Recondicionar é preciso

Conforme Patânjali, há cinco atividades mentais que frequentemente afastam a pessoa da realidade, do presente. Elas seriam: o conhecimento certo ou o errado, a ilusão, o sono e a memória. Patânjali sugere que essas modificações do estado mental de presença sejam controladas e até esvaziadas, para não se ficar carregado de pensamentos ou de possibilidades de identificação mental com o que não é realidade. Quando me identifico mentalmente com qualquer dos resultados dessas cinco situações, eu me perco da realidade, deixo de estar presente, de estar aqui e agora.

Em relação ao conhecimento, ele seria correto quando eu compreender algo que corresponde à realidade e seria errado quando eu apreender um significado, cuja referência real é inexistente ou equivocada. O conhecimento em si não seria um problema. A atenção que Patânjali destaca é no sentido de eu não me identificar com o conhecimento, não me apegar a ele, porque, quando me identifico com o que é exterior a mim, afasto-me de mim mesmo.

Quanto à ilusão, para Patânjali, ela sequer é conhecimento equivocado; é simplesmente considerar real aquilo que não é. Já o sono e a memória acho mais interessantes de explorar. Vou-me ater agora ao sono e aproveitar a compreensão do estado contemplativo, que se cultiva na meditação, e que tem a ver com o estado de sono profundo, altamente recuperador da saúde e da tranquilidade.

Quando se contempla, está-se no estado de não ação, de beatitude, de graça divina. Contemplar é uma palavra mais adequada que meditar, uma vez que meditar, em qualquer dicionário, significa refletir sobre determinado tema para entendê-lo melhor, enquanto que contemplar implica não ação, implica a intenção e o estado de não agir, não atuar, deixar a vida prosseguir sem interferir nela.

Já comentei cada um dos três estados habituais: a vigília, o sono com sonhos e o estado de sono profundo – no qual nem sonho, e nem o caráter está presente. Em Yoga, ainda se acrescenta o estado consciente em que se vivencia a contemplação, no qual não há pensamentos nem sentido de um "eu" individual. Em sânscrito, este estado é chamado "turiyá".

No sono profundo, estou em completa não ação, mas não estou consciente. Já no estado contemplativo, meditando, estou consciente e, ao mesmo tempo, cultivando um estado de não ação. Quanto mais cultivar esse estado de não ação, mais terei criado as condições para esse quarto estado, semelhante ao sono profundo, com a diferença do fato de estar consciente.

Posso, então, dizer que praticar Yoga, fazer do Yoga uma estratégia para a vida, inclui a disciplina de cultivar esse quarto estado consciente de não ação. Nesse estado, eu me aproximo da essência divina, por não agir ou reagir, não corresponder a nenhuma expectativa do mundo social. No estado contemplativo, dá-se lugar ao ser divino, em vez do ser social, que habitualmente está evidente.

Só de brincadeira, eu poderia cultivar a essência divina, de um modo esquemático, nas 24 horas diárias: oito horas para dividir entre o "ser onírico" e o "ser divino" da não ação inconsciente (do sono profundo e sem sonhos); outras oito horas para o ser "homo faber" (da ação) e as oito horas restantes para a contemplação. Mas ainda não descobri como fazer isso. Na realidade, gosto tanto de conversar, que deixo bem menos tempo do que deveria para a contemplação. No entanto, eu uso grande parte das oito horas noturnas, em que fico deitado na cama, para praticar um profundo relaxamento, que me aproxima do chamado sono do Yoga, o "yoga nidra" e, assim, ir cultivando a condição de estar consciente e além do sono profundo.

Foi um sábio indiano, Satyananda, quem tornou didático como chegar ao "sono do Yoga", por meio de condicionamentos e relaxamento. Como eu acho muito complicado o método original, contento-me com uma aproximação, que já me ajuda muito. Como o modo de ser e de agir é condicionante, para mim ou outra pessoa, graças ao funcionamento do cérebro, pode-se redirecionar a atenção cerebral no sentido em que se quer o condicionamento. O meu aliado, para isso, é o hipotálamo (uma parte do cérebro), que funciona como um reforçador emocional de comportamentos. Ele fica, o tempo todo, emitindo para as células do meu corpo umas certas substâncias eletroquímicas (neuropeptídeos), correspondentes às emoções que eu tenho, e esse processo é recursivo, repetitivo, criador de hábitos ou de vícios (conforme o valor moral que lhes atribuírem).

Ora, se eu quero mudar algo na minha vida (por exemplo, o modo de dormir), devo fazer com que o meu hipotálamo gere outros tipos de neuropeptídeos: diferentes daqueles gerados pelo meu comportamento habitual (por exemplo, de cair no sono). Então, ao ir para a cama, fico mentalizando para relaxar e continuar consciente. Às vezes, consigo, em outras durmo que é uma beleza, e assim, prossigo progredindo.

A disciplina da prática de Yoga, com a ajuda natural do hipotálamo, é um meio bastante eficiente de "descondicionar" genericamente todos os hábitos para criar condicionamentos que sejam favoráveis à integração do ser físico com o ser mental e o ser espiritual, além de outros condicionamentos práticos para a vida social.

Por exemplo, há momentos, na minha vida e na sua também, em que surgem prioridades, em que é preciso alcançar um importante objetivo pessoal ou coletivo. Então, mentalizo atitudes e frases positivas de realização do objetivo, para criar o condicionamento. Se, por exemplo, tratar-se da preparação para uma prova de conhecimentos, eu posso dizer, para mim mesmo, diariamente, uma frase curta e objetiva: "eu compreendo tudo o que estudo" ou "sou capaz de aplicar tudo o que eu estudar". Um exercício preparatório é o de escrever, de várias formas diferentes, frases que sintetizam o condicionamento mental que eu pretendo fazer, com foco em um objetivo legítimo, válido. Depois, escolher a frase mais sintética (que me soa melhor) e repeti-la várias vezes mentalmente, diariamente, (como se eu estivesse rezando) para habituar-me positivamente com a intenção dessa frase. Essa frase expressa uma forte decisão ("sankalpa", como dizem os indianos), que posso mentalizar em posição meditativa ou de relaxamento, para condicionar o meu hipotálamo.

Já compreendi que o melhor caminho da mudança é a facilidade. Mudança difícil ou desagradável ninguém faz. Por isso que é tão difícil mudar. Então, se eu quero de fato mudar, crio condições que me sejam agradáveis e, por meio delas, vou mudando aos poucos; sempre funciona comigo.

Se você também quiser, sugiro experimentar. Portanto, depois de mentalizar a sua frase, deite-se e relaxe profundamente, em seguida repita mentalmente a sua frase, visualize a realização do seu objetivo, representando-o como você puder senti-lo (já realizado!). Em seguida, perceba todas as partes do seu corpo de modo a conduzir um profundo relaxamento.

Você pode conduzir esse relaxamento conforme o ritmo da sua respiração. Depois de relaxar todo o seu corpo, volte a mentalizar a sua frase e a respectiva visualização. Leve essa imagem para um lugar situado num ponto central do seu cérebro, deixando-o tornar-se um pontinho luminoso. Deixe-se estar por mais algum tempo em estado de profundo relaxamento e depois volte vagarosamente a sentir seu corpo desde os dedos até o rosto. Pronto, esse é um bom começo.

Thadeu Martins

      

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