"Samadhi" e múltiplas vivências na prática

Este tema é tão importante, que tenho de voltar a ele, para ampliar a compreensão. O caminho do "samadhi" leva a dois tipos de meditação: "samprajnata" e "asamprajnata". No primeiro tipo, eu concentro-me em algo, com o qual me identifico, com o propósito de desapegar-me, em seguida, dessa identificação. Observador e objeto fundem-se, passam a ser uma coisa só. No segundo tipo, não há identificação. Eu percebo a minha individualidade divina e a partir daí, abro mão dessa individualidade. Ao perceber-se divino, o individual deixa de fazer sentido.

Claro que, socialmente, mesmo na cultura hinduísta, há uma ênfase da permanência do indivíduo, até em estado divino. Minha compreensão disso vem pelo fato de a mente fazer a intermediação em todas as interações, desse modo, a minha mente dá o sentido da minha individualidade, assim como atua a sua mente e a de todo o mundo.

Porém, quando pratico o estágio de meditação, no qual abro mão do corpo físico, do emocional, do mental, do supramental e até do corpo espiritual, vou deixando de ter a sensação de individualidade. Eu não me percebo mais, passo a ser "a percepção". Claro, que ao retornar dessa experiência, o eu individual reassume, mas eu volto muito melhor. Pelo fato de ter-me "desidentificado" desses corpos, desapego-me de alguns condicionamentos que me acompanhavam há tempos (alguns, desde o meu nascimento).

Esse estado de desapego permanece por algum tempo, do qual não tenho noção precisa, até porque fico fora do espaço-tempo. Eu não tenho sensação corpórea, mas mantenho a consciência de realidade e consigo compreender essa experiência extracorpórea. Ao mesmo tempo, mantenho a consciência do corpo (deitado ou em postura de meditação) e do ambiente ao redor. O exercício de meditação não é um exercício de alheamento, pelo contrário, é de aperfeiçoamento do sentido de presença, de consciência.

Aqui vou compartilhar um pouco mais da minha experiência pessoal em meditação. Habitualmente a pratico na posição sentada ("padmásana") ou na deitada ("shavásana"). Na posição sentada, trabalho mais conceitos e pensamentos recorrentes; uso a meditação, na posição deitada, para uma entrega absoluta. Ou seja, faço o "samprajnata-samadhi" quando estou sentado e o "asamprajnata-samadhi" quando estou deitado.

Deitado, relaxo profundamente, com o objetivo de me desligar do corpo, depois vou prestando atenção nos sons, na respiração e na região entre os olhos. Vou assim cultivando a não ação. O propósito de meditar já é o suficiente como direcionador. Quando se começa a elaborar a meditação, passa-se ao campo dos significados e a noção de indivíduo é reforçada. O que faço é anular toda a iniciativa de ordem mental que eu possa ter. Até que desaparece qualquer tipo de pensamento, embora eu continue percebendo tudo. Há sensação, há visão, mas não há mais elaboração.

Então começam a se manifestar outros estados, mais profundos. Em determinado momento, começo a me ver deitado. Depois tenho a sensação de queda livre. E a partir daí, tenho vivências em camadas profundas da consciência. É como se eu saísse do espaço-tempo, tendo também acesso a registros, a camadas profundas no tempo. Posso "ir" ao passado e me sentir num determinado lugar, mantendo-me absolutamente consciente. Isso nada tem a ver com sonho. Não há interação, mas sim, e apenas, a sensação de presença. Mantenho a consciência de realidade. Há também o distanciamento: estou lá (onde quer que seja esse "lá") compreendendo que lá estou. Também mantenho a consciência de que estou deitado e respirando. Ou seja, mantenho-me consciente. A sensação, que tenho ao "voltar", é de uma renovação física agradável. A sensação de vigor e saúde é bem marcante.

Essa potencialidade de consciência, que eu, você e todo o mundo tem, poderia também ser aplicada de modo social e não só individualmente. Além do propósito de "samadhi", posso dirigir a prática para tentar melhorar a vida de outra pessoa ou de um grupo de pessoas. Mas essa já seria uma outra conversa, que não teria nada a ver com as orientações do sábio Patânjali.

Há, no entanto, a possibilidade de aplicação dessa potencialidade da consciência em benefício da humanidade. Mas há também um limite muito claro dessa influência, no mundo material. Embora o sutil possa ser tão poderoso quanto o denso, dependendo do que se entender por poder. Em algumas situações, o sutil até se torna mais poderoso. Por exemplo, uma ofensa pode causar muito mais dano, com maior duração, a uma pessoa do que uma agressão física. Mas a potencialidade a que me refiro aqui, ela é direcionadora, condicionadora.

Na minha compreensão, a consciência opera mudanças de ordem divina, a qual é sempre e apenas condicionadora e sutil. Posso meditar com o propósito de tentar melhorar a humanidade em um determinado sentido, mas isso será sempre um condicionamento de ordem sutil, porque as condições objetivas de realidade vão fazer sua diferença. Pode haver uma junção do sutil com o material; dizem que sim. Não há consenso em relação a isso. De qualquer forma, é preciso eu ter o cuidado de declarar ou mentalizar que o melhor e o mais adequado aconteça, pois há tantos fatores que escapam ao meu domínio e à minha compreensão (um pouco de humildade não faz mal a ninguém). Nem sempre o que compreendo como o mais correto é o que deve, de fato, acontecer para que o melhor realize-se.

Percebo que passei a ter uma visão relativizada do que é a vida, ao habituar-me às vivências múltiplas, em que sou eu socialmente e também sou o meu próprio observador. Nessa condição, até mesmo uma catástrofe pode perder um pouco da sua "tragicidade", embora eu a perceba como tragédia. Também passo a ver a morte como uma experiência desta vida. Sinto a dor, mas não a dramatizo, nem a estendo, mais do que ela de fato é e me dói (por essas e outras, minha esposa diz, amorosamente, que eu sou um Jonny Rústico).

Procuro manter clareza também quanto à hierarquia da minha atenção, como enfatiza o Dr. Jayadeva Yogendra. Primeiro devo cuidar de mim mesmo, depois da minha família, dos meus amigos, dos vizinhos, dos colegas de trabalho (e agora dos leitores), do pessoal do bairro e assim ir ampliando até cuidar da humanidade. Essa é a hierarquia da vida material, deste mundo, que vai do corpo de comida, de emoções, de significados e assim por diante. Se eu tiver atenção nessa hierarquia e cultivar a minha dupla vivência – o "eu" que nem nome tem e o "eu" que muitos nomes recebe – posso continuar a contribuir de uma forma sutil para acrescentar solidariedade, enquanto vou vivendo normalmente, como quase todo o mundo.

Thadeu Martins

      

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