Um oceano além do espaço-tempo

A prática de Yoga e meditação baseia-se numa concepção hinduísta, segundo a qual (já comentei) todo o mundo tem cinco naturezas simultâneas, como se fossem diferentes corpos integrados em um só: o feito de comida, o de emoções, o de significados, o supramental (dos contextos) e o espiritual.

Desses corpos, o único que estaria fixado na dimensão espaço-tempo seria o corpo feito de matéria, de comida. Os demais não estariam necessariamente presos à matéria. Portanto, somente nessa dimensão espaço-tempo, tem-se a oportunidade de vivenciar experiências, que são traduzidas e memorizadas em emoções e significados, criam contextos e deságuam na vida espiritual. Aquilo que não é matéria constitui o caráter, antecede e vai além da personalidade.

Segundo essa concepção e uma certa linha teórica da física quântica (conforme Amit Goswami), obtêm-se os insights nos campos (corpos) não restritos pelo espaço-tempo. Os insights, essas percepções ou ideias criativas, podem surgir ao mesmo tempo em várias partes do mundo, pois diferentes pessoas podem tê-las captado.

Para essa linha de pensamento, eu, você e todo o mundo traz um conjunto de disposições ao nascer: um caráter; que é aperfeiçoado, por meio das próprias experiências, ao longo da vida. Ao acrescentar compreensão e experiência ao caráter, eu adiciono algo também ao caráter universal, ao inconsciente coletivo. Como se eu fosse um rio afluente de outros rios, que se vão acumulando até um grande oceano divino. Posso, então, afirmar que viver, assim, tem por propósito aperfeiçoar aquilo que não é espaço-temporal: o caráter.

E como isso ocorreria mesmo? Para viver as experiências, utilizo o corpo de matéria. Em algum momento, por opção, reduzo um pouco essas atividades e me aproximo mais de mim mesmo para perceber como estou realizando as minhas experiências físicas. Nas minhas experiências, muitas vezes, tenho a sensação de estar fora de mim mesmo. Posso perceber-me por prazer ou por dor, no corpo feito de comida. Tenho também muitas oportunidades de apego e de desapego. Quando eu morrer, o primeiro corpo do qual me desapegarei é este: o de comida. No relaxamento, que se faz em Yoga, também ocorre o mesmo, é um modo de se localizar nos demais corpos, além do feito de comida.

Na meditação, presto atenção ao que estou fazendo e em mim mesmo; às emoções e ao significado das emoções. Prossigo desapegando-me também e passo para o corpo supramental, dos contextos coletivos. Mas ainda é o "eu" individual que tem essas experiências. Até que chego ao campo divino. Nesse último estágio, desapego-me da mente intelectual e alcanço um estado de transcendência, ou de "samadhi", como dizem os yogues, onde se encontra a "graça divina" ("ananda") e a liberação dos vários corpos. Esse estado de liberação é também chamado de "moksha" pelos yogues e é o seu objetivo principal.

Meditar, portanto, é desapegar-se, tanto do corpo de experiência (de comida), quanto dos demais corpos, que acumulam os acréscimos dos resultados da experiência. Vai-se passando de um corpo para o outro até desaguar-se no espiritual, no qual a individualidade não faz mais sentido. Acrescentar esse tipo de vivência permite incorporar a consciência; primeiro a consciência individual de emoções e seus significados, depois a coletiva de contextos, até a grande consciência universal, quando se passa para o corpo espiritual.

Por meio da meditação, amplio incrivelmente a minha vivência, pois quando estou presente, assim de modo absoluto, o tempo não tem dimensão; tenho acesso a tudo aquilo que toda experiência cria em algum momento (tanto faz considerar o passado ou o futuro, pois fica tudo no presente). Assim, tudo o que eu perceber é acrescentado simultaneamente ao caráter individual e ao coletivo.

Em meditação, o que faço é colocar-me num estado de não ação, de receptividade e, desse modo, tenho acesso ao que está além da dimensão espaço-temporal. Entrego-me, assim, à prática de meditação para deixar-me perceber o campo supramental e o espiritual. Abro, desse modo seguro e sem intermediações, as portas e janelas da sensibilidade para um oceano à minha disposição, além do espaço-tempo.

Thadeu Martins 

      

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