Respirar e viver bem

Como dizia Picasso, a gente demora muito a se tornar jovem. Mas, uma das principais características humanas talvez seja a demora em vir a ser o que se é. Desde o surgimento dos primeiros humanos, eu, você e todo o mundo nasce de modo prematuro, com o corpo ainda muito frágil, extremamente dependente de todos e de tudo o que está à volta. Depois, vai-se crescendo, levado, cada vez mais, pelo mundo social e distanciando-se de si próprio. No entanto, um artifício de que disponho para aproximar-me da minha essência é, por sorte, o principal processo da minha vida: a minha respiração.

Ao respirar atentamente, dou início a um processo de transformação e passo a dar atenção a mim mesmo. Nesse processo, há dois instantes de atenção: um, quando acabo de expirar, antes de voltar a inspirar, e outro, quando acabo de inspirar, antes de voltar a expirar. São paradas conscientes, que fazem toda a diferença. Posso aumentar aos poucos o tempo de duração dessas paradas. Posso também dirigir a atenção nesses momentos de pausa. Por exemplo, ao tentar ouvir as batidas do coração, estarei contando os meus tempos da respiração.

Meu objetivo é voltar-me para o meu mundo interior, em oposição à exagerada atenção que normalmente dou ao mundo exterior. Porque uma coisa é viver na sociedade, outra coisa é viver para a sociedade. Quem vive exclusivamente para a sociedade acaba se perdendo de si mesmo e pode-se tornar uma pessoa difícil, para si mesma e para os outros. A pessoa perde assim a própria autenticidade, e todo o mundo sente-se incomodado em lidar com alguém que não tem autenticidade, que não sente verdadeiramente, que não é de verdade. Isso também me incomoda, pois sinto que estou lidando com alguém que não é digno de confiança, que é mais de aparência que de essência.

Talvez o critério mais rigoroso que os seres humanos usem para selecionar as pessoas, com quem interagem, seja o da confiança. Não por acaso, eu preciso ser eu mesmo, caso contrário não transmitiria confiança nem para mim mesmo; eu teria uma vida baseada numa aparência exterior: numa farsa social insustentável.

Patânjali, o grande sábio da tradição do Yoga, do mesmo modo que o filósofo grego mais famoso, chamava a atenção para o pré-requisito do autoconhecimento e do conhecimento contextual. Não basta eu me conhecer; preciso conhecer-me e conhecer onde estou, pois é essa polaridade complementar que me permite viver praticamente. Essa ênfase é vital: quem sou eu e onde estou?

Eu preciso saber quem sou eu, para poder cultivar a autenticidade, ser eu mesmo, poder confiar em mim e transmitir confiança aos outros. Se eu não prestar atenção para perceber onde estou e com quem estou lidando, eu poderia passar a impressão do oposto que sou, pois quando interajo, sou para o outro o que ele percebe de mim, o que eu estou comunicando para o referencial dele. Porém, a autenticidade por si só não basta; ela pode refletir apenas a minha espontaneidade bruta, não amadurecida pela vida, ainda não polida pelo cultivar da gentileza e das virtudes, que se obtêm pelo exercício continuado da plena atenção (como diz o filósofo André Conte-Sponville).

Cultivar a virtude de transmitir uma energia positiva, por meio da respiração, é um bom artifício que apreendi com a prática de Yoga. Afinal, o ritmo da minha respiração é o ritmo da minha atividade, da minha energia (duas palavras que derivam da mesma origem grega, "ergo"). Isso não tem nada de esotérico; é vital e socialmente prático. Então, me esmero para fazer a adequada correspondência de ritmo entre respiração e energia. Se respiro de forma inadequada para uma atividade, ela será autodestrutiva para a minha vida. Quando cuido da minha respiração, cuido da harmonia da minha atividade, faço com que a principal troca com o mundo exterior – respirar – esteja de acordo com aquilo que estou fazendo.

Posso colocar atenção, a partir da respiração, em tudo o que faço, e incluir muitas atividades físicas durante o dia, sempre colocando a atenção em adequar a respiração ao que estiver fazendo. Ao caminhar, por exemplo, faço a respiração adequada ao ritmo do movimento; sinto toda a extensão de cada expiração e de cada inspiração. Até neste momento, em que estou escrevendo, estou curtindo a minha respiração. É ótimo.

Thadeu Martins

 

      

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