Criatividade, OM e o sentido da vida

O tema da criatividade e inovação passou a me interessar bastante, desde 1995, a partir de quando tive oportunidade de estudá-las para aplicar em ambientes empresariais. Tive muita sorte na época de conhecer pessoalmente excelentes especialistas, como Eunice Soriano de Alencar, Edward de Bono e também a equipe da Creative Education Foundation em Buffalo, NY, USA. Conforme me ensinaram, há quatro etapas fundamentais da criatividade, que são: (1) o estudo e pesquisa da situação a resolver ou compreender; (2) a saturação, quando o estudo completou a capacidade de abarcar os processos necessários à compreensão, mas parou aí; (3) o insight, quando se está saturado da intenção e do conhecimento necessário para descobrir algo novo e, de repente, do nada, vem a ideia genial ou a solução do problema; e por último, (4) a implementação, quando a ideia é colocada em prática.

A etapa do insight é a que agora quero destacar. Ela se dá quando se tem a oportunidade de criar algo novo. Até aqui, repeti o que a maioria dos especialistas dizem. No entanto, posso arriscar-me (em boa companhia também) na hipótese de o insight ser captado como um significado já existente (na dimensão não espaço-temporal) e que está pairando no campo coletivo de significados e emoções. Conforme já comentei das leituras do Amit Goswami ("A física da alma" e outros títulos), que tratam também desse assunto, com o conceito de simultaneidade (no tempo) e ubiquidade (no espaço). Ou seja, a possibilidade de se estar simultaneamente em vários lugares.

Já comentei o fato de a experiência real acrescentar algo à dimensão coletiva. É também para isso que se vive, para acrescentar algo, com a própria experiência, ao caráter coletivo. O que se cria hoje de conhecimento pode ser captado por alguém que ainda nem nasceu; assim como pode-se captar algo que um gênio descobriu (no passado ou no futuro).

Quando falei do corpo de emoções e significados, em que se têm insights ou em que se acrescentam conhecimentos e significados, referia-me ao campo não espaço-temporal da vivência humana. Essa possibilidade pode ser percebida facilmente, de um modo aproximado. Basta imaginar, agora, por exemplo, que se está numa praia: imediatamente, passa-se a estar aqui e na praia. Eu, você, todo o mundo é capaz de sentir emoções, como se estivesse na praia, embora fisicamente não se tenha saído do lugar. O que se informar ao cérebro é por ele tratado como realidade.

Essa capacidade de estar além do espaço-tempo é real e pode-se cultivá-la. Mas se eu ficar apenas nessa dimensão não espaço-temporal, corro o risco de perder-me. Posso tanto deixar-me ficar naquela praia maravilhosa como em uma situação desagradável. Todo mundo tem essa capacidade de fixar-se numa situação imaginária. Quando me identifico com essas situações, deixo de ser eu mesmo e fico apenas na situação boa ou na ruim, o que eventualmente pode não haver como evitar. O problema é ficar o tempo todo, ou grande parte do tempo, identificado com a sensação negativa ou positiva, pois assim eu poderia perder-me de mim mesmo. Daí, a atenção de lidar com isso de forma adequada. Mas é claro que cada um é que sabe o que lhe é adequado, o quanto precisa de determinada circunstância, o quanto precisa identificar-se com o sentimento bom ou o ruim.

Se desenvolvo a habilidade de fazer apenas uma "visita" e voltar, eu pratico a capacidade de não me identificar com aquilo que não é a minha essência. Passo então a perceber o que está à disposição e a optar por quanto quero dar de atenção àquilo. Sou eu que estou decidindo o quanto de atenção vou dar àquela situação ou àquela identificação, que eventualmente adotar. Cultivar essa habilidade faz parte da minha prática de Yoga, meditação e liberdade.

A tradição hinduísta acrescenta ainda beleza poética a esta conversa tão séria, pois, indica além do corpo de emoções e significados, por meio do qual a experiência física acrescenta algo ao caráter universal, o que chamam de "ananda", o campo da graça divina, que está além do caráter individual, dos significados e que antecede e sucede a existência: um princípio de vida, "ananda", a graça divina da criação.

Aproveito, então, para lembrar do mantra mais simples e essencial de todos. Na tradição hinduísta, os três princípios que constituem a vida são representados pelo OM, formado pelos sons "a", "u" e "m", em que "a" é o som que sai da boca bem aberta dos mamíferos. Esse "a" é "ananda", o princípio divino que faz brotar a vida. E o princípio que faz essa vida fechar-se, constituir-se, tornar-se densidade, é o "m", em que todos os sons convergem e se tornam unidade. Esse "m" é o indivíduo, "jiva", é aquele que atua, está no mundo da existência. E o som do meio é "u", que dá conformação, que modula, o som das emoções e significados, o caráter. Comparativamente poderia ser o pai, o espírito santo e o filho. Esses três sons, "AUM", quando se juntam, formam o som "OM", que literalmente funciona como a invocação divina, algo como o amém do cristianismo.

Então, toda esta conversa poderia ser sintetizada nesta única sílaba: OM...

Quando repito esse mantra várias vezes, estou reproduzindo o distanciamento do mundo material, do mundo dos significados e até da minha individuação no mundo divino. Estou sendo eu mesmo e tudo, simultaneamente. Crio assim uma condição de distanciamento; chamo a divindade e assim integro-me com o todo; cultivo a capacidade de estar presente, de ser, ao mesmo tempo, humano, divino e realizador dos significados. Cultivo a tranquilidade, a presença e, ao mesmo tempo, cultivo o não identificar-me com esses aspectos, para prosseguir com a capacidade de gerar experiências e significados, até que um dia, por alguma razão ou falta dela, abandono minha identificação com o corpo físico e com o corpo de significados. Então, entrego-me novamente à origem divina.

Perguntas que surgiram na palestra:

Como conciliar a não identificação com o viver o presente (aqui e agora); sendo que para viver o presente tem-se que interagir, a todo o momento, com as emoções? Como fazer para desapegar-se e, ao mesmo tempo, ser você mesmo? Parece um paradoxo.

Ótima pergunta e síntese dessas duas oposições. No dia a dia, eu vivo a realidade com toda a intensidade que ela exige. Devo estar presente naquilo que estou fazendo, seja lá o que for. No entanto, tenho a capacidade de perceber algo que não está ali, aquilo que não é exatamente o que estou fazendo. Posso, por exemplo, escutar alguém chamar minha atenção para alguma coisa. Ou seja, eu, você e todo o mundo é capaz, numa situação de "total" envolvimento, de processar algum outro tipo de estímulo ou informação, para lidar melhor com a realidade. No momento em que se dedicar essa atenção a mais, vai-se estar parcialmente distante da situação em si.

Pode-se assim ser testemunha daquilo que se está fazendo, até para fazer melhor. É perfeitamente possível haver essa dualidade, de fazer o que se está fazendo e estar também observando o que se está fazendo. Eu, você e todo o mundo consegue ser protagonista e coadjuvante (ou espectador) numa mesma situação, simultaneamente.

O grande desafio é praticar essa capacidade, de modo que ela possa valer sempre que precisar dela. Isso é o mais importante. Por quê? Porque as circunstâncias são muito exigentes. Posso deixar-me levar por algum papel social que exerço, a tal ponto de deixar de ser eu mesmo, para passar a ser aquela personagem social à qual aderi. Nesse ponto, certamente estará havendo algo muito importante que me leva a exercer intensamente a personagem, mas não sou, o tempo todo, apenas aquela personagem que adotei. Socialmente posso ser e certamente sou muitas outras personagens, o que acontece é que circunstancialmente aquela personagem está exigindo "toda" a minha atenção. Mas, independentemente de todas as personagens, eu sou mesmo o ator que exerce a personagem.

Eu sou o ator, além das personagens que desempenho. É esse contato com o meu ator, com esse meu ser de inteligência essencial, ao qual a prática de Yoga e de meditação se dirige. Sou eu que tenho de desenvolver a habitualidade do contato com o meu ser essencial, seja ele divino ou supradivino. Fica a meu critério tal dedicação. Praticar essa capacidade é muito importante, no caminho de Yoga e meditação. Para isso, a ênfase está em não identificar-se. Eu identifico-me, você identifica-se, mas também cada um se vê, a si próprio, simultaneamente. No cotidiano, eu identifico-me com muitas situações e vou aprendendo a dar o valor relativo que essas muitas identificações, de fato, têm e com isso vou superando a identificação em si, de modo a ter a capacidade de estar pleno em todas as situações. Ou seja, conduzir o que tem de ser feito, ou perceber que não há o que fazer, e observar-me, simultaneamente, do fundo dos meus valores e da minha serenidade.

Thadeu Martins

      

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