber, seja você, yogue, budista, islâmico, cristão ou de uma outra fé ou preferência especial.

E, se você quiser, poderá fazer essa forma de meditação sempre que precisar recarregar as suas convicções e as suas células com a intenção de você se realizar autenticamente, para ser quem você é verdadeiramente, hoje e em seu futuro, como se tivesse recebido uma prática secreta transmitida pelos sábios ancestrais.

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges

      

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