Eu, mim, eu mesmo...

Gosto muito desse livro "A física da alma", do físico Amit Goswami. Por meio dele posso observar uma aproximação da física com o que a tradição hinduísta compreende da natureza da vida, particularmente da natureza da alma. Vejo a ciência destacando a consciência como referência principal na observação dos fenômenos. Um destaque fundamental: é a consciência que cria a realidade percebida. A realidade acontece com a interferência da consciência. A vida é formada por movimentos incessantes que criam possibilidades o tempo todo, e essas inúmeras possibilidades se realizam a partir do momento em que a consciência interfere.

O Amit Goswami amplia um conceito do hinduísmo, pelo qual eu sou, você e todo o mundo é constituído por várias possibilidades de identificação. Eu me identifico com o meu nome, com a minha pessoa, com as personagens que eu desempenho no cotidiano. Minha identificação mais importante é, portanto, o meu "ego" (o sujeito das minhas ações), o "eu" que me dá estabilidade. Por isso eu cultivo a autoimagem, o autoconceito, relaciono-me da melhor maneira possível com o mundo e com os outros, cultivo o bom humor, cuido da saúde, cuido do meu "eu".

Essa identificação com o "ego" é tão poderosa, tão necessária, que muitas vezes ela se torna absoluta e, portanto, pode virar um problema, por eu estar me identificando apenas com um aspecto da minha totalidade, a qual vai além do corpo físico e abrange também os corpos sutis. Pois, em alguma proporção, também me identifico com as emoções, com os significados que atribuo às emoções e aos resultados das interações cotidianas com as outras pessoas e com o mundo, com os arquétipos do inconsciente coletivo (que antecede e dá contexto a todos os significados humanos), e com a natureza divina da criação, que me constitui originalmente. Enfim, sou isso tudo de uma vez, e não apenas a personagem mais habitual, que mostro aos outros (e ao espelho).

Nessa visão, nos momentos da minha morte, cada uma dessas identificações vai deixando de existir à medida que eu morro. Mas, como apenas o corpo de comida está fixado no tempo e espaço, e os demais não têm temporalidade nem espaço definidos, são sutis, o que de fato deixa-se disponível é essa sutileza, produto da minha vida interativa, da realização da consciência durante a passagem pela vida neste espaço–tempo. "Vai-se o ego, fica a fama", parodiando o ditado popular.

Se a fama é que fica, então, é esse produto sutil que eu, você e todo mundo ajudou a produzir que poderá voltar a ser reelaborado em outras vidas terrenas. Portanto, é melhor eu cuidar disso direitinho, enquanto vivo o meu ego, que tem um período limitado de vida, com nome, entre nascimento e morte. "Fazer o bem, não importa a quem", parece uma dica simples e efetiva para pautar a existência, e a prática de Yoga pode oferecer um caminho eficaz para os "eus" descobrirem isso.

Thadeu Martins

      

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