A voz da sabedoria

"Avidya", em sânscrito, conforme os sutras do Yoga, é a palavra que designa a falta de sabedoria: a percepção de eternidade, pureza, bem estar e individualidade naquilo que é perecível, impuro, desagradável e não individual. Ela seria o campo fértil para as demais perturbações da mente, causadoras do desconforto e sofrimento, talvez porque essa falta de sabedoria faz confundir o verdadeiro com o falso e daí advenham as sequências de erros de percepção, decisão, ação e suas consequências danosas.

 Dizem os sábios yogues que verdadeiro mesmo é o que diz o coração tranquilo de cada pessoa. Que o coração é a morada do eu universal, que não precisa falsear nada e, portanto, é sempre verdadeiro. A mente é que faz a confusão, por estar sempre buscando conforto e estabilidade numa realidade que não pára de alterar-se. A prática de Yoga faz a mente serenar-se e aproximar-se do coração e, portanto, da verdade e da sabedoria. Melhor ainda, então, pois assim a sabedoria está disponível para todos e não apenas para alguns poucos.

Tenho várias lembranças de tolices que cometi pela vida, embora, também possa recordar boas escolhas e decisões, mas eu gostaria de acertar com mais frequência, com a ajuda dos ensinamentos dos yogues. Nesta reflexão, tento descobrir o comportamento mais eficaz para encontrar essa sabedoria.

Sei que há em mim (e em muita gente) um tolo demente, um sábio silencioso, um eu que lida com o mundo e ainda mais outros tantos personagens, que se revezam, conforme o palco das circunstâncias e as minhas narrativas míticas.

Ouço a dica dos Yoga Sutras para "encontrar a sabedoria dentro de mim, de modo a eliminar avidya de minha mente (essas duas sócias das minhas ilusões e más escolhas), para eu usar corretamente o recurso do discernimento (separar-me do drama) – e aí sim, ajudar-me e aos outros a trilhar esse caminho de proximidade com o eu verdadeiro".

Sinto que, sempre e antes de tudo, preciso mesmo é de ouvir (o silêncio, a intuição, o que fala o coração), habituar-me a ouvir. Seja em momentos gratuitos, de meditações descomprometidas com qualquer outra intenção, seja quando alguma decisão se fizer necessária e, a despeito da urgência, eu permitir-me perguntar ao coração o que é mesmo que ele sente. Para então, eu decidir a ação e agir confiante.

Certamente a sabedoria está no ouvir e na receptividade ao que diz o coração em mim e nos outros (já que se trata de um mesmo coração universal e de inúmeros ouvidos, ora ativos ora moucos). Receptividade também para perceber a tolice, o apelo ao drama, a construção da tragédia, os sinais que antecedem as fatalidades, com um par de ouvidos primitivos e anteriores à minha tagarelice racional. Receptividade como pré-requisito do discernimento. Talvez por isso os sábios tenham orelhas enormes...proporcionais ao seu desapego e à sua disciplina de agir com sabedoria, de tanto ouvir.

Thadeu Martins

      

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