O essencial e o carrossel

Um aspecto fundamental em Yoga é o de compreender as dualidades: manifestado e não manifestado, mutável e imutável, passageiro e permanente; que são contrastes preciosos nas linhas de pensamento do hinduísmo. Quero, então, relacionar essa compreensão com o estímulo a desenvolver o hábito de ficar atento, para estar presente e assim viver plenamente.

Mas, como é que se presta atenção para estar presente? Observo, para responder, que o hinduísmo oferece um referencial, um pano de fundo para dar sentido, por contraposição, ao valor e significado de cada situação. Trata-se de uma relativização dos fatos. Nessa linha de pensamento, diz-se que na origem de tudo está uma relação de tensão, dual: um princípio permanente, eterno e imutável, o qual surge e existe simultaneamente com outro, que se manifesta, que é mutável e que cria as circunstâncias.

Nessa visão, há o ser que está presente o tempo todo e representa, individualmente, a permanência, esse algo que sempre é, que não se altera. No entanto, como o eu social não é esse ser permanente, em vez disso, ele é como diz José Saramago (no livro "Todos os nomes"): "tu conheces os nomes que te deram, mas não conheces o nome que tens". Os nomes que me dão são úteis socialmente e variam de acordo com as circunstâncias; são minhas personagens diárias (filho, irmão, colega). Enquanto o nome que tenho, que ninguém me deu (ou me chama por ele), esse é o que está presente em todas as circunstâncias; é o ator que está lá no íntimo de todas as minhas personagens.

Este é o modelo de compreensão fundamental em Yoga: sou ao mesmo tempo dois, esse ser que sempre é e o ser que se está manifestando, se alterando, se relacionando socialmente. No decorrer da vida, muda-se inúmeras vezes e cada etapa de mudança pode ser muito importante, mas só tem valor em relação ao indivíduo, que está presente na vivência da mudança que o alcança e que assim a percebe.

Em Yoga, "purusha" é o imutável, o que não se manifesta, e "prakriti" é o que se manifesta e tem dinâmica. "Purusha" em mim, em você e em cada indivíduo é também denominado como "atma", palavra de significado muito semelhante ao de alma. Enquanto "prakriti" tem, como primeira manifestação, a mente, a que lida com as três qualidades da matéria: a densidade, a sutileza e a dinâmica da transformação. Elas três estão sempre numa dinâmica de mudança, em que o denso transforma-se e se torna sutil, que então se torna denso e esses ciclos nunca têm fim, enquanto a mente empenha-se (ou enlouquece) no controle e compreensão das eternas mudanças.

Nesse modelo de compreensão, há então um "eu" referencial permanente ("purusha") e outro "eu", em movimento relativo ("prakriti") ao "eu" referencial. Um presencia enquanto o outro vivencia todas as transformações, que são propiciadas pelas qualidades dinâmicas da matéria manifestada. Aquele, que sem mudar observa e percebe a mudança, é o referencial fixo, enquanto este outro movimenta-se em relação ao referencial. Se eu me envolver demais na mudança, acabarei não percebendo o que mudou.

Observar as transformações exige distanciamento. É esse distanciamento o principal desafio do praticante de Yoga. Eu me envolvo intensamente com a vida, com o que estou fazendo, mas devo fazê-lo, com um distanciamento que me possibilite perceber o que faço e as transformações. Assim, posso perceber que tudo muda e que eu mudo de personagens, conforme o papel que eu estiver fazendo.

Nada então seria permanente, a não ser o eu essencial, "purusha", referencial imutável, esse ser que há em mim, em você e em todo o mundo e que continua a existir, independentemente das mudanças. A consciência dessa condição essencial dá uma segurança extraordinária: até a morte passa a ser um evento inevitável de mudança, mais uma transformação a ser aceita e tratada com atenção.

Percebo que o exercício de distanciamento não diminui em nada o valor de sentimentos como o amor, a piedade, a compaixão ou mesmo o desprezo adequado a determinada circunstância. No entanto, eles são todos sentimentos da vida e, portanto, circunstanciais. Esse talvez seja o meu maior desafio: ter clareza de que tudo a que eu dedicar-me tem natureza passageira. Essa compreensão muda a qualidade das minhas relações com tudo! Mas em Yoga, não basta ter a compreensão, eu preciso exercitar essa compreensão no meu dia a dia, para que ela permaneça em mim.

"Prakriti" é a realidade perceptível, está em permanente mudança, ela oferece as circunstâncias e os desafios de natureza educacional. Na medida em que a minha experiência da realidade traz resultado, este é percebido por mim, e a percepção do resultado produz uma memória, que condiciona a minha compreensão dos resultados seguintes. Esse também é um ciclo sem fim. Cada vez que eu agir ou reagir, surgirá um resultado; compreendido ou não, esse resultado é percebido, vira então memória, que sempre poderá manifestar-se.

Vivo, portanto, em ciclos sucessivos de experiência prática, que crescem em complexidade, e na qual estou sempre envolvido. Constato que a vida é uma verdadeira feira de exposições, que está o tempo todo chamando a atenção, muitas vezes, para aquilo que é menos importante do que a compreensão essencial do que eu sou.

Eu, você e todo o mundo tem natureza dual: a permanência, a eternidade em cada um e, ao mesmo tempo, os processos passageiros de mudança. Estes acrescentam ou subtraem, mas estão sempre associados a prazer ou sofrimento, uma vez que os resultados são tratados de forma emocional. Corro, assim, o risco de dar atenção exagerada às emoções. Claro que é necessário dar atenção às emoções, às circunstâncias, aos outros, mas se eu der atenção demais ao transitório, viverei na transitoriedade, sem realizar nunca a permanência que eu também sou. Seria então uma vida apenas parcialmente realizada.

As escolas da filosofia hinduísta chamam a minha atenção: a existência é um processo de compreensão, de realização permanente, em que a transformação do sutil e do denso dá a dinâmica da vida, e constitui um processo de vida material, que por si só é importante. Mas o almejado seria a realização disso com o distanciamento, em que, simultaneamente, se é aquele que observa e aquele que participa da realidade em observação, embora o simples viver por viver, mesmo que inconscientemente, já não seja pouco.

A vida social, desse ponto de vista, é uma das manifestações passageiras desta experiência de vida que eu, você e todo o mundo está tendo. Apesar de a minha vida social ser muito importante para mim, porque eu não conseguiria viver isoladamente, ela é de valor relativo. Se ela for solicitante demais, eu não conseguirei desenvolver a minha essência. No meio desse carrossel de atenções, em que vivo diariamente, vou dando um jeito de desenvolver, retirar o envolvimento, para que se revele o "eu" mais próximo do permanente, do imutável. Com os exercícios de Yoga e a prática de meditação, vou cultivando a minha atenção para perceber o valor relativo dos fatos, dos relacionamentos, e dos muitos "eus", que vou desempenhando.

No "Yoga Sutra", Patânjali focaliza a dualidade: a impermanência e a permanência; e que tudo é mutável, que se está sempre lidando com coisas passageiras, que tudo é muito importante, mas nada é tão prático quanto a compreensão de que tudo passa.

Thadeu Martins

      

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