Nossos cinco corpos

Ao longo dos anos, a compreensão do corpo também vem sendo objeto de muito estudo e reflexão. Em distintas tradições, budista, judaica, taoísta, afirma-se a coexistência de outros corpos além do físico e visível. Percebi que também é assim na tradição hinduísta: eu tenho, você tem e todo o mundo tem cinco corpos. Eles seriam modos de fazer referência a processos e componentes que podem ser destacados, para melhor compreender-se a complexidade da vida: do que é mais denso até o mais sutil.

Gostei de como o físico Amit Goswami, no livro "A física da alma", explora esse tema de forma sintética. Ele destaca o papel da consciência como determinante da realidade. Chama a atenção, no entanto, que não se tem muita consciência do que é consciência. Posso comparar a situação com a de um ET (extraterrestre), que vai a um estádio de futebol, para assistir a um jogo pela primeira vez na vida. Ele não vai conseguir compreender a totalidade do evento. Não é a estrutura – o campo, o estádio, a torcida – que vai permitir entender o que está acontecendo. É preciso saber os códigos de comportamento; ir além da estrutura para compreender a organização e o processo. Mas isso ainda não seria suficiente para entender o jogo de futebol. Faltaria saber o que determina a intencionalidade e a coesão das pessoas em torno de um propósito. Isso vai muito além da estrutura e do início, meio e fim do processo em si. Há muitas categorias que devem ser apreendidas para se entender o que está acontecendo.

Afinal, o que está acontecendo? O que dá intencionalidade? O que determina as minhas decisões? O que me leva a fazer algo além de cumprir algum ritual que nem sei como começou? Quando eu paro para perceber e tomar decisões que não são apenas de escolhas? A partir de que eu decido? Por que decido? Mais, ainda, o que me leva a desejar? Decido por contraposição de prazer e dor, ou por algo que brota dentro de mim e cria uma aspiração e me leva a desejar algo?

A verdade é que isso ninguém sabe! É muito nova também a ciência que estuda essas questões. Para alguns físicos quânticos, é a consciência que determina a realidade. Eles provam que, com a interferência da consciência, a matéria comporta-se de modo diferente. Na compreensão oriental, isso não é nem discutido, é um dado básico. Na tradição dos hinduístas, tudo parte da consciência ou é simultâneo com ela. Ou seja, a consciência é um princípio. A vida já começa com a consciência. E mais: as naturezas substancial e conceitual surgem simultaneamente em um único fundamento, de dupla natureza.

Para essa tradição, cada um de nós tem cinco corpos e o primeiro é chamado de "annamaya", o corpo feito de comida, "anna"; é a estrutura e organização, a matéria, o código genético. O segundo corpo é chamado de "pranamaya", de energia vital, "prana", feito de emoções e da expressão da energia, que se pode "controlar" com o ritmo da respiração, e que não se confunde com a matéria. O terceiro corpo é o mental, "manosmaya", da expressão dos pensamentos, da razão, dos significados que se formulam na mente. Mas como as percepções e reações são quase todas emocionais, são estas que mais determinam as ações. Tiro por mim.

Esse conjunto de matéria, energia, emoção, pensamento e ação ganha contexto num quarto corpo, "vijñanamaya", de "vijñana" – inteligência –, que é o temático, o arquetípico, o supramental, no qual o que conta são as categorias primordiais, com que se atua. Tudo depende do contexto apreendido ou herdado, seja social, cultural ou sociológico. O que faz sentido, para algumas culturas, para outras pode não fazer. Os contextos primordiais, que antecedem todas as culturas e civilizações, constituem esse corpo supramental.

Quando estou no cotidiano e lidando com o mundo social, eu, mesmo sem saber, atuo com o corpo supramental para incluir os temas das condições de existência que me antecederam. O mundo social, com seus valores e costumes, foi sendo predeterminado pelo supramental. A compreensão dele é desafiadora. Enquanto se age com os corpos de comida, vital, mental, supramental, além desses, atua um corpo divino que está além do social.

O quinto corpo é o "anandamaya", de "ananda", a graça da criação de Brahma. Vai além das categorias mentais em direção à unidade sublime, dentro da qual eu, você e todo o mundo surgiu (mesmo sem ter a menor ideia dessa confusão toda). A unidade sublime está assim relacionada com a criatividade de Brahma, o deus hinduísta, do qual tudo surge (para os hinduístas, é claro).

Com essa compreensão, quando se fala, por exemplo, em Hatha-Yoga, literalmente junção do sol e da lua, para indicar a totalidade do ser, trata-se de juntar, na prática da vida, os princípios divinos, que antecedem as categorias arquetípicas, os pensamentos, as emoções que expressam a energia e o corpo físico feito de comida.

Quando eu presto atenção à respiração e faço com que o "corpo de comida" flua no ritmo da respiração, em harmonia com a minha energia, fico muito melhor. Cada um tem acesso ao seu corpo mental para compreender suas emoções, cultivar emoções positivas, ser coerente com os seus valores. Você talvez já perceba, como eu percebo, que o corpo físico é também um território sagrado e como é bom trabalhar esse corpo sagrado, de forma a conectar-se com os demais e assim viver em estado de graça.

Thadeu Martins

      

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