O bem, o mal e o meio

Agora, quero falar um pouco sobre o "Pequeno tratado das grandes virtudes", do filósofo francês André Comte-Sponville. Esse livro tem tudo a ver com os dez ensinamentos do sábio indiano Patânjali, que constituem o código de ética de Yoga. Também é comparável aos textos do mestre atual Swami Dayananda Saraswati, expoente do Vedanta, que é uma espécie de suprassumo da filosofia hinduísta.

No livro, Sponville destaca 18 virtudes. Começa com a polidez e termina com o amor. É interessante comparar essas virtudes com a descrição de Dayananda de como devemos tratar sentimentos insuportáveis, como a raiva, por exemplo. Lembra o mestre que raiva todo mundo tem, é para sentir mesmo; o que não vale é martirizar os outros por causa da raiva; não faz sentido eu martirizar quem amo porque estou raivoso. A raiva é um sentimento verdadeiro, legítimo, que tenho por uma motivação óbvia, afinal, ninguém fica raivoso à toa. Não adianta nada negar a raiva, porque aí ela vai-se concentrar, tornar-se cada vez mais poderosa e quando vier à tona, ninguém a suportará, principalmente as pessoas mais próximas. Por que vitimar uma pessoa próxima simplesmente porque se está com raiva? Melhor sinalizar, avisar que se está com raiva, para manter algum distanciamento e evitar machucar os mais próximos.

A virtude, como tratada por Sponville, é uma potência, uma excelência. No caso de um objeto, uma faca, por exemplo, não há moral. Ela pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Em um código de ética, posso aceitar o uso desse objeto para o bem e abominar o uso para o mal. Mas, rigorosamente, a virtude na essência não é boa nem ruim; a faca que corta bem é excelente e pronto. Já no que se refere ao ser humano, não faz sentido falar-se em excelência se esta não for usada para o bem. A maldade de alguém só poderia ser considerada como virtude se, por exemplo, determinado grupo puder ser protegido pela maldade dessa pessoa em relação a outro grupo muito perverso. Há circunstâncias em que excelências, habilidades extraordinárias, desta ou daquela pessoa, podem levar a um inferno e que, em outras circunstâncias, podem trazer o céu.

Aquilo que é potente em mim pode ser desastroso, se eu estiver no lugar errado, ou tornar-se extraordinário, se eu estiver no lugar adequado. Porém, isso não tem muito a ver com o conceito de virtude da coisa em si, mas das pessoas, que serão sempre avaliadas em termos relativos. Enquanto a virtude do objeto é invariante, a virtude do ser humano é relativa. Ele é virtuoso se o grupo com o qual convive reconhecer essa virtude e essa será reconhecida se for para o bem do grupo. O outro é que determina a minha virtude. E aí é que entra a potência do código de ética que cada um adota na sua vida.

Eu, você e todo o mundo tem a oportunidade de aperfeiçoar o seu próprio código de ética, de incorporar as virtudes que perceber como consistentes com as anteriores, que promovem o bem. Esse é o critério. Mas que bem é esse? Não é um bem individual, é um bem que só tem sentido coletivamente.

O ser humano é virtuoso? Acho que depende um pouco da "sombra do tempo", um conceito da psicologia evolucionista, darwiniana. Segundo esse princípio, as circunstâncias são determinantes. Imagino duas situações: uma pessoa sozinha no ponto de ônibus, de madrugada, e essa mesma pessoa no ponto de ônibus, acompanhada de pessoas conhecidas ou habitualmente encontradas, que sempre estão lá pela manhã. Nas duas situações, surge uma pessoa desconhecida. Em qual das situações haveria maior probabilidade de demonstrações de civilidade, gentileza e consideração? Conforme a "sombra do tempo", ninguém teria expectativa positiva na primeira situação, pois não há perspectiva de acontecer um segundo encontro, de o comportamento vier a ser reavaliado por aquela pessoa que se aproxima ou por outras que eu conhecer e lhes reputar valor. Já na situação do ponto de ônibus em que há conhecidos, a autocrítica é reforçada pela crítica do todo, pois a possibilidade de encontrar, em outras vezes, aquelas pessoas é esperada. Isso vai condicionar o meu comportamento, o seu e o de todo o mundo que estiver envolvido. Ou seja, eu tenho virtudes, mas as circunstâncias podem neutralizá-las. Virtude, em termos humanos, não é algo invariante, é algo que depende muito das circunstâncias. Não há ser humano imune a elas.

Parece que o Patânjali estava atento a essa dinâmica dos seres humanos, em que as circunstâncias vão alterar o comportamento. Ele registrou um código simplificado de comportamento social, para cultivar a virtude e administrar o comportamento nas circunstâncias. Ficou para mim, você e todo o mundo criar o seu próprio código de ética ou adotar um. Eu tento compreender este desafio assim: escolher as virtudes, à medida que as reconhecer, ter por princípio a moralidade, que já apreendi, e como bússola da moralidade o bem do outro, com o qual eu convivo, e assim administrar o meu cotidiano, e formar meus hábitos virtuosos. Já entendi que não basta ter a compreensão do que é a virtude. Tenho que, ao mesmo tempo, saber lidar com as circunstâncias. Virtude só terá sentido se houver administração das circunstâncias, caso contrário, a virtude será solapada pelas circunstâncias.

O sábio Patânjali sugeriu uma base (válida há muitos séculos), que são os cinco controles ("yamas"): não ofender o outro ou a vida; não mentir, não roubar, não desperdiçar o seu ser e não cobiçar ou invejar. Mas isso é apenas para o controle básico. Alem desses controles, Patânjali enfatiza a importância de se estimularem alguns hábitos virtuosos, que também precisam ser administrados. São também cinco esses estímulos ("niyamas"): à pureza (de pensamentos, propósitos, sentimentos e higiene), ao contentamento (com o que já possuo e com o que já sou), à persistência (perseverar na ética, na pureza, no contentamento), ao estudo (autoconhecimento, tradições, realidade em que se está) e à aceitação da vida como ela é ("Ishvara" pranidhana, render-se à vontade divina, entregar-se ao princípio divino da vida que está em mim).

O contentamento levanta uma antiga discussão filosófica. Para os gregos, a felicidade era uma tristeza, porque era a realização do desejo de algo que não se tinha e que, portanto, ao se obter, já não se desejaria, e assim se passaria a desejar outra coisa que ainda não se teria. André Comte-Sponville (em "A felicidade desesperadamente") esclarece: felicidade é saborear o que você deseja e tem, é contentar-se (ficar contente) já com aquilo que você é. Felicidade não é o cultivo da eterna falta, porque assim estarei sempre insatisfeito.

Compreendi que eu já tenho a condição de felicidade, porque eu já sou, estou vivo e desejo aquilo que tenho. Cultivar, dia a dia, o meu contentamento e os hábitos que eu considerar formadores das minhas virtudes; administrar as circunstâncias que ameaçam as minhas escolhas de virtudes; entregar-me à vontade divina; esse está sendo o caminho que eu escolhi para mim. Dizendo, assim, parece tão fácil.

Thadeu Martins

      

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