Receptividade e entrega

Agora eu quero comentar um pouco "Os segredos da vida", de Elizabeth Kübler-Ross. Os tais "segredos" são paciência, percepção do tempo, entrega, amor, esperança, entre outros temas. E isso tem tudo a ver com as conversas de Yoga e meditação. Lembro de quando estava em Mumbay, no Instituto de Yoga, e o Dr. Jayadeva Yogendra dizia que a principal atitude a desenvolver, nesta época atual, seria a receptividade. Observo que as atitudes de receptividade e entrega são bem próximas.

A partir da entrega, eu refreio o impulso de realizar, de agir, de produzir e passo a ouvir, a deixar as coisas acontecerem por si; sigo o curso da vida, vou-me percebendo menos onipotente e mais participante da vida, do jeito que ela é. Tenho que refrear um pouco o excesso da energia dita masculina, essa que vai executando sem deixar a intuição brotar.

Seguro um pouco o agir, relaxo e percebo que o não agir realiza; e muito! Aliás, a maioria das coisas que eu acho que realizo, apenas acontece com a minha participação. Várias pesquisas demonstram que os empresários mais bem sucedidos devem o sucesso ao fator sorte, em grande parte (quem comenta fartamente esse tema é o Dr. Clemente Nóbrega). E que sorte é essa? É deixar-se fluir no ritmo da vida, em harmonia com o universo, e assim as coisas vão acontecendo do melhor modo: com sorte.

Elizabeth Kübler-Ross sugere cultivar a afetividade, por meio das várias lições que a vida oferece – seja a lição do amor, da paciência, da entrega, entre várias outras –, e vivenciar isso com uma atitude de entrega, de deixar-se levar pela vida.

Na compreensão do Yoga, além de cultivar a receptividade e afetividade, devo ser testemunha do que estou fazendo, ser o ator que está lá no meu íntimo, antes das minhas personagens. A minha pessoa que de fato tem a sensação amorosa é esse ator interno. É a partir da relação que tenho com esse ator que consigo criar a harmonia essencial, que dá condição de criar harmonia externamente.

Eu com você e com todo o mundo nos complementamos de algum modo. Nos relacionamentos, estabelece-se uma troca amorosa: de carinho, de entrega, de vontade de acrescentar algo que aumente a compreensão. É isso o que se está fazendo agora e que se faz em todos os dias, com todo o mundo. Quem colocar nessa história alguma equação, algum medidor de troca, certamente vai anular e jogar fora uma enorme possibilidade amorosa. O dedicar-se é "fazer porque tem que ser feito" ("Karma Yoga); é algo que brota. Não tem que haver nenhuma intenção de medir trocas. No momento, em que eu colocar uma expectativa no outro, eu saio de mim e coloco-me no outro, e começo então a excluir-me inconscientemente.

Daí a ênfase, em Yoga, de estar e ser ao mesmo tempo; estar fazendo algo, interagindo, e ser eu mesmo o tempo todo; estar em mim o tempo todo. Assim, eu estarei vivendo a plenitude do amor, da entrega, da paciência. Quanto mais eu viver isso plenamente, mais eu beneficiarei todo o mundo (o que me inclui). Eu serei uma pessoa completa, terei o que dar aos outros. Por onde passa uma pessoa iluminada, todo mundo é iluminado. No entanto, uma pessoa carente só faz é pedir ajuda. Certamente ela vai encontrar ajuda, porque a vida pode ser solidária. A tragédia, no entanto, pode surgir quando encontrar ajuda demais, que pode resultar em algo como o processo cancerígeno, um processo de solidariedade das células, que estão por perto, com aquela célula que só sabe pedir, e todas acabam adoecendo juntas com ela.

A dica para mim mesmo, portanto, é relaxar um pouco a minha onipotência, para deixar-me ser uma pessoa disponível, para a vida brotar e prosseguir como ela é.

Thadeu Martins

      

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