Yoga e atitudes na vida

Na tradição da escola que me orientou (The Yoga Institute, Mumbay, Índia), indicam-se quatro atitudes fundamentais ("bhava"), que devem ser interiorizadas por quem pratica Yoga, tanto no exercício de uma postura ("ásana") como na vida diária, de modo a serem incorporadas à personalidade.

A primeira tem o nome "dharma", que está relacionada ao sentido de dever, da observação da ordem na qual estou. A sugestão é de observar, na vida, uma hierarquia básica de deveres e obrigações. No ponto máximo dessa hierarquia está o ser de cada um, o "self", o eu mesmo. Depois de mim vem a família, os meus amigos, o meu trabalho, a minha vizinhança, a sociedade, a humanidade, até chegar ao planeta, ao universo. Então, a primeira obrigação é comigo mesmo, depois vêm os deveres sociais, que começam com a família e assim vão-se distanciando, à medida que vão ficando mais longe do meu coração, da minha visão, da minha capacidade de alcance. Com essa compreensão, o dever sem o ser é algo vazio, torna-se apenas uma repetição de padrões, um cumprimento de ordens sem envolvimento ou afeto.

O Dr. Jayadeva Yogendra, orientador do Institute, enfatizava que não prestar atenção em mim e pular esse primeiro ponto da hierarquia das atenções, faz deixar-me levar de qualquer jeito e, em breve, não ser capaz de suprir nenhuma das minhas próprias obrigações em relação aos outros níveis dessa hierarquia. Se eu mesmo, que sou o realizador, não me estou cuidando, como vou cuidar da família, da casa, dos amigos, do trabalho, da sociedade e assim por diante? Infelizmente, há vezes em que só percebo isso quando fico doente, exausto ou momentaneamente incapaz de fazer o que depende de mim.

Os exercícios de Yoga, em que esse sentido de dever ficaria fisicamente mais perceptível, seriam os das posturas meditativas. Quando estou, assim, em posição de meditação, cultivo um estado contemplativo, vou para dentro de mim, para a essência. Quando estou com a atitude adequada, em um exercício de contemplação, a percepção de significados e de pensamentos flui sem criar emoção ou perturbação. Na medida em que isso se realiza, transcendem-se os nomes que me deram, as minhas personagens, e passo a compreender com mais clareza as prioridades das relações sociais. A situação física e postural de equilíbrio propicia um sentimento de paz, a partir do qual posso ver o valor, o significado das coisas, com uma perspectiva diferente daquela que veria ao estar assoberbado pelas personagens que me assumem, no dia a dia das atribulações.

A segunda atitude diz respeito à compreensão, à consciência, à sabedoria, "jñana" em sânscrito. Conforme a tradição hinduísta, todo o saber e compreensão que dão significado à vida já estão presentes em meu interior. De origem, portanto, sou potencialmente apto a compreender a realidade com a qual estou lidando; posso verificar se os meus valores são consistentes com o que faço. No entanto, para melhor compreender o meu relacionamento com as pessoas, é melhor que eu me coloque numa posição de tomada de consciência, para que eu ative essa atitude.

Os exercícios, em que essa tomada de consciência surge mais facilmente, colocam a coluna vertebral e a cabeça alinhadas para cima, são, por exemplo, os de alongamentos vertical e lateral. Quando eu me elevo para perceber o todo, presto essa atenção, pratico a atenção com todo o corpo. As posturas verticais acentuam a concentração, a coordenação dos movimentos do corpo com a respiração; exigem o equilíbrio pessoal. Os sábios destacam que, em contraposição ao equilíbrio consciente, está a ilusão ("maya"), que faz buscar, na vida social, algum propósito ou significado para a vida, o que, em geral, leva à frustração. Portanto, eu primeiramente me equilibro e assim torno-me capaz de agir socialmente, de modo mais adequado.

A terceira atitude, "vairagya", tem a ver com a entrega, a humildade, a aceitação, o desapego ou a renúncia. Saio de uma "atitude superior" para uma atitude de humildade, submissão à vida. Os exercícios em que cultivo a humildade, a entrega ao princípio divino, são aqueles em que me inclino para frente, em que me dobro, como na postura do símbolo do Yoga, o "yoga mudra" (sentado, pernas cruzadas, tronco e cabeça pendentes para um dos joelhos ou para a frente, e com as mãos unidas por trás das costas, como estivessem atadas). Entre todas as posturas, as em que me inclino para frente são aquelas em que posso aproveitar para cultivar a aceitação, a reverência. Também as posturas de torção suave da coluna, como a "hastapadangustásana"; as de relaxamento, as de "cabeça para baixo", todas essas favorecem a atitude de desapego e entrega. Com essa atitude de renúncia e desapego, prossigo realizando minhas obrigações para comigo, para os meus e para os demais, consciente de que "estou no mundo, mas não sou do mundo".

Com essas três atitudes cultivadas e plenamente satisfeitas, chega-se à quarta atitude: a autoconfiança, "aiswarya" em sânscrito. A confiança surge, então, depois que se satisfaz o dever, a compreensão e a humildade. Sem essas três pré-condições, ainda há superficialidade nas sensações de sucesso eventual, e uma certa insegurança, portanto, ainda está presente. Os exercícios, em que cultivo a atitude de autoconfiança, são aqueles nos quais me inclino para trás, alongo a musculatura anterior, como por exemplo, o "bhujangásana" (posição da cobra), além dos "kriyas" (as práticas de higiene e purificação).

No mundo tão solicitante e exigente, se eu não tiver a percepção dessas quatro atitudes como um valor de orientação, poderei perder-me facilmente. Portanto, apesar das dificuldades corriqueiras, posso cultivar o ser: cuidar do corpo, da mente e do espírito, para ter uma referência única e exclusivamente interior à minha natureza, à essência, que não depende tanto dos fatos externos e circunstanciais. Senão, ficarei à mercê dos acontecimentos, das vontades alheias, da ilusão social, como alguém cujo foco é externo, e ficarei fora de mim.

Em Yoga, as quatro atitudes estão associadas propositalmente a cada tipo de "ásana". Por um lado, essa junção, de atitudes e posturas, permite aumentar a capacidade de percepção ao praticá-las, pelo fato de estar-se consciente delas; por outro lado, sem as correspondentes atitudes, os exercícios das posturas tornam-se de valor reduzido.

Thadeu Martins

      

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