O caminho do Yoga

Para minha sorte, fui apresentado ao Yoga Sutra nas aulas do Yoga Institute, nos idos 1983. Os quatro volumes dos comentários ao texto pareciam desproporcionais à brevidade do original. Nas aulas, às seis da manhã, o professor, o PhD. Jayadeva Yogendra, filho do fundador do instituto, nem se abalava com a entrada do leiteiro, do verdureiro e de outros, que diariamente vinham nos abastecer bem cedinho, nos arredores de Mumbay. Ele também não perdia a paciência com a dificuldade que os alunos ocidentais (todos bem graduados) demonstravam, para aceitarem os conceitos do sábio Patânjali e de seus comentaristas.

O Yoga Sutra é o texto que sistematizou o Yoga. A expressão significa "o cordão do Yoga". Cada conta desse cordão é uma mensagem telegráfica a ser decifrada, por isso é tão volumosa a coletânea dos comentários consagrados pela tradição. Os textos originais eram curtos, de modo a serem transmitidos oralmente, na época em que surgiram. Lembro-me de uma tradução literal feita pelo velho Yogendra, do sânscrito para o inglês, tão sintética que parecia um livrinho de cordel.

Ao todo são 195 versos, em quatro capítulos, sendo que o primeiro é intitulado "samadhi pada" (o caminho do "samadhi"). Toda ênfase do que é Yoga está nesse primeiro capítulo. Fica claro, logo de início, que Yoga nada tem a ver com ginástica, com o folclore que se observa por aí. Rigorosamente, Yoga está relacionado com "samadhi", ou seja, um estado de plenitude, de integração, a partir da cessação dos turbilhões da mente.

Ao sair da corrente dos pensamentos incessantes, a mente atinge o estado de observação atenta. Passa-se a agir, nesse estado, como observador simultâneo da própria ação. O que se cultiva na prática de Yoga é essa atitude de testemunhar tanto o que se faz na vida como a própria pessoa, no momento da ação. O caminho do Yoga é no sentido de desenvolver essa atitude, com o propósito de cada um testemunhar a si próprio, aos outros, à natureza; de prestar atenção em tudo e no todo, e estar em si ("na sua").

Nesse estado de "samadhi" (de Yoga, meditativo), tem-se a oportunidade de uma integração extraordinária do próprio eu. Como diz José Saramago, no livro "Todos os nomes": "Tu conheces os nomes que te deram, mas não conheces o nome que tens". O nome que eu tenho é uma descoberta que eu tenho de fazer, na medida em que eu seja capaz de ficar no estado de testemunha, no estado de não ação, em que não preciso agir para atender a nenhuma solicitação, e apenas observo e compreendo minhas emoções. O desafio é o de sentir as emoções, e não ser arrebatado por elas; em vez disso, esclarecer meus sentimentos e compreendê-los, para aceitar-me e prosseguir vivendo sem ressentimentos e culpas.

Claro que não vivo num estado permanente de "samadhi", embora admire aqueles que se dediquem integralmente ao estado meditativo, como alguns "sadhús" na Índia ou monges de ordens budistas. São exemplos de vocação cultivada. Eu, no meu cotidiano, quando vivencio algo, me emociono: fico triste ou contente, animado ou desanimado, conforme a situação em que me envolver. Quando estou sentindo a emoção, a vivencio plenamente. Tento vivenciar o que estiver acontecendo no "aqui e agora" da situação, e somente o aqui e agora; apenas o momento presente. Nem sempre consigo, e tenho bastante trabalho para recuperar-me dessas situações, mas essa é a minha disposição, para continuar íntegro e dar conta de tudo o que me meto a fazer no cotidiano.

Conforme o Yoga Sutra, o mais importante que se tem a fazer é a realização da consciência; é perceber o nome que se tem e não os muitos nomes dados e os que ainda vão ser dados a mim, a você e a todo o mundo. Quanto mais cultivo a capacidade de testemunhar a minha vida, de viver o momento presente e sentir as emoções, apenas do momento presente, mais estarei praticando um modo de viver que traz enorme liberdade. Não é por acaso que esse estado de "samadhi" também é chamado de "moksha", que significa, literalmente, libertação. Libertação das circunstâncias com as quais me identifico, com os vários nomes que me atribuem ou com as personagens que eu assumo temporariamente.

Eu, assim como você e todo o mundo, sou um ser cultural. Interajo, de tal forma, com o meio no qual fui criado e em que estou, que acabo incorporando, ao meu modo de ser, muitos dos valores da época em que estou vivendo. Compreender que valores são esses, que ética lhes corresponde no mundo em que estou, é básico. Tenho também de perceber o quanto me identifico com esses valores, para selecioná-los e tentar descartar alguns ou saber como conviver com eles.

No caminho do Yoga, percebo o objetivo de ser íntegro, perceber os valores, ser testemunha de mim mesmo, aceitar as diferenças, enfim, cultivar um modo de ser que seja bom para mim, para conviver com você e com os outros – sim, também bom para os outros –, caso contrário, serei excluído e nada mais ficará confortável para mim. É básico ter essa percepção de como viver num mundo que já estava aqui, para saber como se adaptar a ele e adaptá-lo a mim.

Em outras palavras, eu poderia resumir o caminho assim: a grande luz que o Yoga oferece é no sentido de desenvolver-se um método próprio, com o qual se consegue cultivar um viver confortável, íntegro, saudável; de modo a sentir-se bem, no lidar com o mundo, e cultivar a capacidade de compreensão da vida e de si mesmo.

O propósito do caminho é de a pessoa transformar-se, habitualmente, em testemunha de tudo o que faz e da própria vida; cada vez mais libertada das circunstâncias em que já viveu, para poder viver integralmente o aqui e agora; cultivar o estado de plena consciência; perceber que a vida é muito mais do que o social.

Quando se vai além do viver social e permite-se uma integração maior, que inclui a compreensão dos sonhos (o estado onírico) e a prática consciente da não ação (equivalente ao estado de sono profundo), multiplica-se por três as dimensões da própria vivência. Passa-se a uma vivência plena: social, onírica e divina, em estado de graça.

Thadeu Martins

      

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