Para além da meditação

Na meditação, trabalhamos a mente para nos aproximarmos de nós mesmos e isolarmos a percepção ao que é externo a nós, para cada um de nós ficar em si: na felicidade autêntica.

A meditação pode ser entendida, portanto, como um processo de isolamento da percepção, em que nos concentramos, de modo a nos distanciarmos das solicitações externas e nos aproximarmos da unidade essencial da vida em nós.

De início, você pode até usar o artifício de se identificar com algo ou alguém. Então, você pode se identificar com um objeto, com uma pessoa que admira ou com uma situação que quer compreender, mas logo em seguida você vai se afastando dessa identificação, como se ela fosse se tornando apenas uma paisagem.

O processo de concentração é o primeiro dos três estágios de meditação, em que, concentrado, até me identifico com algo – material ou abstrato –, mas com a intenção do isolamento de tudo o mais.

Assim, primeiro, você se identifica apenas para parar de atender a todas as solicitações que o ambiente traz. Continua a se perceber e a sentir tudo, mas quando afunila a sua atenção, concentra-se e deixa de considerar tudo o que está percebendo. Você focaliza para perceber apenas o seu objeto, o seu foco de concentração.

Em seguida você se distancia. Gradativamente vai se distanciando do seu corpo, das suas emoções, dos seus pensamentos, dos significados dos sentimentos e das emoções.

Mesmo assim, restarão ainda alguns significados muito antigos; que são os arquétipos, imagens mitológicas muito antigas, anteriores ao nosso tempo, que conformam o nosso inconsciente. Então, você prossegue se distanciando, até desses arquétipos.

Esse processo vai-se sucedendo sem muito esforço, basta simplesmente deixar passar tudo o que vier à sua mente, como se fosse uma sessão de cinema tranquila, a que você está assistindo despreocupadamente.

Depois de atingir o distanciamento quase completo, você já nem é mais você! Porque passa até mesmo o sentido da individualidade. Você se distanciou do corpo, das emoções, dos significados e dos meta significados, que são os arquétipos.

O que resta então? A graça divina da vida. Você desaguou no Lago da Memória, na fonte espiritual da vida.

Esse processo de distanciamento é bem semelhante ao da morte natural, segundo diversos estudiosos no assunto, porque a morte é também um processo de distanciamento, de “desidentificação” com o existir no espaço-tempo.

Afinal, é no espaço-tempo que faz sentido falar em corpo, sentimento e significado. Quando se está além do espaço-tempo, tudo é relativizado em potencialidades – esse conceito é bem explicado pelos pesquisadores da Física Quântica, como por exemplo o PhD Amit Goswami.

Os distanciamentos que acontecem pela meditação ou pela morte natural são obviamente distintos, porém, são dois processos bem parecidos, segundo a compreensão dos yogues.

A vivência da meditação é sempre a própria pessoa quem conduz, conforme o processo que descrevemos acima, no entanto, pode parecer surpreendente que a vivência do gradual distanciamento na minha morte natural também possa ser conduzida por mim mesmo, do mesmo modo que uma meditação.

Seria o caso de uma pessoa tão tranquila, com tanta paz de espírito, a ponto de perceber e de viver conscientemente seu processo de morte natural, sem precipitações e em plena felicidade de bem completar um ciclo de vida.

Quando morremos naturalmente, nós nos distanciamos integralmente das percepções, e passamos a um estado de plena inconsciência.

Algo semelhante acontece num relaxamento profundo ou meditativo, em que quase atingimos esse limiar de distanciamento, embora a vida esteja a prosseguir e a nos fazer voltar, por si mesma, ao estado de vigília ou consciência, pois ainda não chegou a hora do encerramento do nosso ciclo de viver.

Suavemente estamos respirando e pulsando com a vida nos cem trilhões de células que vivem e interagem dentro de nossa pele, embora não tenhamos muita consciência disso tudo, pois, de fato, a vida não é somente minha, ela é simultaneamente dessas cem trilhões de células comigo junto, e isso é independente da minha aparente consciência e onipotência presumida.

Extraordinária, embora essencialmente trivial, é a possibilidade de eu bem viver aqui, livre de perturbar-me pelo excesso de vigília ou consciência, que impede a felicidade, e ainda mais sem a necessidade de ter que morrer para isso: sem ter que ir além da meditação.

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges

      

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