Guarani Sutra

Outro dia, ganhei de um amigo (o premiado ilustrador Fernando Lopes) um livro fascinante e surpreendente: "Tupã Tenondé – a criação do Universo da Terra e do homem segundo a tradição oral guarani", de Kaka Werá Jecupé. Descobri nesse livro que os guaranis têm uma concepção de mundo, de origem da vida, de alma e de divindade muito semelhante à concepção hinduísta.

Incrível como o conceito do povo guarani é praticamente igual à filosofia hinduísta em relação à dualidade original – o imanifestado e aquilo que se manifesta, ("purusha" e "prakiti" para os hinduístas), ambos de caráter divino. O processo de desenvolvimento espiritual para o povo guarani também é visto como uma ascensão interior, em que um beija-flor, representando a alma, vai subindo até pegar o néctar de uma flor que se abre em cima da cabeça humana. Essa imagem é muito semelhante à representação análoga hinduísta. Fiquei também encantado com a poesia com que eles descrevem isso tudo.

Todo o mundo sabe que o conhecimento hinduísta, como vem de uma época em que não havia escrita, era transmitido de forma oral, poética, cantada. O maior poema escrito da história da humanidade, o "Mahabharata" (a história épica da grande Índia) tem mais de cem mil versos e, no entanto, manteve-se, sendo transmitido de geração a geração, com ou sem a escrita. Esse livro sobre os guaranis também é todo em forma poética, com muitas imagens, porém só foi escrito no século XX.

Outro ponto que me chamou atenção é que os guaranis relacionam a linguagem à alma. Esse é um conceito que se aproxima da psicologia moderna, em que somos chamados de falantes mais que de indivíduos. Segundo essa abordagem, é o falar que vai me caracterizar como ser. Por falar em espiritualidade, lembro-me, outra vez, do filósofo André Comte-Sponville, que muito inspira as minhas conversas. Ele propõe que a memória é a origem do espírito, porque é aquilo que me antecede. A memória seria o espírito em si ou o terreno espiritual. Poder-se-ia então dizer que o presente é o "pré" que antecede o ente, enquanto a vivência do presente está sempre sendo registrada na memória. Falar-se em vidas passadas, seria, de certo modo, recuperar experiências na memória – desde a memória cerebral até outras mais difíceis de se explicar como são recuperadas.

Fico feliz de perceber uma certa convergência da compreensão dos guaranis (linguagem e alma) com a filosofia (memória e espírito). Ao mesmo tempo, estou falando do Oriente (Índia), de uma América do Sul muito anterior à chegada dos europeus e da Europa em tempos modernos. Ora, se há uma convergência vinda de lugares e culturas tão diferentes é porque deve haver também um significado bastante merecedor de atenção. Essas similaridades podem ser consideradas como algo, no mínimo, estimulante para consideração e estudo.

E se o exercício da linguagem é o exercício da alma, vou então expressar-me bastante (eu que já "falo pelos cotovelos") para ter a alma bem vibrante! A expressão é uma necessidade para mim, você e todo o mundo. Há pessoas (eu mesmo, por exemplo) que só compreendem as coisas depois que elas mesmas repetem ou dizem com as suas palavras ou com as emprestadas de outros. Parece que, ao falar, ao comunicar, é necessário empregar tanta atenção e energia, que o que é dito fica gravado na pessoa que se expressou.

E aqui, vale lembrar o bem que se faz ao falar com bom humor, e de se criarem situações positivas, com as próprias palavras e atitudes, como escreveu um meu aluno de Yoga, Vicente Luís Borges, aos seus 8 anos de idade, em seu primeiro livro, "Cem palavras": "todo dia você deve ficar um pouco feliz".

Thadeu Martins

      

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