Mente e memória tranquila

Vou repetir algumas vezes que a minha inspiração e a linha de orientação destas conversas segue o texto clássico "Yoga Sutra" (o Cordão do Yoga), que é como um rosário de contas, em que cada uma delas vai expondo uma orientação do sábio indiano Patânjali (séc. V a.C.). São 195 verbetes que descrevem o que é Yoga. Esses ensinamentos estão dirigidos para a vida mundana. Tratam do modo como se percebe o mundo, a personalidade humana e suas interações.

O Yoga Sutra é também chamado de "Manual da alma" (Pedro Kupfer), tamanha é a profundidade desse texto. São ensinamentos que têm o propósito de compreender e, principalmente, lidar com esse eterno sofrimento que é o viver (para muitos). Sim, porque o viver inclui uma sucessão de perdas, desconfortos e frustrações. Na compreensão de vida dos hinduístas, isso é tão enfatizado, que alguns chegam a afirmar que viver é sofrer.

Mas, no dizer de Patânjali, nem tudo é sofrimento, dependendo do modo como eu puder ver as coisas. Isso faz toda a diferença! Uma coisa é perceber o desconforto, aceitá-lo e lidar com ele; outra é permanecer no desconforto sem aceitá-lo e acentuar ainda mais o sofrimento.

Ora, como o meu organismo reforça os meus hábitos, quando entro nesse processo autodestrutivo, a minha tendência é aumentá-lo. E não adianta me darem conselhos do tipo: "você está sofrendo à toa"; ou explicar o quanto é possível reverter isso, porque a minha pessoa já está mergulhada em um turbilhão. Não existe, portanto, uma saída fácil e evidente, nessa situação. Mas pode haver o início de uma mudança, que depende da minha própria pessoa (e de alguma ajuda que eu pedir e aceitar).

Seguindo Patânjali, tem-se que a maneira de ver as coisas faz com que o sofrimento seja acentuado ou seja compreendido como um alerta, um estímulo para mudar. Esse sofrimento está associado à minha percepção das coisas, à maneira como a minha mente, além de compreender, manifesta-se por si. A mente, em sua manifestação, reforça emoções e sentimentos que já vivenciei e que voltam à tona. Quando estou em uma situação inesperada, busco um modo de agir que já me foi útil anteriormente. Volto ao passado para achar segurança e, a partir daí, lidar com a nova situação. Muitas vezes não funciona, porque esse novo contexto talvez tenha pouco a ver com os anteriores. Mas isso não importa, pois o que acho, inconscientemente, que tenho por segurança é o meu passado.

Viver é lidar eternamente com o significado dessas emoções que tenho, ao perceber o resultado das minhas ações e das ações dos outros. A mente não para de manifestar-se e as manifestações incitam-me a comportamentos. Esses geram resultados, que serão percebidos por mim. A partir daí, tornam-se experiência e memória, alimentam o meu repositório de possíveis pensamentos. Esse ciclo de memorização não é exclusivamente meu, ele é seu também e de todo o mundo.

Patânjali afirma que há cinco tipos básicos de manifestações ou modificações mentais ("vrittis", em sânscrito), aos quais a mente se dedica: o conhecimento (1) certo ou (2) errado, associado à percepção correta ou incorreta da realidade; (3) a fantasia, que é feita de projeções que brotam dentro da mente; (4) o sono, no qual também se tem percepção mental, que não é propriamente imaginação, na medida em que não se está em vigília; por último tem-se (5) a memória, que é sempre avassaladora, seja consciente ou inconsciente. É na memória que está a história de vida, as lembranças de situações que se vivenciaram e às quais se recorre nas situações de dificuldade.

A recomendação, em Yoga, é cultivar a capacidade de serenar as modificações mentais. Isso não ocorre de repente, exige um processo gradual e permanente. Na maioria das vezes, apenas passa-se de uma para outra modificação mental. Mas, o ideal é habituar-se a serenar a mente. Dedicar um tempo para o ócio, criar pequenos intervalos para simplesmente relaxar. O importante é alimentar-se frequentemente de situações de mudanças, para gerar novas experiências, novas memórias que ajudem a lidar com situações difíceis. Permitir-se experiências positivas, momentos de paz e de alegria. As memórias negativas continuarão a existir e a voltar, mas com o reforço das memórias positivas, eu poderei recuperar-me com mais facilidade. Portanto, no intervalo, entre uma complicação e outra, permito-me ser feliz!

O método, então, consiste em utilizar a memória a meu favor. O estímulo é a prática habitual de parar de pensar por um tempo. Inicialmente, posso neutralizar as memórias negativas recorrentes, não deixando que tomem conta de mim. Com a prática, posso aperfeiçoar isso: identificando o fato passado que provocou a memória negativa, percebendo qual foi mesmo a emoção, que aquele fato passado provocou, e tentando (mesmo que seja por alguns instantes) substituir a lembrança das experiências negativas por outras análogas, mas de experiências positivas. Em seguida, escrevo, para registrar qual foi o fato passado e a emoção reconhecida. Quando eu puder tratar de novo essa lembrança, posso exercitar um pouco mais. Verificar, por um lado, se ainda há algo a ser feito para "resolver" o que aquele fato passado provocou (tratar a injustiça), e providenciar o que for razoável (realizar a justiça). Verificar, por outro lado, que se não houver mais o que possa "resolver" aquele passado, então, pode ser o caso de perdoar(-me) e parar de sofrer com o que "já era".

O mestre Patânjali sugere (já há muitos séculos) que posso "inverter" rapidamente o sentido da percepção, ao substituir a lembrança de algo ruim por algo que me faça bem. Vale toda a criatividade e a imaginação, para criar alguma alternativa mental que inverta o sentido do sofrer para o sorrir. Estarei, assim, fazendo um processo de distanciamento das emoções que me fazem mal, interrompendo o caminho da identificação com elas. Meu cérebro, principalmente o hipotálamo, irá imediatamente seguir esse novo caminho de mudança do sofrer para o sorrir, e vai estimular positivamente todo o meu organismo. Será uma pequena mudança. Talvez a única possível, naquele momento, mas, já será a criação de uma nova memória positiva, à qual poderei sempre recorrer, para ter mais tranquilidade, e tratar as causas originais dos meus sofrimentos.

Thadeu Martins

      

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