Aprendendo a lidar com o medo

Há três características, em que se evita pensar muito, mas que são comuns a todo mundo: medo, orgulho e vaidade. Claro que estarão presentes em diferentes proporções, dependendo do dia, das circunstâncias e de cada um. Mas sempre estarão muito presentes, já que todas elas têm uma referência imediata com o que não é você, com o que está fora de você: com o outro ou com o mundo.

Porque é nessas relações com o outro e com o mundo que cada um de nós se reconhece, vai-se constituindo e se formando, por contrastes e confrontos. E entre os extremos do desprezo e da destruição, há pontos em que essa interação é construtora de cada um de nós.

Mas, muitas vezes, esse contraste é sofrido e complicado. Por isso podemos ficar receosos do próximo confronto. Isso é natural. O medo em si não é um problema; pelo contrário, é um alerta de sobrevivência. Graças ao medo estamos aqui. Nossos ancestrais, quando ouviram um rugido, não pararam para pensar, saíram correndo.

Então, o medo pode ser algo saudável. O exercício de lidar com esse sentimento, que está dentro de nós, é que é a questão. Muitas vezes o medo tem uma referência prática bastante grande. Quando compreendemos a origem desse medo, fica mais fácil. Não que ela vá deixar de existir, pois nossas memórias permanecem. Mas ficamos capazes de neutralizar: o que já ajuda muito.

Ao longo da vida, todos nós passamos por mudanças, muitas delas radicais. Só a palavra mudança pode trazer um temor para algumas pessoas, principalmente aquelas que tiveram experiências de mudanças bruscas, as quais não foram bem trabalhadas ou tratadas. A expectativa de uma mudança indeterminada está sempre na ponta da agulha do nosso medo.

E há um medo, do qual nenhum de nós escapa: o medo da própria destruição, de deixar de existir. É algo que deve estar lá no núcleo das nossas células. Assim, fisicamente. Por isso é necessário cuidar da nutrição adequada dos nossos órgãos que ajudam a lidar com as emoções – “ex- motio”, movimento que provém de algo fora de nós. Afinal, o medo é uma das reações ao externo.

Tudo o que é emotivo é algo que vem de fora, não é um sentimento que brota dentro de nós. É uma reação. Por isso, em contrapartida, vale cultivar os sentimentos autênticos que brotam dentro de nós, para ficarmos menos dependentes de emoções (externas). Nesse sentido vem a importância da nutrição, tanto a afetiva quanto a orgânica.

Do ponto de vista afetivo, temos que nos nutrir com amizades, sinceridade, relacionamentos que sejam de bom astral. Enfim, precisamos sair um pouco do caminho frequente de reforço da tristeza, da reclamação, de estar sempre colocando a culpa nos outros – no governo, na empresa, na administração.

Esse é um reforço que nos destrói por dentro. Precisamos tomar alguns cuidados com essa nutrição. Por que fazer as refeições com a TV ligada, com exposição a todo tipo de violência? Você vai detonar o seu afeto. É evidente que a programação da TV comercial é feita para incutir o medo e a excitação difusa. Então, afetivamente, é importante "sair desse canal" e passar a nutrir-se daquilo que eleva, que traz bom astral para a sua mente e o seu coração.

E do ponto de vista da comida mesmo, precisamos nos alimentar daquilo que é nutritivo de verdade, daquilo que vai beneficiar os nossos órgãos. Então, você vai evitar frituras, arroz branco, farináceos e óleos vegetais refinados. Batatas fritas e pizzas, por exemplo, só fazem bem para quem as vende. Esses alimentos são causadores de inflamação celular e de doenças graves. Já houve até prêmio Nobel de medicina demonstrando isso.

A humanidade fez uma mutação no século XX, em função do uso exagerado de farináceos e do consumo de óleos refinados (soja, milho, canola, etc.). Use azeite, manteiga, banha de porco ou gordura de coco. Nossos ancestrais usavam e não tinham os problemas e as doenças modernas.

A maioria dos óleos vegetais nem digeríveis são! Faça um prato o mais colorido possível e passe a consumir diariamente uma ou duas cápsulas de ômega 3 para neutralizar a inflamação celular que aqueles alimentos industriais já instalaram no seu corpo.

Então, do ponto de vista nutricional, a dica é sair das situações de estresse, para não destruir a tireoide e os rins, e comer aquilo que nutre de verdade o seu corpo (e por consequência também nutre os rins e a tireoide).

Quanto às práticas físicas de Yoga, faça algumas vezes ao dia (manhã, tarde, noite) a postura da cobra, aquela em que se fica com o corpo deitado (de barriga para baixo), elevam-se os ombros e olha-se para cima; fica-se um tempinho assim e depois se descem os ombros e a cabeça. Assim você estará exercitando e nutrindo adicionalmente os rins, as suprarrenais e a tireoide.

Ainda do ponto de vista prático, os estudiosos do tema afirmam que o medo é uma forma de omissão, de não estar presente aqui e agora. Então, nos momentos em que não sentimos medo, temos que lembrar e praticar o estar presente. Uma ótima forma para isso é se desdobrar, passar a ser duas pessoas: a que está agindo e aquela que está prestando atenção na pessoa que está agindo (ambas são você).

Pergunte-se: "estou me sentindo bem?" Estou inteiro nisto que estou fazendo? Faz sentido pra mim isto que estou fazendo? Ou estou atuando para fazer média com quem vai me avaliar?

Faça de verdade o que está fazendo. Isso muda tudo! E sem medo de errar, porque você vai aprender na medida em que você errar. Arrisque-se, gradativamente, que nem você fazia quando era criança e sem fazer grandes besteiras. "Pequenas besteiras, grandes progressos!"

Muitas vezes (maioria delas), o medo de errar está associado ao medo de não ser aceito pelos pais, ou por aquelas pessoas a quem você está outorgando o poder de lhe avaliar, legitimar. Essas pessoas talvez já nem existam mais, porque a situação original já passou há bastante tempo, mas criamos um complexo que inseriu a imagem do avaliador dentro de nós.

Criamos, em nossa mente, um todo avaliador de nós mesmos, ainda que o avaliador não exista mais. Idealizamos uma imagem de perfeição e seguimos rebocando um complexo avaliador, cada vez mais pesado. Só vamos perceber a liberação disso nos arriscando, aos poucos. Assim vamos aprendendo com o risco que podemos prosseguir e arriscar um pouco mais.

O medo, assim como a vaidade e o orgulho, são aspectos muito primitivos, portanto constituintes, da nossa legitimação, da nossa auto aceitação. Muitas das vezes (quase sempre), a nossa referência de medo tem relação com a necessidade de ser aceito.

E o sistema social vai reproduzir essa aceitação condicional perpetuamente: são os crachás, as carteiras, os uniformes, os diplomas, os aplausos; a atenção dos outros! Então, ficamos o tempo todo administrando a aceitação. Precisamos estar sempre com esse passaporte em dia!

Portanto, o medo é uma condição existencial. A escala como ele vai se manifestar em cada um de nós depende de como lidamos ou lidaremos com a nossa existência. Mas, certamente, quanto mais lidarmos com a clareza da origem do medo – que está relacionada com essa necessidade de aceitação original – mais estaremos relativizando a situação objetiva com a nossa história pessoal que formou a idealização.

Se a gente conseguir lembrar da situação original que está associada com a atual situação, as semelhanças e as diferenças ficarão evidentes. Ficaremos mais capazes de neutralizar, agora, aquele medo original, para poder lidar apenas com o que a situação atual tiver de ameaçador. Ela ficará bem mais fraca do que nós a idealizáramos.

E como trazemos isso para o yoga? Será que em yoga se trata do medo? Sim! Há muito tempo, o sábio Patânjali aponta, logo no início do segundo capítulo dos Sutras do Yoga, que há cinco causas mentais para o sofrimento: (1) a ignorância; (2) o egoísmo – projetar o eu no que não sou eu, como, por exemplo, os meios ou recursos que utilizo; (3) a busca do prazer; (4) a aversão ao sofrer e finalmente (5) o desejo de estar sempre incluído, o querer ser aceito – também traduzido como medo da morte (a exclusão extrema).

Ali se encontra uma das mais antigas referências literárias ao medo, como a dificuldade primitiva de lidar com a exclusão, a qual decorre, assim como as demais quatro causas do sofrimento mental, da ignorância – tomar como verdadeiro aquilo que é falso, como permanente aquilo que é transitório, como bem-estar o que é desconfortável, como individual o que é coletivo.

A criança, que cada um já foi, não tinha suficiência para superar a ignorância causadora disso tudo, mas o ser adulto em que a criança se tornou pode virar o jogo. Vale dedicar-se a compreender-se, conversar com pessoas amigas, fazer atividades de cooperação, empenhar-se em terapias habilitadas. E incluir a prática da doutrina de yoga pela disciplina da meditação e do agir com desapego.

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges

      

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