Yoga, libertação e realização de consciência

Compreendi que Yoga é um modo de viver, um estilo de vida, melhor ainda: uma estratégia de vida. Essa estratégia tem por princípio e propósito a liberdade, em qualquer acepção que essa palavra possa ter. Claro que o limite da minha liberdade é dado pelo outro, com quem estou interagindo. Ao prestar atenção nessa pessoa, estou tratando as condições da liberdade: a minha liberdade no mundo e com os outros. Liberdade para viver plenamente a vida.

Essa percepção de liberdade, para a filosofia hinduísta, não se refere somente a esta vida. Para os hinduístas, a vida é um contínuo, representado por uma roda, em que se nasce e renasce inúmeras vezes, até que se consiga compreender e realizar, na totalidade, a consciência. Vendo desse modo, o foco é a liberdade para o cultivo da consciência.

Na concepção dos hinduístas e de outras tradições, essa liberdade tem um sentido amplo, que compreende a realização da vida aqui, nas várias vezes que se vier, de modo completo, por meio do cultivo da consciência, até não se precisar voltar – a não ser por uma atitude altruísta de voltar para ajudar as outras pessoas a também conseguir isso.

Esse tema da liberdade, ou da libertação, que pode exigir várias vidas, para que se consiga realizar a consciência plenamente, está relacionado com um todo. O físico indiano Amit Goswami, no livro "A física da alma", sintetiza essa compreensão na sua visão da física quântica. Ele comenta, com visão de cientista, o que se diz na tradição hinduísta dos cinco corpos: o corpo feito de comida, o corpo vital (e emocional), o corpo mental (e de significados), o corpo supramental (que dá contextos) e o corpo divino, da criação. Para os hinduístas, a consciência brota junto com a matéria; há uma dualidade básica no princípio divino da criação (Brahma), ou da criatividade da vida: a unidade conceitual ("purusha") e a variedade substantiva ("prakriti"), que surgem simultaneamente.

A conexão dos cinco corpos se dá por meio da consciência. Segundo Amit Goswami, a consciência não se limita a um local e um tempo determinado, e a manifestação da matéria se dá em ondas de possibilidades, conforme teoria famosa precursora da física quântica, de Werner Heisenberg. Conforme esses conceitos, a consciência determinaria a realidade percebida.

E o que acontece depois da morte, seguindo-se esses conceitos? Quando a consciência despede-se do corpo de matéria (deixa de identificar-se com ele), ela perde a capacidade de realização material. Mas os corpos sutis (das disposições de emoções, de significados e de contextos), que são não locais e não temporais, permanecem. Os condicionamentos emocionais, de compreensão, dos arquétipos temáticos que dão os contextos pelos quais se compreende a realidade, ficam, permanecem, continuam disponíveis para serem captados.

O conjunto de condicionamentos que eu, você e todo o mundo cria ao longo da vida forma tendências, acentua o caráter, as pré-disposições que se têm. O viver, a apreensão de significados, a transformação de conceitos e a realização de consciência, ao longo da vida, cria condicionamentos no caráter e até no sistema muscular do corpo substantivo. Quando se morre, apenas o corpo substantivo torna-se irrecuperável. Enquanto os outros corpos, que são sutis, que constituem o conjunto de caracteres realizados pela consciência, permanecem. Porque eles seriam de natureza não local e não temporal.

Em momentos de criatividade, aqueles instantes em que se transcende o contexto trivial, eu, você e todo mundo, pode captar tudo o que é não local e não temporal. O livro "A física da alma" relata várias pesquisas atuais que demonstram essa afirmação do estudioso Amit Goswami.

Ainda segundo Amit, ninguém tenha a ilusão que no corpo sutil – das emoções, mental e supramental – evolui-se ou involui-se. A realização só acontece aqui, no corpo substantivo, onde há antagonismos, mundo social, para vivenciar-se a realização de significados das emoções e superação de contextos. Mas o que é evoluir afinal? Aqui prefiro voltar para o princípio de Yoga, que é o da libertação de consciência.

Em resumo: sou corpo físico e tenho à minha volta e disposição os corpos sutis. Quando a minha matéria – espaço/tempo – deixa de existir, os condicionamentos, acrescentados ao meu caráter inicial, permanecem e podem ser novamente captados (não por mim, que deixei de existir). Pouco importa quando, como ou por quem. O fato é que acontece a captação do que eu ou alguém mais talentoso acrescentou. E nessa possibilidade de acontecer, em que todo o mundo participa, surgem novos condicionamentos e alterações daqueles condicionamentos captados. E o que acontece quando se morre? Isso é assunto para uma outra conversa (a do capítulo 12).

Thadeu Martins

      

ADQUIRA!

Saiba mais

MAPA