Repetição e desapego no cotidiano

Chega de sofrer. Tanto os hábitos quanto os vícios formam-se por repetição; ambos têm essa mesma natureza: a repetição. Se o ser humano (eu e você) tem muita tendência ao sofrimento, então, se alguma coisa valer a pena ser repetida, que seja para trazer o bem, para reforçar o sentido de alegria, de felicidade, de estar bem com o mundo e com as pessoas. A fixação no hábito de sofrer é imobilizadora, não permite a transformação pessoal e, principalmente, atrapalha a percepção da essência da vida em mim, em você e em todo o mundo.

Segundo o sábio Patânjali (o indiano codificador da filosofia Yoga), são cinco as origens habituais do sofrimento. A primeira é a ignorância, num sentido bem profundo, a ignorância de mim mesmo, em relação ao meu ser. A segunda causa de aflições é decorrente dessa primeira, é a identificação exagerada com o ego (o "eu" sujeito dos verbos e das ações).

As duas causas seguintes são a aversão ao que me incomoda, e o fascínio pelo que me agrada. Ou seja, se eu cultivar os meus medos, as minhas aversões e passar a vivenciar intensamente esse sentimento, sofrerei com certeza; do mesmo modo, funciona o cultivar exagerado do prazer. Hoje em dia, há um clima de corrida, em todos os sentidos, seja do medo, que me é incutido pela enxurrada de filmes e séries de televisão dedicados à crueldade e aos criminosos; seja do prazer, que também é estimulado pelos meios de comunicação e por todos aqueles que querem vender os seus produtos. Parece haver um objetivo maligno de me deixar sempre insatisfeito e ansioso.

O quinto motivo de aflição é o apego exagerado à vida e à inclusão social. Desse, diz o Patânjali (ele vai ficando cada vez mais íntimo) nem os mais sábios estão isentos. Desse apego ninguém escapa. Tanto é assim que ninguém fala da sua própria morte, mas sim da dos outros.

Para os hinduístas e para a tradição Yoga, vive-se em um mundo de ilusões, de interpretações da realidade. Não é só na Índia tradicional, que se compreende a realidade desse modo. Na tradição da pesquisa inglesa, Sir Thomas Browne ressaltava que "o mundo visível é apenas uma imagem do invisível, formas equívocas e contrafeições das substâncias reais num tecido invisível" (tiro por mim, que em geral miro no que vejo e acerto no que não vejo).

Por um lado, a vida é um contínuo, do qual faço parte temporariamente, seja como indivíduo ou como todo – mais até como "todo" do que como indivíduo, se eu considerar a quantidade de interações necessárias ao viver socialmente. Por outro lado, tenho a possibilidade de recuperar a capacidade de perceber a alma, o espírito, a essência, o quanto eu e todo o mundo é constituído do mesmo tipo de energia, de luz. Se eu perceber essa grandeza e conseguir ponderar tudo que vivo, faço ou tenho em relação a essa realidade maior, então tudo fica mais fácil. As coisas perdem muito de seu valor absoluto, quando as coloco em relação a essa compreensão de unidade, maior e essencial, que me constitui e a você também.

Claro que, no cotidiano, não vivo sempre nesse estado iluminado. Um célebre comentário ao texto de Patânjali, o Yoga Sutra, lembra que: "o Yoga vem e vai, vem e vai". Ou seja, ninguém vive num estado permanente de sabedoria, de iluminação, capaz de estar o tempo todo percebendo isso tudo. Vive-se neste mundo de compromissos e responsabilidades, matéria e muita ação. Mas isso não tira em nada a beleza poética das concepções mais espiritualizadas do mundo, ao contrário, estimula a viver nesse mundo prático com um desafio adicional: lidar com tudo isso com a tranquilidade de quem é um "ser anfíbio", que vive o mundo material e também o mundo mais sutil. Como lembra Arnold J. Toynbe, historiador inglês (no livro "A humanidade e a mãe Terra", em citação de Sir Browne), ao sugerir que o ser humano é anfíbio, com os pés na Terra e a cabeça num oceano espiritual.

A boa notícia é que quanto mais cultivo a atenção, o sentido de presença, a capacidade de estar antenado com isso tudo, mais percebo a unidade, a grandeza e o quanto é melhor deixar-me levar mais pela intuição, fazer o que o coração me diz e praticar a vida como um exercício de Yoga. Quando deixo a minha capacidade de compreensão ir além da identificação com o meu nome, tudo flui melhor. É assim, quando permito que uma sintonia maior com a vida tome conta de mim.

Porém, há os momentos em que sou tomado por circunstâncias muito desafiadoras. Nessas situações, não há como desprezar a realidade. Tenho que me empenhar para resolver as dificuldades que surgem; e quanto mais tranquilo eu estiver (de tanto praticar a tranquilidade), mais posso ser efetivo no momento de extrema necessidade. Muitas vezes, surgem problemas que não têm solução, e eu tenho de aceitar essa realidade, sem drama ou culpa. O convívio social é definitivo como condição do viver. A minha habilidade de lidar com o mundo social é fundamental. Preciso cultivar essa habilidade a partir das pessoas mais importantes em cada relacionamento: eu e quem está diante de mim.

Thadeu Martins

      

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