O social, o sutil e a síntese divina

Embora, em Yoga, haja a premissa essencial de eu estar presente, eu não fico meditando por todo o tempo e, por muitas vezes, estou "no piloto automático". Então, posso perguntar: qual dos meus "eus" está presente habitualmente? Quando estou acordado, o sujeito das minhas ações, o "eu" social, habitualmente está presente (quando estou no automático, não tenho muita certeza de quem está mesmo presente). Quando estou dormindo, então, quem será que atua nos meus sonhos? Seria um outro "eu", sutil? No sonho, eu não estou em estado de vigília, mas sim, num estado onírico. Talvez por isso, eu, você e todo o mundo tenha dificuldade para lidar com a convivência do mundo social com o mundo sutil. Há falta de prática, não de sonhar, mas de tentar esclarecer e compreender os sonhos em relação à vida social.

Há muitos anos, no Rio de Janeiro, traduzi um texto do psicólogo Laing para o jornal Espaço Psi (de psicologia, claro). Tratava-se de uma descoberta antropológica, na Malásia. Lá, o povo Senoí compartilhava os sonhos desde muito cedo, da infância à vida adulta. O grupo familiar e o de trabalho ajudavam as pessoas a interpretar os sonhos e os utilizavam para resolver problemas e superar os medos e as neuroses potenciais. Entre eles, havia uma integração do "eu" social com o "eu" onírico. Os antropólogos, surpresos, observavam que, com isso, nunca houve registro de doenças sérias ou casos de crimes naquele povo Senoí. Talvez porque, além dessa prática de cultivar a confiança, a estrutura de poder deles fosse bastante distribuída e harmoniosa.

O fato que eu quero ressaltar é que existem pessoas, como os Senoí, que tratam do seu próprio mundo onírico, sutil, o qual está fora dos momentos de vigília. Também quero atentar para a dinâmica dos momentos do sonho, em que há um estágio em que se passa do sonhar para o não sonhar mais e que se entra em sono profundo. A partir daí, vai-se além do corpo sutil e entra-se no corpo causal, o corpo da criação, "a essência divina da vida" (segundo a tradição hinduísta). No mundo onírico e causal, tem-se acesso a situações não temporais e não espaciais, à essência da criatividade, da captação dos insights, como diz o Amit Goswami (o meu físico quântico predileto). Isso tudo me interessa muito, há muito tempo.

Minha intenção é perceber a possibilidade de integrar essas três dimensões: a do corpo físico (deste mundo material e social), a do sutil (do mundo onírico) e a do divino (do mundo causal). Como não tive a sorte de nascer entre os Senoí, tento com a prática de Yoga e meditação, desenvolver uma compreensão da vida, em que esses três campos de vivência sejam integrados, de tal modo, que eu não seja sobrecarregado pelo mundo social; que o "eu", sujeito das minhas ações, não fique soterrado, sob tantas solicitações cotidianas, e consiga acertar um pouco mais holisticamente.

Compreendi que é fundamental praticar a consciência de que não sou apenas social. Como orienta o sábio Patânjali, cultivo o meu mundo social, valorizo-o até, mas com o propósito de libertar-me dele. Compreender o mundo social, para poder lidar com ele, sem ficar com a alma presa ou dependente dele. O propósito vai além: liberar-se para lidar também com o mundo onírico e o divino.

Toda essa compreensão, que é explícita em Yoga e meditação, parte do pressuposto que eu, você e todo o mundo tem essa vivência tríplice e que é possível integrar, perceptivelmente, essa vivência. Os sábios e os gurus demonstram como isso está perfeitamente disponível. Segundo a tradição hinduísta, vive-se para realizar a prática dessa consciência holística. A realidade é um fenômeno que se compreende a partir da consciência. A física quântica ratifica esse ponto de vista, ao demonstrar que a consciência determina a realidade percebida.

Tenho percebido que viver deste modo: fazer "o bem sem olhar a quem"; ficar cada vez mais desapegado do produto das minhas ações e das de outras pessoas; lidar com a realidade objetivamente; evitar acumular ressentimentos; tudo isso me ajuda a, cada vez mais, libertar-me do peso social e obter nos relacionamentos a essência que me aproxima do divino, do onírico, e de mim mesmo.

Thadeu Martins

      

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