Siga a sua intuição

A principal atitude em Yoga é ser autêntico. Isso está na origem do Yoga, para estimular cada pessoa a ser quem ela é mesmo, de verdade. E aí vem a pergunta: como é que eu descubro quem eu sou? É uma questão que pode não ser tão simples de responder, mas a chave para perceber quem somos é tentar ouvir o coração.

No cotidiano, podemos perceber, lá dentro de nós, se estamos nos sentindo bem com aquilo que fazemos. Isso é natural, todo mundo sente, embora nem sempre preste muita atenção a esse sentimento, principalmente quando é um sentimento de reprovação, que contraria o que se está fazendo ou querendo fazer.

Talvez esse medo da reprovação nos faça preferir não ouvir, não sentir, não considerar essa voz silenciosa e verdadeira. E assim, vamos nos afastando da nossa natureza para evitar reprovações.

No entanto, podemos reverter esse hábito nocivo e contrário à nossa felicidade autêntica. Para tanto, vale criar um novo hábito, o de voltar a considerar e ouvir a voz da intuição. Essa é a principal prática em Yoga há milênios.

Volte a ouvir, a prestar atenção no que o seu sentimento diz. O seu coração tem sempre razão, pois ele não deforma o que é real. Ele é independente da mente, a qual tem a tendência de deformar a realidade para adaptá-la às nossas fantasias ou aos roteiros que traçamos para nos sentirmos confortáveis em nossas vidas pessoais, familiares, sociais ou coletivas. Nós, seres humanos, somos seres narrativos, adoramos uma historinha. Já a intuição não ouve história alguma, por isso ela não se engana.

Portanto, o exercício de Yoga que se deveria praticar todos os dias seria ouvir e seguir o coração, a intuição. Se eu exercitar isso, estarei sendo um verdadeiro praticante de Yoga, estarei sendo cada vez mais quem eu de fato sou.

Os sábios que escreveram a doutrina do Yoga, por volta do séc. V a.C., sugeriram, além de ouvir a intuição, prestar atenção ao ambiente em que você está. Assim, eles propuseram um código de ética formado por cinco princípios básicos: (1) não ofender, (1) evitar a mentira, (3) evitar a dispersão do ser nas emoções, (4) evitar apropriar-se das coisas dos outros e (5) evitar a cobiça e a inveja.

Porém, no contexto social daquela época, a Índia era predominantemente jainista. O Jainismo é uma das mais antigas doutrinas da humanidade e que ainda prossegue importante, como o grande exemplo de seu famoso seguidor, no séc. XX, o Mahatma Gandhi.

Por consequência, o Yoga surge em uma Índia jainista e adota uma ética social que é originalmente do Jainismo e, que por um lado, focaliza o que externo à pessoa, mas acrescenta, por outro lado, uma orientação voltada para dentro da pessoa, para estimular um comportamento que possibilite a autenticidade individual.

São estes os princípios de foco interno: (1) cultivar a pureza, tanto física quanto de sentimentos e de comportamento em geral; (2) cultivar o contentamento; (3) perseverar na pureza, no contentamento, e em tudo aquilo que faz sentido para si; (4) ouvir a intuição para cultivar a autenticidade, o autoconhecimento; e (5) entregar-se ao divino princípio vital, que há em cada um de nós e que não precisa de intermediários.

Fica bem evidente que, na compreensão do Yoga, não faz sentido destacar uma vida espiritual de uma vida material. O que faz sentido é ter uma vida completa, de desfrute espiritual e material, com integridade e respeito.

Pode-se dizer, então, que a doutrina do Yoga prescreve uma orientação prática para que a autenticidade de cada um se revele, mas com atenção ao contexto social.

O Yoga Sutra (o texto tradicional de Yoga) faz uma referência ao verdadeiro eu, aquele que você é, autenticamente, logo de início. Ele diz que Yoga "é o recolher das atividades mentais para que Aquele que vê possa revelar-se". Observe que Isso não depende do nome que lhe deram ou lhe chamam nem da personagem que eventualmente você assume, numa circunstância, pois, "Aquele que vê" está sempre no seu coração.

Isso é bastante orientador, além de ser muito bonito, pois, se eu me comportar como esse ser ("Aquele que vê"), que eu verdadeiramente sou, serei pleno e verdadeiro: viverei feliz a lidar com as minhas circunstâncias.

Por essa compreensão, um dos segredos de incorporar o Yoga é perceber a felicidade como um ponto de partida, dentro de nós, e por isso não deixar que uma situação qualquer derrube a chama original de entusiasmo da própria vida.

Desse modo, seguindo a intuição, mantém-se o contentamento conosco mesmos e lida-se melhor com as emoções, que vêm de fora. Isso muda tudo! Diariamente, portanto, recarregam-se as nossas baterias de autenticidade, felicidade e contentamento para lidar com uma realidade que nem sempre é do jeito que preferimos.

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges

      

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