Ser, escolher e escolher ser

No cotidiano, tenho que priorizar entre o que acho mais importante ou o que me solicita mais. Isso é um pouco estressante, se houver alguma dúvida envolvida na decisão, por que quase sempre a escolha de uma opção determina a rejeição de outra. Em Yoga há uma sugestão de considerar, nas decisões, um certo jogo de contraponto das dualidades – manifestado ou não manifestado, permanente ou impermanente. Essa ponderação ajuda a decidir o que é mais importante nas questões mais profundas, que contrapõem, por exemplo, o ter ou o ser.

Lembro, então, que o manifestado, "prakriti", a matéria, é movimento, agitação, portanto é sempre mutável, impermanente; enquanto o não manifestado, "purusha", ao contrário, é imutável e permanente. Ao compreender que tudo, que é perceptível, é mutável e passageiro, posso reconsiderar a minha percepção de prioridades. Se estou diante de coisas e fatos que são sempre passageiros, se dou muita atenção ao que é passageiro, posso então compensar e passar a dar um pouco mais de atenção àquilo que não é tão passageiro assim.

Posso ir além de desenvolver habilidade, conhecimento e competência para lidar com o mundo passageiro, e usar minha capacidade para lidar também com o que não é passageiro. No entanto, para as pessoas que tiverem muita dificuldade de elaborar isso tudo, mas que percebem sua associação natural com o que é permanente, ficaria talvez mais fácil utilizar o dito popular: "pega na mão de Deus e vai".

Quero então voltar ao fio da conversa. Nas minhas prioridades, como colocar essa compreensão de que existe algo além do passageiro em minhas tomadas de decisão? Essa é uma questão desafiadora. Tomo tantas decisões na minha vida e essas decisões seriam pautadas apenas pelo aproveitamento daquilo que é passageiro? O que fazer para considerar aquilo que não é passageiro? Afinal, dá para fazer essa consideração? A questão não é nem fazer ou deixar de fazer, é mais uma questão de atitude, de compreensão na hora de decidir. Agir depois que se tomou a decisão é mais fácil; mais difícil é tomar a decisão acertadamente!

Quais são os critérios que considero para tomar uma decisão? O que me leva a ponderar uma opção e outras na hora de decidir? O básico é que se têm critérios de emoção e de razão. No entanto, as tomadas de decisões primordiais são quase totalmente emocionais. O meu cérebro ancestral é o emocional. O racional veio depois, e desenvolve-se depois que nasci. Portanto, não é natural eu incluir o critério racional nas minhas decisões, embora eu tente. Por isso, é um grande desafio, para o meu comportamento, destacar a importância do que é permanente em relação ao que é circunstancial em minhas decisões de vida.

Os sábios alertam que o pano de fundo dos sofrimentos é justamente a ignorância ou o desprezo do princípio da impermanência de tudo que se manifesta. Essa dificuldade vai-se reforçando, pois se eu apego-me ao que é passageiro, cultivo inconscientemente o medo ou a esperança, não me permito perceber a essência da vida: o princípio eterno que está em mim e em cada um. Deixo, assim, de ver a unidade que há em mim, em você e em todo o mundo. Passo, portanto, a ver uma separação, onde não há, entre natureza física e natureza essencial (a esta prefiro referir-me de um modo mais poético: natureza divina).

Essa minha preferência deve ter, provavelmente, a mesma origem das crenças, do temor e até mesmo da adoração; talvez tenha, como pano de fundo, os sustos diante da vida e da natureza, diante da pressão de sobreviver. Olho para o passado e acho que foi natural para os meus ancestrais verem-se distintos e em oposição aos raios e trovões vindos do céu, ou às explosões vulcânicas a que tenham sobrevivido. Por inúmeras tentativas e erros, os meus ancestrais (e os seus também) foram desenvolvendo comportamentos de aceitação e acomodação às manifestações da natureza, ao mesmo tempo em que lidavam com a sensação de controles precários dessa natureza. Viviam em confusão, eram distintos e, ao mesmo tempo, faziam parte da natureza. Careciam de um sentido de ordem, para acomodarem-se e prosseguirem na vida. Foram representando suas percepções e assim criaram culturas alegóricas, para compartilhar socialmente os símbolos emocionais, que as alegorias representavam (como dizia Joseph Campbell). Meus ancestrais, com os recursos que tinham, produziram os modelos explicativos da vida e das relações com a natureza e seus mistérios. Como se faz até hoje.

As relações que são incorporadas por esses modelos enfatizam medo, respeito, conformação, esperança, pedido ou negociação de clemência ou ajuda, de modo análogo às relações pessoais, que se estabelecem na vida social. O ser humano sempre reproduz o que lhe é costumeiro. Portanto, é razoável que as pessoas façam seus ícones (as alegorias que representam os símbolos) com figuras de fácil reconhecimento na natureza ou na imaginação e as tratem como tratam seres das suas relações, com atributos de divindade, poder, autoridade, generosidade, justiça, etc. Isso é comum na maioria das civilizações antigas e atuais, inclusive na cultura hinduísta, na qual, curiosamente, surgem notáveis exceções, que são as escolas de pensamento indiano, contemporâneas às escolas da filosofia grega, como o Yoga e o Samkhya, entre outras.

No exemplo de contraste, da filosofia Samkhya, que dá suporte estrutural à de Yoga, não há nenhuma referência a alegorias de divindade, e em Yoga destaca-se apenas uma singular referência a uma consciência essencial na expressão "Ishivara". Essa palavra foi traduzida no Ocidente como Deus, mas na compreensão original, no contexto indiano, é simplesmente "o princípio da vida". Quando, em Yoga, se fala ""Ishvara" pranidhana", o sentido é de "render-se ao princípio da vida". O render-se à vida tem como premissa que os viventes são uma realidade manifestada e mutável, no mundo e na sociedade e, ao mesmo tempo, são uma realidade imutável ou que não se manifesta, que é um referencial. Nessa visão, eu sou simultaneamente a materialização de um código de proteínas do DNA e uma realidade essencial que é a vida em si. Outro exemplo de dupla característica essencial está presente na luz, a qual se constitui também de duas naturezas simultâneas, a material e a ondulatória.

Já comentei que, nesse modelo indiano, a matéria manifestada tem três qualidades simultâneas: "tamas", "sattva" e "rajas"; e uma intermediação entre elas da consciência, da mente. É a mente que faz a intermediação e que permite a compreensão da matéria manifestada. Não por acaso, é também a mente que faz todo o caminho civilizatório, de realização social. Talvez não seja por coincidência, também, que os hinduístas tenham dado o nome "Buddhi" (o mesmo Hermes grego) para a intermediação mental entre o manifestado e o não manifestado, "prakriti" e "purusha".

Thadeu Martins

 

      

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