Repetição e desapego

A prática de Yoga é uma estratégia de vida. O "Yoga Sutra" vai fundo na maneira de compreender a vida, na psicologia do ser, na alma. Esse texto quase legendário deveria chamar-se: "Alma: manual do usuário" (como disse o professor Pedro Kupfer, em homenagem ao sistematizador ainda mais legendário do Yoga, Patânjali).

De forma bem resumida, pode-se dizer que toda a ênfase em Yoga é de prestar atenção no que estou fazendo, de tal modo que eu possa ter um distanciamento daquilo que é produto das minhas ações, até da ação em si, para observar e evitar a identificação. Diminui-se assim o envolvimento emocional e aumenta-se a atenção.

Na medida em que se atua, age-se, produzem-se resultados. Quanto mais eu apegar-me à percepção dos resultados, mais isso permanece em mim e cria condicionamentos para os momentos futuros ("karma").

Um hábito reforça um hábito, uma percepção reforça uma percepção. De certo modo, o hábito vira vício. Dito de uma maneira técnica: em meu cérebro, o hipotálamo gera neuropeptídeos que alimentam as células, e o condicionamento do hipotálamo leva a um permanente gerar de neuropeptídeos. Os hinduístas falam isso de uma maneira mais poética: o que eu faço hoje vai se refletir nas vidas futuras, as vidas passadas condicionam a vida atual. Isso é muito sábio, e nem sempre fácil de aceitar.

O futuro está sendo condicionado neste momento, por todas as minhas atitudes, que vão gerar impressões muito fortes em mim mesmo, nesta e em próximas oportunidades. Ou seja, o quanto envolver-me emocionalmente, o quanto identificar-me com o que estou fazendo agora, tudo isso cria condicionamentos efetivos para o futuro. Como promessas que se fazem e depois têm-se que cumprir; compromissos que se assumem e depois têm-se que honrar. O que se faz, de bom ou de mau, gera consequências. Pela vivência dos sábios, quanto piores as coisas que se façam conscientemente, mais se estará envolvido com maus sentimentos. Quando os propósitos não são legítimos, não validados socialmente, é exigido muito mais esforço para realizá-los. E quanto mais esforço for empregado, mais condicionamento.

O conselho dos sábios hinduístas é: cuidado com aquilo que se faz, com o esforço, com o apego àquilo que se faz, porque isso vai condicionar os próximos envolvimentos. O meu futuro, no que depende de mim, está sendo construído pelas minhas ações agora. Claro que há inúmeras outras coisas que não dependem de mim (sou bem menos onipotente do que gostaria); o que os outros fazem também condicionam o meu futuro, estamos todos no mesmo barco.

A compreensão disso é vital para o agir no mundo. Preciso ter atenção para diminuir a identificação com as emoções para não criar apego e para não criar "karma" negativo (a ação apegada que condiciona as demais ações). Meu desafio permanente é o desenvolver da atenção para não criar identificação em demasia – porque alguma sempre surge, sempre fica um pouco. Preciso prestar atenção nas emoções que tenho, diante daquilo que estou fazendo, de modo a diminuir a identificação ou o apego com os resultados. O futuro pode ser de liberdade e não amarrado, em função de compromissos estabelecidos, que me impedem de viver o presente plenamente.

Um dos artifícios nesse sentido é prestar atenção na respiração, algo essencial, que se faz inúmeras vezes ao dia. Percebo que estou respirando, sinto o ar. A respiração vai ficando suave, contínua, profunda e silenciosa. Você também pode caprichar na sua respiração e fazer o bem, "sem olhar a quem". Fazer o bem custa menos e gera "karma" positivo. Fazer o mal dá uma trabalheira... e cansa.

Thadeu Martins

      

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