Muito além do jardim

Nesta conversa, quero trazer um pouco mais de reflexão sobre as vivências além da evidente no espelho do dia a dia. Já comentei a interpretação hinduísta de que, na realidade, sou muito mais do que um corpo feito de comida, e tenho a composição de várias existências simultâneas, em vários "corpos". Falei de cinco corpos. Agora, para simplificar, vou sintetizar em apenas três (como se isso fosse pouco): o da ação física (feito da comida que assimilo); o emocional (mental) e o corpo sutil (espiritual, da não ação). Enquanto vivo, conscientemente ou não, eu me identifico com esses meus corpos. Quando morrer, passarei por um processo de "desidentificação" em relação a eles.

À medida que deixar de me identificar com o corpo físico, irei restando no corpo mental e no espiritual. Na descrição do "Livro tibetano dos mortos", quando alguém "desidentificar"-se com este mundo de ações, os significados que apreendeu, das experiências, passarão diante da mente (como um filme). No entanto, passaria apenas aquilo que foi significativo para cada um. Há alguns milhares de relatos de pessoas que tiveram experiência de quase morte e que atestam isso, como os coletados pela estudiosa Elizabeth Kübler-Ross.

A segunda desidentificação, durante a minha morte, será com o corpo emocional. Enquanto vivo, sempre que tenho uma experiência, a percepção do resultado dessa experiência é simultaneamente emocional e significativa. Então, quando morrer, ficarei nesse contexto de emoção e significado ainda durante algum tempo, até compreender e aceitar que já me despedi do corpo de matéria. Mas essas emoções e esses significados ficam "congelados", porque só me emociono se tiver matéria para experimentar, pois a experiência é de natureza material. Quando abandono o corpo físico, não tenho mais a oportunidade de fazer experiências e simultaneamente de emocionar-me e de compreender o que aquela experiência possibilitou.

Há quem diga que o viver tem como propósito realizar isto, que é fantástico: a compreensão das emoções das experiências. Tudo mais seria pretexto para aperfeiçoar a realização de significados, que somente a "vida material" permite. Quando me "desidentificar" com o corpo físico, não tenho mais como fazer experiências, passo a ser apenas o que realizei do meu caráter – o conjunto de predisposições de comportamento. Não existo nem pratico mais, fico apenas no corpo de significado e emoção. Ainda me identifico com o caráter, que aos poucos vai-se abandonando e diluindo, fluindo para o caráter coletivo das gerações que me são contemporâneas. Então, quando me vou desidentificando, aquilo que me é individual não tem mais necessidade prática (porque também não há mais prática ou experiência). Vou-me libertando do conceito de identidade. O conjunto de emoções e significados também vai-se diluindo, agregando-se ao significado geracional até chegar ao princípio divino, a origem de tudo.

Então, ao longo da vida, tenho a oportunidade de realizar emoções e significados que serão acrescentados, numa primeira instância, ao caráter individual; numa segunda instância, ao caráter coletivo e, numa terceira, à divindade que sou, de onde vim com todo o mundo.

E aí, vale destacar que nas concepções mais antigas, entre elas o hinduísmo, eu, você e todo o mundo é Deus. Quando, em qualquer época, se faz uma separação do tipo "criador e criatura", abre-se mão da existência completa e assim faz-se um distanciamento da essência divina comum a todos, que existe em cada um. Tratar-se-ia de um ser mundanamente operacional. Ao criar-se essa separação, cria-se também a oportunidade para surgirem os "intermediários", para fazer a intermediação entre o princípio criador e a criatura. Na concepção Yoga, no entanto, essa intermediação é feita por "buddhi", o intelecto de cada um. O intermediário, nessa visão, já está em mim (o que acho muito bom).

Assim, eu, você e todo mundo é ser divino, ser atuante e que traz o próprio intermediador, o qual é "buddhi", o cérebro intelectual, quem faz a identificação com o corpo físico, e que conduz à "passagem" para o "reino de Hades". "Buddhi", em sânscrito, designa Hermes. Lembra do deus grego da comunicação? Pois ele está em todas as tradições, com diferentes nomes e mesma função (Mercúrio para os romanos, etc.). A capacidade individual de se comunicar com os outros seres e com o ser divino já vem no "pacote" original, com o qual se nasce. Então, o que se tem a fazer é aperfeiçoá-la, desenvolvê-la, seja para entender-se com os outros, seja para compreender-se a si mesmo, num nível mais espiritual, além do jardim.

Thadeu Martins

      

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