O futuro pelo retrovisor

Outro dia ouvi alguém dizer: "o passado é história, do futuro ninguém sabe, e o hoje é um presente". De fato, o que vejo mais à frente está no espelho retrovisor, por onde vejo muitas coisas que me podem dar segurança, porque já passei por elas; tenho informações e memória. No entanto, planejo, pauto a minha vida por projeções. Porém, é importante eu ter a clareza de que essas projeções estão nítidas apenas no meu retrovisor, que é o que tenho disponível. Por isso, agora, quero recordar o que comentei sobre receptividade, afetividade; sobre como é importante ser capaz de perceber a sorte, o que está à disposição, e assim entregar-me a um futuro que se vá deslumbrando ou se realizando, independentemente daquilo que passa pelo meu retrovisor. Afinal, o que de fato vai acontecer, ninguém assim como eu sabe.

Eu, você e todo o mundo, ao longo da vida, vai lidando seja com o que está no retrovisor (a experiência), seja com as projeções. Mas de acordo com que parâmetros? Como lidar mesmo com a informação do passado e da atualidade e com as projeções? Há muitas respostas, pois cada um tem a sua história. Sim, pois, rigorosamente, eu não tenho uma trajetória, pois trajetória só se dá no espaço. O que tenho, da vivência no espaço, é a história no tempo. Tudo o que passou, literalmente passou. O que resta são as reminiscências, as memórias que foram dando para mim e para cada um o jeito de encarar a realidade e o estímulo à projeção, pois sou estimulado, o tempo todo, a viver. Então, o que há é uma projeção de viver. Ora, se me proponho a viver, já está ótimo, já estou resolvendo a condição essencial.

Porém, na minha história e na de todos, o medo está presente. Desenvolvo receios, incertezas. Mas algo me faz ir para frente. Os meus desejos, esses são os principais motivadores de futuro. Sem eles, até posso prosseguir, mas apenas no embalo, na inércia da sobrevivência. Então, observar o medo é preciso, porque se eu tiver medo de prosseguir, não vou viver, não vou construir futuro. Tenho medo do que não conheço, por isso olho no retrovisor e busco segurança no passado, para seguir em frente. Mas, deve haver algo maior, ou pelo menos independente da minha história e da de cada um, que pode viabilizar o futuro, e o seguir sem medo. Esse recurso posso arriscar dizer que é a aspiração, o desejo.

Quando olho pelo retrovisor, o que vejo é o passado, as reminiscências e, principalmente, as limitações, aquilo que acho ser limites, que podem me impedir de prosseguir. Nesse momento, tenho a oportunidade de encarar positivamente esses limites, percebê-los como grandes aliados para compensar os medos do que pode estar lá na frente. Posso contar com o que percebo de limite. Um bom caminho para a construção do futuro é curtir os limites, aproximar-me deles, perceber o quanto eles me permitem avançar, de modo que não haja frustrações, nem riscos exagerados, de modo que eu possa controlar os meus medos. Essa é a questão. Se, em vez de agir assim, eu estabelecer metas extraordinárias, e muito além dos meus limites, posso causar-me uma enorme frustração, que vai reforçar ainda mais os meus medos e a minha percepção medrosa de esperanças apenas.

Portanto, vale lembrar de exercer a receptividade, de entregar-se à sorte, de também não agir. Não preciso abrir mão do sonho, por percebê-lo além dos meus limites. Se o futuro ainda não existe, por que não ter esse sonho com a projeção de futuro, já que ele não está no retrovisor? Posso colocar esse sonho lá na frente da minha paisagem. Posso fechar os olhos, relaxar e visualizar o sonho. Assim, já começo a curti-lo, muito antes da realização concreta acontecer. Dessa forma, vou criando senso de realização desse futuro idealizado. Crio uma situação interior em que todas as minhas células se mobilizam, no sentido de vivenciar esse sonho, que já está acontecendo, pelo menos em mim. Crio a sensação, aperfeiçoo os sonhos e, na percepção dos meus limites, posso trabalhar gradualmente para criar a condição desse futuro vir a se dar. Assim, mobilizo "as forças do universo a meu favor". Vai que tenho sorte?

O meu futuro é algo que eu desejo realizar. É preciso ter cuidado para não deixar que a turma da retórica da intransigência, dentro e fora de mim, tente sabotar esse sonho, reforçando os medos e as frustrações. Escolho muito bem, portanto, para quem vou divulgar o meu projeto. Divulgo principalmente para mim mesmo, para que eu, impregnado pelo desejo, possa aumentar a minha autoconfiança. A vivência do meu sonho é fundamental. Percebo o meu sonho e os meus limites. Não há ainda nada de agir nisso. A atitude é de não agir, é de receptividade, de deixar acontecer. É fazer com que o meu plano seja suficientemente grande, de modo que o prosseguir seja mais fácil. Curto, portanto, o meu sonho. Estabeleço pequenos objetivos, que levem ao sonho, e com os quais os meus limites e a minha capacitação atual consigam lidar. Quanto mais eu vivencio mentalmente esse sonho, mais eu reforço as minhas convicções de prosseguir, mais me fortaleço contra a retórica da intransigência.

Por que ficar adiando a vivência plena do meu futuro, apenas por achar que tenho de me concentrar nos recursos? Os recursos são apenas um dado dessa história. Não adianta nada ter uma montanha de recursos se eu não tenho o que realizar com eles. Recurso em si não gera nada. Informação não gera sabedoria. Dinheiro não constrói nada, é preciso alguém que construa. Eu, você e todo o mundo é de natureza interativa, vivencia a emoção na interação. Ora, vou interagir com o meu sonho, vou colocá-lo na tela, de modo que comece a mobilizar a minha atividade atual para a compreensão dos limites e para transformar esses limites em algo que faça esse sonho, que desejo, surgir no futuro, para que o futuro não seja apenas a reprodução do que me mostrou o retrovisor.

Quer experimentar? Que tal agora você fechar os olhos e deixar as imagens de um desejo e sonho de futuro se formarem na sua imaginação? Eu faço isso muitas vezes, até que o meu sonho comece a ficar bem nítido para mim, e curto as emoções de sentir-me no meu sonho. Quase sempre dá certo. Em muitas vezes, miro no que vejo e acerto no que não vejo, porque a sorte é mais sábia do que eu.

Thadeu Martins

      

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