Mente assentada

Quase sempre há um lugar entre o tudo e o nada onde o possível se encontra. Já li, em algum lugar, que essa felicidade interior que os yogues vivenciam com a mente assentada no coração, o samadhi, vem e vai, vem e vai... e isso parece ilustrar, pelo menos, como percebo em mim a vivência do assentamento da mente em meio às solicitações da cidade.

É claro que não fico o tempo todo em samadhi, mas ajo com bastante atenção, de modo a cultivar certas atitudes favoráveis, para que elas se tornem cada vez mais espontâneas, como demonstrar amizade, compaixão, alegria e indiferença, conforme os tipos de situação tipificados nos sutras do Yoga (conforto, desconforto, virtude e maldade).

Tais situações são de natureza social e, portanto, sempre estão a ocorrer e ocorrerão, enquanto houver gente na Terra. Talvez hoje a intensidade urbana esteja mais desafiadora, mas eu nunca soube de uma época em que a vida fosse um "mar de rosas".

O verbo cultivar me parece muito adequado ao modo do viver em Yoga, pois, como um jardim, a vida está sempre pronta e em desenvolvimento, mudando a cada instante. Portanto, vou aplicando as dicas do sábio Patânjali com atenção, disciplina, desapego e boa vontade possíveis a cada circunstância, de modo que tem dado para eu curtir o sentimento cotidiano da felicidade que brota de dentro e também ir corrigindo o meu rumo das inúmeras vaciladas no caminho.

E não estou sozinho. Percebo, em vários lugares, muitas pessoas que transmitem serenidade, capacidade de aceitação e bom astral na maior parte do tempo em que as vejo. Elas são de diferentes status e classes sociais, nas proporções demográficas dessas mesmas classes. Presumo intuitivamente que elas têm grandes chances de vivenciar samadhis ao longo das situações do dia a dia.

Quantas vezes, por exemplo, pela total falta de opção além de esperar a sua vez, como numa sala de espera de atendimento ao público, uma dessas pessoas aproveita para respirar com tranquilidade, põe uns óculos escuros para disfarçar os olhos suavemente fechados, relaxa as mãos sobre as coxas, e vai para cada vez mais dentro de si e prossegue limpando o jardim do seu coração e o vai tornando mais bonito e iluminado?

Thadeu Martins

      

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