Os nove obstáculos ao Samadhi

Nos últimos encontros, temos conversado sobre a essência do Yoga: permitir que dentro de cada um de nós se revele quem nós somos: o ser autêntico, autor da sua própria história.

Mas que ser autêntico é esse? Posso dizer que, embora eu exerça várias personagens em minha vida (professor, aluno, contribuinte, escritor, marido) existe alguém,  por dentro delas todas, que sou eu, eu mesmo e independente de qualquer personagem eventual ou mais frequente.

Segundo o sábio Patânjali, seria preciso concentrar-se no intermediário entre o seu espírito e o seu corpo, para conseguir revelar quem você realmente é. Para então fazer esse intermediário assentar-se no seu coração e ouvir a voz da sua intuição. E quem é esse intermediário? É a mente, que fica o tempo todo fazendo a intermediação e a tradução do mundo social, em busca de conforto e estabilidade, para ela e para você (às vezes me parece que é mais para ela mesma).

A mente faz isso tudo como um piloto automático, se a gente deixar, se eu não colocar a minha intenção para comandar a mente. Se a gente deixar a mente agir sozinha, então, o nosso eu do coração, que é o essencial, que é a vida em mim e também em você, fica meio apagado sem ser ouvido – até por que o som do coração é o som do silêncio.

Para ouvir a voz do coração tenho que ficar em silêncio, para poder conectar-me com o meu silêncio, para ser capaz de perceber uma inspiração, uma revelação. Pois ouvir a voz do meu silêncio traz revelações. No entanto, estamos tão envolvidos no barulho da cidade, que o coração não é ouvido nem se percebem as revelações dele. Enquanto isso, a mente autônoma administra a nossa vida, do jeito que ela acha melhor (talvez para ela mesma).

Portanto, podemos nos tornar alguém que vive apenas socialmente, em uma vida totalmente projetada para fora e em reação ao que vem de fora. Levar uma vida ordenada pelas emoções que a mente administra, sem viver a vida que brota de dentro de cada um de nós. Assim, não vivemos quem verdadeiramente somos e ficamos a interpretar jogos mentais, às vezes sós e muitas vezes em coletivo.

Para mudar esse roteiro de dramas previsíveis, Patânjali chama a atenção para a necessidade de dedicar algum tempo de cada dia para ficar em silêncio, com firme intenção e propósito de deixar a mente assentar-se no coração. Assim, a mente assentada e, portanto, tranquila poderá comandar o corpo conforme a nossa intuição gostaria que o corpo funcionasse.

A intenção é a de o corpo realizar a verdade autêntica do coração e não apenas a interpretação que a mente faz da realidade; para que possamos então viver também os sentimentos que brotam de dentro para fora, e não apenas reagir às emoções, que vêm de fora para dentro. Essa é a essência do Yoga.

Para praticar esse assentamento da mente, você pode criar uma disciplina, por exemplo: à noite, antes de dormir, ou pela manhã, antes de se levantar, dedique alguns minutos ao silêncio, com a intenção de ouvir o coração. Basta silenciar com essa vontade. Ao assentar a mente no coração, você cria a principal condição em Yoga para revelar quem você é. Esse estado, em que você está sintonizado no seu coração, ouvindo a sua intuição, os iogues chamam de Samadhi; você está em si, de modo inteiro e autêntico.

Você pode praticar todos os dias, de tal modo que se torne agradável, habitual, até se tornar parte da sua natureza. Dia a dia, você vai se habituando a cultivar o seu silêncio, a sua paz. Você vai gostar e vai começar a expandir a sua tranquilidade, até se tornar naturalmente independente das emoções e do drama social, como fazem os yogues.

Mas alguns obstáculos levam à dispersão da mente e podem atrapalhar a sua vivência autêntica, ou Samadhi, como aqueles citados por Patânjali no capítulo 1, sutras de 29 a 32, em que se refere a nove obstáculos ao Samadhi:

- doença, apatia, dúvida,

- torpor, inatividade, desinteresse,

- divagação, realização imprópria e instabilidade.


Para superar esses obstáculos, é antes de tudo necessário perceber o imenso valor de se estar vivendo. Além de praticar regularmente o silêncio, para ouvir a própria intuição, vale seguir também algumas dicas do sábio Patânjali, para sempre colocar a sua intenção positiva em tudo que fizer ou pensar, de modo a aproveitar as circunstâncias como oportunidades de demonstrar:

- amizade nas situações de conforto;

- compaixão nas situações de dor;

- alegria nas situações de virtudes;

- indiferença nas situações de maldade.


Será que com essas atitudes a gente vence os obstáculos? Quem pratica yoga desse modo diz que sim. Pois não basta praticar os exercícios físicos que ajudam a manter a saúde e os de meditação para concentrar e assentar a mente. Por que a vida se exerce em todas as circunstâncias e, por isso, a intenção e as atitudes têm que estar sempre presentes.

Os desafios e as superações não acontecem nos exercícios e sim no dia a dia do viver consigo e com os outros no mundo. Vale começar agora; que tal?

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges


      

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