A cura está em mim

Nos exercícios de Yoga, inicio percebendo meu próprio corpo. Ao percebê-lo, trago a atenção do mundo exterior para mim mesmo. Depois trago a atenção para os sentimentos, para as emoções, para os pensamentos e com isso vou-me aproximando, cada vez mais, da divindade que há em mim.

"Namastê", que se diz em Yoga e na Índia, significa: "a divindade que há em mim saúda a divindade que há em você". Para os hinduístas, eu, você e todo o mundo nasce divino. Mas que divindade é essa que há em mim e em você? A divindade é a própria vida; simples assim. No entanto, talvez por que essa divindade seja tão em si mesma, ao realizar os seus milagres, que eu mal a perceba e, por essa minha ignorância, dedique-me tanto ao mundo exterior. Como se eu vivesse apenas o mundo social. Assim, tenho que criar vários artifícios de atenção; caso contrário, só de vez em quando, eu curtiria a divindade que há em mim. Cultivar o contato com essa divindade é uma condição para não ficar fora de mim mesmo e não perder a minha autenticidade, a minha essência.

Os sentimentos de alegria e de tristeza não estão do lado de fora, estão dentro de mim. O que há do lado de fora são os estímulos. Eu também sou estímulo para os outros: conversando, ouvindo ou pensando. A minha presença e a de cada um é um estímulo para o diálogo e a comunicação (como dizia Gilles Deleuse). Mas isso tudo é quase apenas estímulo, é interação com o exterior.

Normalmente interajo com o que está dentro de mim apenas quando sinto dor. Mas por que só prestar atenção em mim quando sinto doer? Eu também posso percorrer o corpo mentalmente, deixando-me ficar com um grande sentimento de paz e tranquilidade. Tenho também condição de voltar-me para dentro de mim mesmo e reviver bons momentos e assim curtir a memória de uma forma positiva. Posso assim transformar a memória em um recurso de felicidade. Eu não preciso ficar na espera da felicidade. Esse sentimento é algo que está em meu interior. Posso, então, agir no sentido de cultivá-lo.

Na Índia, contam uma lenda bastante ilustrativa, segundo a qual, os demônios reuniram-se num grande congresso, cujo propósito era o de virem a dominar a humanidade toda. Depois de três dias de discussões infrutíferas, finalmente surgiu uma proposta de um diabinho novo. A ideia era a seguinte: "vamos espalhar para os humanos que eles só precisam ter uma boa compreensão de tudo, e que essa boa compreensão bastará para eles serem felizes. Então, nós (os demônios) vamos encher a vida deles com problemas, e eles não vão ter a menor condição de realizar nenhuma das compreensões deles, porque vão passar a vida resolvendo problemas". Pelo visto, os demônios estão aplicando muito bem essa estratégia. Então, cada vez que eu me sinto assoberbado, por um número exagerado de problemas, com os quais estou lidando, lembro-me que isso é armação desses diabinhos. Livro-me deles! Permito-me um tempo para relaxar e curtir. Afinal, os problemas não vão desaparecer mesmo.

Entrego-me à minha tranquilidade interior, relaxo, fecho os olhos e respiro. O respirar está tão próximo de mim! Se eu achar que o meu batimento cardíaco está acelerado, vou soprando, ao respirar, como se não quisesse que o ar saísse, como se eu estivesse empurrando o ar para dentro de uma bola de encher. Depois de fazer isso, por seis vezes seguidas, o batimento cai ao nível do de um atleta. Esse artifício acalma bastante, reduz a pressão cardíaca e ajuda a equilibrar a temperatura corporal.

A maior parte das doenças que eu, você e todo o mundo adquire é resolvida pelo próprio organismo, e o sistema imunológico é reforçado por uma substância chamada betaendorfina. O laboratório produtor dessa substância é muito especial: o cérebro. Cada vez que tenho emoções positivas, meu cérebro cria betaendorfinas. Nessas ocasiões, o hipotálamo gera neuropeptídeos, com betaendorfinas, que se espalham por todo o meu organismo e multiplicam por várias vezes a capacidade do meu sistema imunológico. Muitas doenças são provocadas por ressentimentos. Algo que eu posso evitar, com atenção ao meu bom humor! Quanto mais emoções positivas eu trouxer para mim, mais o meu organismo ficará feliz.

O organismo tem uma característica muito curiosa. A lógica dele é: quanto mais, mais. O hipotálamo é o responsável pelo reforço das emoções e dos hábitos. Hábito e vícios são simples comportamentos com os quais me habituei, vou repetindo e de tanta repetição eles passam a fazer parte da minha vida, tornam-se uma segunda natureza para mim. No entanto, todo hábito pode ser revertido, desde que se inicie um processo diferente daquele habitual. Então, ao perceber que estou ficando triste, de baixo astral, crítico demais, mal humorado ou doente, reverto imediatamente esse processo. Sorrio, mesmo sem motivos. O meu organismo, reforçador de comportamentos, reage então de forma positiva.

Se inúmeras vezes, inconscientemente, reforço os meus comportamentos, por que conscientemente não posso reforçá-los de forma positiva para mim mesmo? Claro que posso! Segundo o velho amigo Patânjali, a técnica mais simples e mais efetiva para inverter um pensamento negativo, é logo pensar, imediatamente, algo oposto e positivo.

Posso acrescentar e dizer que a prática de Yoga possibilita "descondicionar", para condicionar de um outro modo. O método é cultivar a atenção, o bom humor, o bem-estar, a paz e a tranquilidade, que estão sempre disponíveis para mim, para você e todo o mundo, apesar de todos os problemas e complicações generosamente providos por certos "demônios".

Thadeu Martins

      

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