"Samadhi" está à disposição

Uma das primeiras afirmações do Yoga Sutra de Patânjali diz: "Yoga é a cessação dos turbilhões da mente". Seria bem mais complicado dizer que é um estado de não identificação com as manifestações da consciência, a qual está presente, mas não se identifica com coisa nenhuma. É essa complicação que eu quero esclarecer.

Claro que devo compreender Yoga como um processo que acontece, como uma direção, uma diretriz, uma opção de caminhar. As modificações, as percepções da consciência, a identificação com os pensamentos, as emoções, os significados, isso não cessa nunca. A partir do processo em que estou atento e tenho o propósito de identificar-me, cada vez menos, com tudo, a ponto de identificar-me apenas com a essência, vou adquirindo, progressivamente, uma condição de tranquilidade, de paz, harmonia, e a capacidade de conviver com os outros, nas adversidades ou nas felicidades. Proponho-me, assim, tornar-me uma pessoa melhor para mim e para todo o mundo.

Também poderia dizer que Yoga é "samadhi", ou seja, "a cessação dos turbilhões da mente" é o processo de deixar de identificar-se com as manifestações mentais (que é o significado da palavra sânscrita "samadhi". Estou novamente falando de um processo ao qual me proponho, e que acontece progressivamente. Nele, vou lidando com o que está ao meu alcance, vou progredindo e me sentindo bem. Essa é a ideia básica, quando falo de Yoga. Todos os exercícios, as conversas e reflexões têm esse foco. Claro que me apoio na compreensão dos ensinamentos e das técnicas que me ofereceram e à qual vou acrescentando com o que vivo e experimento. Eu e cada um tem a oportunidade da vivência essencial e da eventual sorte de compartilhar as próprias compreensões.

Embora seja importante saber como realizar, como praticar o método e lidar com a realidade, há momentos em que a prática do método não é suficiente, em que a realidade supera a compreensão do método. Então, cada um tem de lidar com a realidade por si mesmo. É como seguir um mapa e estar andando em um território, mas de repente há um furo no mapa, e me deparo com a realidade, que não está no mapa. "Vou para a direita ou para a esquerda? No mapa não está claro." E agora? Agora, tenho que seguir a minha intuição, a minha história, a minha experiência. Embora haja muitos métodos, muitas igrejas, muitos partidos, muitas linhas metodológicas, e de fato realizem-se muitas coisas, boas ou ruins, quem realiza mesmo não é o método, sou eu e é cada um, de modo pessoal ou coletivo.

Aqui me refiro ao método do Yoga Sutra, codificado pelo sábio Patânjali. A essência desse método é superar a identificação com as manifestações da minha consciência. Ou seja, deixar de identificar-me com o material, com o emocional, com os significados que impregnam as minhas emoções, e até com a espiritualidade de caráter divino, a ponto de desapegar-me totalmente das identificações. Conseguirei efetivar isso? Talvez. Mas o propósito é o de progredir até o limiar ("samadhi"), no qual eu perceba que sou mais que os vários nomes que me deram ou que eu talvez nem nome tenha ou precise ter, como já foi aludido por José Saramago em "Todos os nomes".

"Samadhi" é o principal resultado da prática de meditação. O Yoga Sutra, em termos práticos, descreve dois tipos de meditação: "samprajnata-samadhi" e "asamprajnata-samadhi". Como água mineral: "com gás ou sem gás"; para brincar um pouquinho, porque esta conversa está séria demais. No caso, seria: "samadhi" com objeto e "samadhi" sem objeto de identificação.

O processo "samprajnata" é reflexivo, intelectual, e pode ser dividido em quatro partes, estágios ou modos de realização. De início, usa-se o principal recurso de compreensão, que é a consciência, para refletir, meditar, concentrar-se, focalizar-se em um objeto: algo que é denso, que é material; para compreender a realidade material ou em si ou na coisa. Em seguida, busca-se o esclarecimento do significado do objeto. Passa-se da coisa em si para o que a coisa significa: o significante e o significado. Depois, segue-se a identificação com a essência divina desse significado, sua plenitude ("ananda", sensação imaterial de bem-aventurança). E por último e mais importante: vê-se a clareza do que se é, a divisão integradora, o nome que deram e o que se tem, o que se é em essência. Deu-se então a desidentificação.

Esses foram os quatro estágios do meditar com a compreensão, com a consciência, com auxílio de um objeto focalizado. Trata-se de um processo de meditar sobre a diferença entre o ego e o "eu", entre o ego que realiza socialmente e o ego que é, independentemente do social. É um processo mental bem exigente.

Há o outro tipo de meditação, que não depende da intervenção da mente, da consciência, do processo reflexivo, cognitivo sobre objetos densos ou sutis, sobre a plenitude da bem- aventurança divina ou sobre a dicotomia entre o "eu" e o eu mesmo. Nesta outra forma de meditação, não se precisa refletir sobre objeto algum, denso ou sutil que seja. Estou falando do "asamprajnata-samadhi". É o estado em que se apreende a realidade sem a intervenção da consciência. É deixar-se a mente como a água cristalina que mostra o fundo do rio. Como se eu fosse a cristalinidade da água, como se eu fosse transparente a tudo, porque me tornei tudo. É um estado de espírito em que a consciência não interfere. Cada pessoa já esteve eventualmente nesse estado, em que se torna imperceptível de tão entrosada com a realidade. Parece fantasia de tão extraordinário, e o bom é que também se dispõe de método para cultivar essa possibilidade.

Então, eu vou, nos exercícios de meditação, aperfeiçoando a forma de meditar, e arrisco a sugestão de você praticar um desses dois tipos de meditação no cotidiano. O que eu faço é colocar a prática de Yoga e de meditação na minha própria realidade. A partir daí, tudo o que faço passa a ser Yoga: ou percebo o meu comportamento, a realidade densa e também a sutil, a partir de um processo cognitivo ("samprajnata") de testemunho de mim mesmo; ou tento entrosar-me com a realidade para aceitá-la e apreendê-la diretamente ("asamprajnata").

Essa prática tem seus pressupostos na "filosofia" hinduísta, e um deles aponta para três princípios permanentes, na manifestação da vida: "sattva", "rajas" e "tamas". Que seriam as três qualidades da matéria, da natureza: o sutil, o movimento transformador e a densidade. Todas dominadas pela consciência e compreendidas pelo intelecto ("buddhi"). Ou seja, a minha essência não é percebida diretamente, mas pela consciência e por meio do intelecto. A divindade é percebida de modo reflexivo, eu vejo o reflexo divino na compreensão intelectual. Embora eu seja constituído pela divindade, não a percebo diretamente. A vida social afasta do que realmente se é, enquanto o caminho, para ser o que se é, é dado pela consciência. Tem-se condição de viver além do social, à medida que se expandir a consciência da realidade.

Dentre as manifestações dos três princípios essenciais – "sattva", "rajas" e "tamas" – , "sattva", o mais sutil, permite uma percepção harmoniosa. Ao meditar, dá-se prioridade às qualidades "sattva" e não às qualidades da movimentação ou da inércia massiva. A identificação, que permite o consequente "desidentificar", acontece a partir do sutil. O cultivar da harmonia, da felicidade, do bom astral, das boas atitudes, da ética, da moralidade, da compreensão e da amorosidade é de natureza "sattva". Quanto mais evitar-se "rajas" (paixão) e "tamas" (depressão), melhor, mas esses sempre estarão presentes. Ao perceber que me estou identificando com a dor, com a raiva, com a inércia, com o medo, lembro-me que o meu hipotálamo reage às minhas emoções e transforma a identificação em hábito, vício, ou dependência. Cultivar "sattva", trilhar o caminho do sutil, cada vez mais frequentemente, de modo que o meu cotidiano torne-se um hábito de plenitude, vale todo o meu empenho e dedicação. Esse é um caminho da meditação que leva ao "samadhi".

Thadeu Martins

      

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