Acima de tudo, o coração

Em Yoga, algumas posturas (Ásanas) sugerem alegorias para estimular a compreensão da nossa vida por um outro ponto de vista. Um exemplo é quando nos colocamos de cabeça para baixo. Nessas posturas, a cabeça fica abaixo do coração, o que seria a ordem ideal da hierarquia: intuição, pensamento, ação.

Simbolicamente, a ordem de importância seria: a intuição, que é a voz do coração, ser escutada pela mente e a mente transmitir para o corpo. Daí a hierarquia segue na ordem do coração para a cabeça e desta para o corpo.

Portanto, ao nos colocamos de cabeça para baixo, teríamos a oportunidade de nos reorganizar nessa prioridade natural, com o coração no topo da hierarquia; e, abaixo dele, a mente. Claro que ninguém precisa "plantar bananeira" para dar prioridade ao seu coração, pois as posturas invertidas são apenas alegorias.

Com o coração, podemos compreender a realidade sem os filtros que a mente nos coloca. Afinal, ela quer o nosso conforto e, para nos proteger, sempre distorce um pouquinho (ou muitão) a realidade, para que a gente ache que as coisas são do jeito que as vemos ou preferimos ver. Ela chega até a colocar a culpa nos outros por quase tudo de ruim que nos acontece.

Mas é preciso ficar atento para uma armadilha relativa ao coração, porque quando a gente se emociona pode confundir a emoção com intuição: a palavra emoção é diferente de intuição. A origem da palavra emoção é "ex-motio", movimento que vem de fora. Somos, portanto, emocionados por algo externo a nós e que nos atingiu. Entretanto, a intuição não vem de fora, vem de dentro, ela brota e se revela como um sentimento que é totalmente nosso e que seria até capaz de neutralizar uma emoção, provocada por algo externo.

Conforme o "Mandukya Upanishada", texto sânscrito anterior, em alguns séculos, ao surgimento da doutrina do Yoga e que a inspirou, nós temos um eu do coração, um eu da mente e um eu do corpo, e nós somos uma quarta figura, um ser que é a síntese desses três "eus".

Segundo esse texto hinduísta tradicional, o eu do corpo é absolutamente verdadeiro, porque faz, sem discutir, o que a mente mandar. Ele não tem intenção, não tem vontade nem bondade nem maldade; o eu da mente, porém, vive num mundo de sonho, numa ilusão da realidade. O eu da mente tem como missão a proteção do eu. Então, ele vive nesse sonho, que interpreta a realidade o tempo todo e vai dando os comandos para o corpo, conforme a interpretação que ele faz da realidade. Ele parece um diretor de televisão, todo poderoso, que vai dirigindo as cenas para o telespectador continuar no sofá!

Já o eu do coração, o eu intuitivo, é verdadeiro, porque ele vive num mundo sem fantasias, num estado idêntico ao do sono profundo, no qual nenhum sonho existe, nem emoção, nem agitação externa. Nesse estado se encontra a pureza da realidade original, sem a interferência da mente.

Conforme os textos sânscritos que inspiraram o yoga, o eu do coração traz consigo a essência do universo, a essência do ser que cabe a cada um realizar durante a vida. Então, se o ser essencial, que está no meu coração, é respeitado, se eu o escuto e se eu me habituo a ouvi-lo, eu passo a sentir a intuição, a verdadeira realidade.

Isso é para ocorrer de modo natural. Inúmeras vezes, por exemplo, quando estamos relaxados, nós percebemos a intuição. Às vezes seguimos, às vezes não. Quase sempre, quando não seguimos, nós nos arrependemos depois. E por que o coração saberia a verdade de tudo? Porque, como ele é o ser essencial, é o mesmo, em mim, em você, em tudo e todos no universo, ele não falseia a verdade para agradar ninguém.

Esse todo real está conectado, em comunicação com tudo que existe de verdade, pois, conforme a tradição hinduísta, é o mesmo ser, com diversas manifestações, sejam elas vistas como boas ou como ruins. Quando dizemos "namastê", "a divindade que há em mim saúda a divindade que há em você", é a mesma divindade que se reconhece entre as pessoas. Esse ser, uno ou Uno, nós temos a oportunidade de vivenciá-lo porque estamos vivos. Pelo simples fato de eu estar vivo, eu sou esse ser único. Quando eu morrer, morre a figura do Thadeu, que tem início, meio e fim, mas o ser único continua a existir. Neste lapso de existência, eu sou um evento físico, de carne e osso, que tem a sorte de estar aqui a conversar no Jardim Botânico de Brasília.

Essa é a narrativa na qual os yogues e os hinduístas acreditam. Sim, porque nós somos seres de narrativa, precisamos de histórias, gostamos de acreditar em algo que nos orienta.

Particularmente, essa história me agrada bastante! Ela me alerta de que não dependo de "ex-motio", das emoções, para ser feliz. Isso me é muito importante, pois, se eu focalizo no meu coração, no meu eu essencial, eu me sinto completo, sem precisar me emocionar nem desenvolver nada.

O que se desenvolve é para o viver social, o que pode até ser muito bom e suprir as carências materiais, mas para ser feliz mesmo, eu preciso estar em mim, feliz comigo, pelas minhas decisões, por seguir minha intuição, por estar em paz comigo mesmo. Para tanto, eu seria autossuficiente por princípio, porque sou manifestação em vida do ser essencial, não precisaria de mais nada, até porque, quando eu morrer não levarei nada que possa acrescentar ao ser essencial, que já é pleno e infinito.

No entanto, eu e todo mundo nos apegamos ao todo social, com o qual nos habituamos. É uma condição confortável e agradável, talvez, mas a referência verdadeira da minha felicidade é o meu coração, é do meu sentimento que brota; não é daquilo que me emociona. Se a minha felicidade estiver condicionada ao que me emociona, terei sempre que tomar uma dose de emoção. Vou ficar dependente, a vida inteira, do que é externo a mim.

No entanto, é ótimo desfrutar do que externo. Assim como é muito bom ser capaz de o desprezar; poder tanto aproveitar quanto desprezar. Mas isso não muda a minha felicidade, embora possa dar conforto ou desconforto, conforme as circunstâncias. Essa compreensão faz toda a diferença, pois as emoções param de me dirigir de modo totalitário. Eu posso ter tranquilidade nas minhas decisões, posso ouvir minha intuição, que não se ilude com falsas cobranças e promessas ou possibilidades irreais.

O ideal seria, ao surgir uma emoção, perguntar: por que me estou emocionando assim? E ponderar: não sou eu, não me pertence, vem de fora. Não posso virar refém do que vem de fora de mim!

Portanto, alegoricamente, o coração representaria a essência de cada um. Quando você medita, quando está em paz, quando cai em si, você entra em contato com o seu coração, com a sua intuição, com quem você verdadeiramente é, com aquilo que de fato lhe pertence, com aquela ordem que é sua, com a sua vocação, com a verdade. E pode seguir a sua intuição.

Afinal, nunca temos a quantidade total de informação para tomar decisões. Sempre faltará algo que não está disponível para a visão dos olhos. Por isso toda decisão sempre provoca algum estresse. Temos, portanto, que contar com a intuição para melhor decidir, pois, ela está conectada com a verdade da situação real, e não com a lógica incompleta da razão.

Daí a natural formação dos valores e das crenças ao longo da história pessoal, que nos permite registrar, na memória, os acertos da razão apoiada na intuição e a lembrança das decisões emocionais erradas. Houve até um Nobel de Economia, em 2002, que demonstrou isso, o Daniel Kahneman, e ele nem era hinduísta, mas de outra tradição também antiga.

Por isso tudo somos seres complexos. Do ponto de vista mental, somos seres narrativos, procuramos, aceitamos e somos influenciados por narrativas. Cada um de nós adota algumas narrativas, inconscientemente ou não, para viver. As narrativas são mais bem sucedidas quando são compartilhadas, pois somos seres interativos, relacionais. Somos seres que compartilham narrativas.

No caso dos yogues, adotamos essa narrativa, em que há uma hierarquia no ser – coração, mente e corpo. Minha paz depende da harmonia e da ordem correta desses três aspectos. Para tanto, utilizo a meu favor os meus recursos, sendo o principal deles a minha capacidade de dirigir a minha mente, pois, ela é minha aliada. Não posso é deixá-la solta, no comando da minha vida. Compreendendo isso e tento colocá-la a favor da verdade da intuição e não do meu aparente e imediato conforto.

Assim, vou percebendo qual é a minha narrativa essencial, aquilo em que acredito mesmo, enquanto convivo com as narrativas dos outros. Aproveito, entretanto, para desconfiar das aparências que me mostram, para tentar ver sob outros pontos de vista, sempre que a minha intuição se alarma.

Percebo, desse modo, uma sensação de paz interior, até mais capacidade de aceitar e perdoar (a mim e aos outros), e sinto muito menos chateação, embora a vida continue animadíssima. Enfim, mais aptidão para saborear essa felicidade essencial, que já trago comigo, pois sou uno, com aquele mesmo Um completo, íntegro, com você e com os outros no universo. Estou em boa companhia. O que diz a sua intuição?

Thadeu Martins, em conversa com Ricardo Borges

      

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