Star Yoga

Aproveitando a volta de Star Wars, recomendo a leitura do livro "Star Wars e a filosofia clássica", o qual tive a sorte de ganhar numa palestra da Nova Acrópole. É uma coletânea de artigos de diferentes filósofos, cada um abordando o tema dos filmes na perspectiva de filósofos como Nietzsche, Kierkegaard e muitos outros.

O diretor George Lucas, quando iniciou a concepção de Star Wars, assistiu a uma palestra de Joseph Campbell, estudioso americano dos mitos. E o inspirador de Campbell era o historiador romeno Mircea Eliade, o qual ganhou notoriedade pelos seus livros sobre Yoga. Mircea é o autor do livro "Yoga – Imortalidade e Liberdade". Lucas ficou fascinado com a palestra de Campbell sobre mitos, símbolos e alegorias, em especial sobre a "jornada do herói", que perpassa todas as culturas. Esse é o tema do seu famoso livro: "O herói das mil faces". Desde então, Campbell passou a ser um orientador do George Lucas.

Campbell dizia que a atualidade não tinha mitos próprios, que não tinha reproduzido nenhum desses mitos da "jornada do herói". De certo modo, foi o que George Lucas passou a fazer, inspirado ou orientado por Campbell. E um tema está muito presente nas três trilogias de Star Wars: o conceito da "força", o qual me parece corresponder a um campo, como o campo magnético, o campo elétrico, o campo gravitacional e, mais do que todos esses: a consciência!

Sim, pois, a consciência paira, existe, está presente, podemos senti-la e invocá-la para exercê-la ativamente. Todos nós a percebemos e vivenciamos, embora, talvez, não tenhamos a compreensão de que a consciência, assim como "a força", seja também um campo, como são os demais, cada um com as suas características, presentes no universo. Vale, portanto, recorrer como George Lucas e Joseph Campbell, às mitologias orientais para encontrar as origens desse conceito.

Vamos então para a yoga nas estrelas. Com a mitologia hinduísta, para a qual, logo de início, antes mesmo de o universo existir, já havia um útero reluzente chamado Hiranyagarbha, que é um campo infinito e pleno de dupla natureza – substancial (Prákriti) e espiritual (Purusha) –, do qual tudo se origina.

Isso, "de dupla natureza", pode parecer estranho, mas todos conhecemos um bom exemplo de algo assim, de dupla natureza, que é a luz, formada por partículas ou fótons e também por movimento ondulatório. Esse movimento ondulatório não tem nada a ver com fóton ou matéria, mas, no entanto, é um padrão de comportamento real e observável.

A luz exemplifica a dualidade – substância e sutileza –, e nós vivenciamos essa experiência diariamente, com a nossa visão, até mesmo quando assistimos aos programas de TV ou interagimos com os celulares ou smartphones. Embora ninguém pare para pensar que a nossa vivência mental seja semelhante a essas experiências de comunicação virtual: matéria densa e virtualidade sutil; que conformam a própria realidade perceptível.

Então, voltando para a origem do surgimento da "força", da consciência, e de tudo, aproveito para transmitir um pouco do que aprendi nesse tema com o professor Carlos Eduardo G. Barbosa, em seu curso de Mitologia dos Ásanas do Yoga.

O tal campo reluzente, infinito e pleno, por alguma razão, passa a crescer. Mas o que é infinito não tem para onde crescer. No entanto, pela narrativa mitológica, essa plenitude resolve crescer "dez dedos". Para tanto, o único jeito seria virar-se do avesso, pois, o avesso do infinito é o vazio, e nele seria possível expandir-se. E como?! Primeiro estabelecendo um novo campo no vazio do seu próprio avesso: o campo da consciência.

Assim, a consciência surge como a primeira expansão do infinito no vazio do seu avesso.

A consciência, por sua vez, precisava de alguém capaz de exercer essa consciência. Dela, então, surge a segunda expansão, que é o princípio que faz o eu, que faz o indivíduo capaz da consciência. Os indianos chamam de Ahamkara (aquele que faz o eu). Portanto, o campo da consciência (que os indianos chamam de Budhi) produz o eu, sujeito da consciência.

Mas esse eu é consciente do quê, se ainda não havia nada nem meios de percepção? Esses teriam, portanto, de surgir.

Eles vão surgir a partir da terceira expansão, que é Manas, a mente capaz de criar os meios, os objetos e os sentidos da percepção. Então, esses três – Budhi, Ahamkara e Manas –, a consciência, o eu e a mente viabilizadora de realidade enchem o vazio do universo, que é o avesso do útero reluzente, infinito e mitológico (Hiranyagarbha).

(Deu um nó na sua cabeça, amável colega desta conversa? Você nunca pensou que uni-verso pudesse ser o avesso do uno? Podemos continuar?)

Observo que esse modelo de universo e surgimento da vida perceptiva facilita a compreensão, pois não ficamos na indeterminação de uma crença de que o caos, de modo fortuito ou ao azar, junta fragmentos de uma matéria explodida e cria a organização da vida consciente. Isso é algo muito pouco provável. Seria mais razoável pensar que a organização original torna-se cada vez mais complexa.

Então, na concepção hinduísta preferida dos yogues, o universo surge a partir do princípio organizador do campo da consciência. Ele não surge do caos, embora surja num vazio, como tudo que surge no espaço. Assim, portanto, é a expansão da consciência que cria tudo o que nós somos capazes de perceber. A própria capacidade de percepção cria aquilo que é percebido. Nessa perspectiva, o universo já se inicia com a consciência e prossegue a partir dela.

Partindo desse princípio, e mirando o "jedi" que eu gostaria de ser, tenho uma consistente responsabilidade, na medida em que acaba a exclusividade das culpas e desculpas alheias. Se a consciência cria a realidade percebida, eu também sou responsável pela realidade percebida por mim e na qual eu atuo e convivo com os outros, sejam eles "sith", "jedi", ou os demais.

Pelo menos, pelas minhas escolhas, sou eu o responsável. Isto é entusiasmante, pois eleva a minha capacidade de ser consciente e atuante na realidade com a qual eu me conecto, ligo-me e atuo, por meio da força da consciência, das minhas escolhas e das minhas ações. Ótimo, pois, assim posso progredir no rumo da verdade e da autenticidade, por meio dos meus erros e acertos conscientes, sem ter que esmorecer ou me decepcionar, eventualmente, com ninguém além de mim mesmo.

Reforço essa convicção em excelente companhia, como, por exemplo, a do Dr. Bruce Greyson, professor de psiquiatria da Universidade de Virginia, EEUU, cuja apresentação na Conferência de Cosmologia e Consciência, em Dharamsala, 2011, surpreendeu por sugerir, com inúmeras evidências, que o fenômeno da consciência, embora seja captado pelo cérebro, é bem mais amplo e talvez nem precise dele. O que parece extraordinário à primeira vista, mas não num mundo mitológico, como este em que vivemos as nossas "star wars" terrenas.

Vale, então, assistir a essa apresentação, que sugiro conhecer, por meio do link https://www.youtube.com/watch?v=yosn_GHYiR4

É muito bom compartilhar que todos nós captamos o campo da consciência, estamos conectados a esse campo, que sempre existiu, antes mesmo de qualquer compreensão de tempo. Afinal, o tempo, que tanto valorizamos, surgiu como uma medida referencial e espacial, que utilizávamos em relação aos movimentos siderais, da lua, do sol... Trata-se, portanto, de uma abstração relativa a algo que se repete e que por isso nos inspira segurança diariamente.

No entanto, quando temos um insight, um vislumbre de caminho ou decisão a seguir, ou nos surge uma boa ideia, ou seguimos nossa intuição, está acontecendo algo absolutamente real e verdadeiro, pois, nesse momento, estamos de tal forma disponíveis e conectados, que captamos o que está disponível além do espaço-tempo e, talvez, além do nosso cérebro. Onde está esse algo? Nas nuvens? No campo da consciência? Na "força", como talvez diria o mestre Yoda?

Thadeu Martins em conversa com Ricardo Borges


      

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