Meditar com o coração

Há dois lugares em que meditamos: o lugar físico e o mental. Este último é o mais importante em Yoga, pois a sua prática tem o propósito de recondicionar minhas atitudes para viver melhor. Então, esse local mentalizado, "místico", no qual se medita, possibilita assentar a pessoa nela mesma. A palavra indiana "asana" (ássana é como se deve pronunciar), relativa às poses de Yoga, significa assentamento mental (para cada um estar em si).

O lugar místico, no qual eu me assento para meditar, vai-me referenciar à minha história pessoal, à minha vida, ao que já fiz e ao que pretendo fazer. Não me estou referindo a algo esotérico, embora fale de algo místico, e que tem o propósito de condicionar mentalmente o que irei fazer.

Sugiro, a propósito, a leitura do livro "A meditação dos Yoguis", de Carlos Eduardo Gonzales Barbosa, no qual há uma descrição fidedigna de uma tradição milenar da Índia sobre a preparação desse ambiente de meditação, segundo a qual, primeiramente, eu me sentaria em um lugar confortável, de modo a poder permanecer bastante tempo, para, em seguida, criar o meu lugar místico.

Esse espaço teria um formato esférico, do tamanho do universo. O centro desse espaço seria o meu coração e, a partir dele, de olhos fechados, eu iria derivar as direções dos oito pontos cardeais: os quatro principais e os outros quatro intermediários.

No ponto cardeal que está diante do meu peito, surgirá o sol, a luz, que caracteriza a minha consciência, com a qual sou capaz de esclarecer o que vejo. Atrás de mim, lá longe no horizonte, marco outro ponto cardeal, para onde vai a minha sombra e onde está aquilo que não vejo; ou seja, o que está inconsciente para mim. Desse modo, lá atrás, estará o inconsciente, que constitui também a minha história: minhas crenças, meus valores, e o que aprendi sem ter sido por uma expressão verbal ou que ficou no meu coração, de modo que não consigo verbalizar.

Muitas das vezes o que eu vejo não é tão confiável quanto o que não vejo, pois o que vejo eu posso driblar com a minha interpretação. Já o que não vejo, só posso aceitar ou tentar ignorar.

Assim, no meu local de meditação, já surgiram dois contrastes: o consciente e o inconsciente.

Um deles refere-se ao que poderei esclarecer, mas com a certeza de que isso não é o suficiente para dominar a realidade, pois esta não se constitui apenas daquilo que sou capaz de ver. Ela também se constitui daquilo que não vejo, mas que posso intuir, por meio do meu subconsciente. Pois são os meus valores e a minha intuição que me podem dar acesso ao que não visualizo conscientemente.

As duas outras direções principais são a que vem do sul e a que vai para o norte. No primeiro caso (sul), é o que vem da minha história familiar, o que eu aprendi com as pessoas que me possibilitaram ser quem eu sou. O sentimento associado a essa direção é o de gratidão, pois

é fundamental acentuar os sentimentos envolvidos, que trago no coração e que condicionam o meu viver. Afinal, a meditação é um processo de condicionamento, para viver bem comigo mesmo e com os outros no mundo.

Então, coloco lá no sul (à minha direita) a imagem ou lembrança de todas as pessoas que me educaram ou propiciaram que hoje eu estivesse aqui. Eu lembro dessas pessoas e agradeço a elas.

Já na direção norte está o meu futuro, aquilo que construo a partir deste momento. É algo indeterminado, ainda pequeno, uma imagem de algo que ainda irá crescer e se realizar. Meu sentimento é o de entusiasmo para fazer o meu futuro.

Esse modelo tem mais de dois mil anos e ainda é genial! Permite-me o assentar na minha realidade, com os meus recursos, diante do que vejo e do que não vejo; permite reconhecer o mundo social que me possibilitou existir e me dá ânimo para construir o futuro.

Poderia acrescentar agora os pontos subcardeais: sudeste, noroeste, sudoeste e nordeste; mas isso dará outro texto. Mas, por agora, seria mais produtivo fazer apenas uma mandala no papel, para não esquecer desse modelo (você também poderia desenhar agora a sua mandala).

Prefiro enfatizar como é agradável curtir o momento da meditação. Ouvir o silêncio, perceber o próprio corpo, alternar a percepção dos sons ambientes e da respiração e deixar fluir. Ficar o tempo que for confortável, sem preocupações. Se por acaso algum sentimento ou pensamento ocorrer, dá-se um pouco de atenção a ele; se for recorrente, pega-se um bloco de papel e anota-se qual é mesmo esse pensamento ou sentimento. Melhor ainda se eu puder descrevê-lo: o que é, quando surge, por que surge, com que pessoas, qual foi a primeira vez que surgiu, qual o motivo, o que preciso fazer. Na medida em que eu estiver nesse processo de escrever ou falar sobre a questão, já estarei criando a primeira chave da meditação: o distanciamento.

Prossegue-se, então, meditando e concentrando-se, até não ser mais preciso esforçar-se para estar concentrado. Nesse estágio, a gente deixa de concentrar-se e passa a contemplar e vai prosseguindo assim enquanto quiser.

Basicamente o processo meditativo é concentrar-se, contemplar e deixar transcender a relação com a realidade, ou seja, abrir mão da identificação que se faz com o real, para ficar-se apenas em si, com a própria divindade que está em cada um. Isso pode parecer pouco, mas é muito! Em termos práticos, a meditação é um processo de distanciamento, de desidentificação com as aparências, para estar-se em sintonia com a própria essência (sintonia com o que se é sem precisar agir para justificar a existência).

Com a prática, isso traz autoconfiança, segurança e melhor percepção da realidade, pois não se estará lidando apenas com o que se consegue ver. No momento em que eu deixo de apenas usar o racional, eu permito que a minha intuição, a minha herança cultural e o meu entusiasmo de criação do futuro participem do todo que a vida é.

E como é só praticando que se consegue dominar e integrar comportamentos, o melhor mesmo é praticar habitualmente esse modo de meditar: com o coração impregnado pela intuição, pelo agradecimento e pelo entusiasmo.

Thadeu Martins

      

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