Todo dia é dia de autoconhecimento

A gente pratica Yoga para ser feliz. E para isso, sossega-se a mente, reduz-se o incessante interpretar do mundo e de tudo que se percebe. Esse é um bom desafio de dirigir-se para dentro de si, pois quando se interpreta o mundo, a gente se dirige para fora de si.

Então, como tudo que se faz na vida é um jogo de ação e reação, que tal jogar percebendo-se a si mesmo, a si mesma, nas próprias ações e reações ao que se faz, se diz e se sente? Só pra ver se você está jogando a seu favor no jogo de viver ou está fazendo gol contra.

Além do mais, toda ação ou reação é memorizada inconscientemente. Os yogues dizem que memorizamos assim: guardamos a emoção – movimento que vem de fora – e atribuímos um significado a essa emoção. Assim, criamos um registro duplo; nossa memória é uma mistura de emoção e significado. Mas quem dá o significado é a mente, conforme a sua interpretação do ocorrido.

Cada um de nós percebe a realidade de um modo e dá a ela um significado particular e, provavelmente, diferente do de outra pessoa.  A interpretação que cada um dá a um fato depende da história pessoal, da circunstância, da sintonia em que se está no fato ocorrido.

Se conseguíssemos, em algum momento, ficar tão apaziguados que as nossas mentes ficassem assentadas no coração, que é universal e nos une a todos, talvez percebêssemos uma mesma realidade, pois nenhuma de nossas mentes, naquele momento, estaria interpretando a realidade conforme a sua história pessoal.

Então, a chance de compartilharmos uma mesma realidade seria muito maior. Esta é apenas uma observação de que a realidade mesma não depende da minha mente nem da de ninguém, embora cada um a perceba de um modo pessoal.

E uma forma prática de estar feliz é não precisar contrapor as diferentes interpretações da realidade com os outros, é simplesmente ficar em si. Viver quem eu sou, simplesmente, como se eu estivesse num contínuo estado de meditação e compreendendo que a realidade é o que ela é sem depender da interpretação de ninguém, nem de mim.

Talvez por isso, o principal exercício da prática de Yoga seja meditar e prestar atenção em si mesmo, de modo a ficar mais imune às emoções e aos seus significados, que exigem demais da nossa energia (para lidar com o que é externo a nós).

A intenção é de diminuir as importações de sentimentos, porque se passa grande parte do tempo a atribuir significado a emoções das personagens de cinema, televisão, noticiário, dramas, tragédias e fofocas, para poder sobreviver com elas.

Às vezes são umas coisas que nem suporto, mas que tenho de dar um colorido a elas para poder conviver com a emoção, que vem de fora, que exportaram para mim, que não faz parte real da minha vida.

Por isso é necessário ir para um lugar tranquilo, fechar os olhos e ouvir os ruídos de fora, mas sem dar muita atenção. Assim você cria as pré-condições para a meditação: conforto e pouca perturbação. Daí você passa a incorporar essa prática no seu cotidiano, de pelo menos cinco minutos, em todos os dias.

Se você se habituar a isso, será maravilhoso, pois será um autoconhecimento que você mesmo vai descobrir e construir. O simples fato de você ficar com você mesmo por cinco minutos, diariamente e sempre, cria um caminho de autoconhecimento – a melhor autoajuda que há! São cinco minutos em que você está com você, algo que raramente nos permitimos, pois estamos o tempo todo interagindo com o mundo externo a nós.

Claro que à medida que você vai praticando esse autoconhecimento, vão começar a surgir desafios, pois conhecer-se é desafiador. Nós não estamos habituados a olhar para dentro. Então, se começarem a surgir pensamentos que incomodam, lembranças recorrentes (as reminiscências) ou fatos do dia a dia que lhe aborreceram e ficaram remoendo, aproveite para analisar-se na mesma hora (precisa ter à mão caderno e caneta, ou iPhone).

Se surgir uma dessas reminiscências, tente perceber qual é a emoção que ela provoca em você. Descreva a emoção associada àquela situação reminiscente em uma palavra apenas. Registre essa emoção, anote no papel: “ódio”, por exemplo.

Não se envergonhe, todo mundo sente tudo. Sentiu, é verdadeiro, é digno, não há problema em sentir. O problema é querer bater em alguém porque você sente ódio. Mas o fato de estar com raiva é normal, é uma verdade.

Às vezes só isso é o suficiente, registrar a emoção já pacifica a alma. A emoção já perde a força, você será capaz de verbalizá-la, você não fica aprisionado a essa emoção, pois conseguiu criar um distanciamento.

Mas se isso não for o suficiente, é porque é um sentimento ao qual você deve dar mais atenção, caso contrário ele permanecerá incomodando. Então você se pergunta: quantas vezes essa emoção aconteceu? Quando foi a última vez? E a anterior? Registre, esclareça.

Se continuar a insistir, pergunte-se: há ou não algo a fazer? O passado já passou, ninguém desfaz o passado. Mas, se há algo a fazer, faça. Porém, se não há, só resta perdoar, que é a melhor forma de resolver. Perdoe a si mesmo e toque a vida pra frente, de modo mais leve e bem resolvido.

Perceba que agora você é outra pessoa, já evoluiu muito e, que naquela situação, não estava preparado para lidar com ela. A partir de agora, no entanto, é preciso ritualizar esse perdão, o luto da perda daquela emoção, pra poder superá-la. Invente um ritual, faça uma oferenda, jogue pedrinhas no lago, acenda uma vela, compre uma roupa nova, agradeça a Deus.

As reminiscências sempre voltarão, mas você estará mais forte. Eventualmente acontecerá um retrocesso. Fazer bobagens outra vez, é da natureza humana. Insista, porém, no seu perdão e na sua determinação de ser feliz. Mesmo com retrocessos, a sua prática de autoconhecimento, e a boa-vontade consigo mesmo, vai neutralizar essas questões recorrentes.

Assim, progredimos com a prática da meditação. Cada vez que se faz, a nossa mente ficar mais independente das influências externas, com mais facilidade de assentar-se no coração, onde reside a nossa fonte de felicidade autêntica.

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges

 

      

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