O bem, o mal e o meio das virtudes

Como já comentei, o código de comportamento do sábio Patânjali lembra ensinamentos ("yamas") que orientam o que controlar: evitar ofender (e qualquer violência à vida), evitar a mentira, evitar o roubo, evitar a dispersão do Ser (em exageros de qualquer ordem) e evitar a inveja ou a cobiça. Esses são controles simples, mas dentro de uma hierarquia. Nesse código, em primeiro lugar, vem o respeito à vida, não ofender ninguém. Isso vem até antes da verdade, que, na filosofia hinduísta, não é tão importante quanto a vida. Depois do respeito à verdade, então, viria o respeito à propriedade alheia e daí por diante.

Além dos comportamentos de controle ("yamas"), há os comportamentos de caráter estimulador, também indicados por Patânjali, os "niyamas": o cultivo da pureza, do contentamento, da perseverança, do estudo e do aceitar a vida (render-se à vontade divina). Porém estes não são muito cobrados socialmente de ninguém. Chamo a atenção, no entanto, que eles poderiam ter grande impacto social, pois se eu, você e todo o mundo ficar contente, não se iriam mais vender tantos antidepressivos, por exemplo. Também, se eu desejar e amar o que já tenho ou o que estiver ao meu alcance, não me irei predispor a consumir de forma desenfreada. Então, seria muito recomendável cultivar os comportamentos estimulantes ("niyamas"), embora a eles faltem incentivos sociais tão evidentes, como os que são exercidos pela cobrança controladora ("yamas") ou pela condenação social aos comportamentos nocivos.

O caminho da virtude, em Yoga, é a formação do hábito, que se cultiva com a pureza, o contentamento, a perseverança, o estudo e o render-se à vontade divina, com a consciência de que o saber é limitado. Venho fazendo disso um hábito, que se dá com a prática, com a repetição, e que vai ficando natural. Outra forma, ostensiva, de estimular a virtude é dar visibilidade, pois todo o mundo cuida mais daquilo que é visível. É muito mais fácil, para mim e para a maioria das pessoas, ser educado, polido, ter mais consideração com os outros, quando se está num ambiente em que há transparência e visibilidade, do que em ambientes em que se está isolado e não sendo observado.

Volto agora a referir-me à leitura do André Comte-Sponville, que tem acrescentado bastante à minha prática de Yoga. Ele chamou a minha atenção para o fato de ninguém nascer virtuoso (exceto, quem sabe, o Mozart?), e que eu venho sendo polido desde pequeno, apreendendo o que é aceito socialmente. Esse polir é que forma o terreno das virtudes. Embora a polidez em si não seja uma virtude, a insistência na polidez cria uma disciplina, que propicia as virtudes. Aos poucos, os controles e as circunstâncias, que me educam, vão constituindo uma ética em mim, como indivíduo social. Talvez, se não houvesse esse processo de criação com educação, com polidez, a virtude não teria muita chance de manifestar-se.

Ainda observando a polidez, ela remete-me ao tema da conversa anterior, inspirada pelo "Pequeno tratado das grandes virtudes", do mesmo Sponville. Como da polidez surge a virtude? Será que é preciso haver um pouco de virtude dentro de mim, de você e cada um, para que ela possa manifestar-se? Parece que não se tem a resposta, mas constato que o hábito das virtudes ou o dos vícios cria uma segunda natureza pessoal, a qual, portanto, vai depender dos comportamentos que eu e cada um permitir surgir ou prosseguir a cultivar.

Thadeu Martins

      

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