Manual da mente para iniciantes

Quando surgiu o Yoga Sutra, de Patânjali, já existiam, de forma dispersa e não sistematizada, os conceitos de Yoga, pois tratava-se de uma prática milenar. Era uma tradição oral, transmitida por gurus para os discípulos. O sábio Patânjali, por sua vez, tem um surgimento lendário, que pode ter acontecido entre o quinto século anterior e o quinto século posterior a Cristo. Há essa indeterminação, porque havia o hábito de muitos sábios atribuírem seus textos a alguém muito admirado, em vez de assumirem a autoria das obras. Isso era comum, tanto na Índia quanto na China. Então, na história da Índia, há vários tratados em temas diversos (Yoga, Gramática, etc.), cujos autores têm o nome Patânjali. Não se sabe bem quem ele é, no entanto, pode-se dizer que foi um precursor dos psicólogos atuais, na medida em que modelava o comportamento da mente humana, com tanta profundidade, já naquele tempo.

O Yoga Sutra é uma espécie de manual da mente (expressão que vi em um livro do Pedro Kupfer), para compreendê-la e colocá-la a nosso favor, de modo que se possam desenvolver hábitos que permitam desprendimento em relação à realidade, ao mesmo tempo em que se vive com intensidade. A minha interpretação da mensagem do Yoga Sutra é: viva a sua vida autêntica, seja íntegro e exerça os seus papéis com integridade. Essa integridade pressupõe ir além dos meus papéis; cultivar também o ator que existe dentro de cada uma das minhas personagens, de modo que eu (que sou o ator) viva a minha vida plenamente, com a consciência de que ela é passageira. O propósito é cultivar a consciência em tudo o que se faz, de modo que quando este intervalo de vida, este lapso de tempo de experiência material concluir-se, a consciência tenha-se realizado plenamente e possa prosseguir em dimensões além do espaço-tempo, que constitui esta realidade social e material.

Patânjali fala basicamente dos métodos de meditação e de respiração, porque o controle da respiração é propiciador do controle da mente, e este é fundamental na meditação, que aumenta a capacidade de estar presente. Nos exercícios de Yoga, portanto, pratica-se a atenção no ser que eu, você e todo o mundo é em si mesmo, além do ser que está voltado o tempo todo para o mundo exterior, para o social. Os exercícios de Yoga possibilitam olhar para si mesmo, perceber o próprio corpo, compreender os limites do corpo e respeitá-los; desenvolver a capacidade de concentração, para ficar bem, relaxado e tranquilo. O resultado prático é ficar saudável e aproveitar plenamente a experiência imperdível que é viver com liberdade.

O Yoga Sutra de Patânjali, como eu disse, é voltado principalmente para a compreensão do processo mental. Ele destaca que se é envolvido pela percepção da realidade social, dada pelos sentidos, mas que existe uma compreensão essencial, permanente; que é a do verdadeiro ser interior da consciência, que está presente em tudo, independentemente das circunstâncias sociais. Cabe a mim, compreender o meu processo mental, desenvolver também a clareza, o discernimento de separar a compreensão do que é manifestado daquilo que não se manifesta, de modo que eu não me deixe levar, como um barco à deriva, no oceano das emoções. Afinal, sou um ser frágil, que sobrevive graças à capacidade mental de incluir-me e ser aceito socialmente. Essa capacidade humana, portanto, foi sendo supervalorizada, a ponto de, cada vez mais, glorificar-se o ser racional, que atua socialmente e que reproduz as estruturas que as gerações anteriores criaram para poder sobreviver como espécie e constituir civilização.

Da minha leitura, depreendi a atenção especial à compreensão da mente e ao fato de realizar-se tudo com a intermediação mental. Compreendi que ficar apenas no limite da mente operacional, pode transformar-me apenas em ser social. Certamente eu seria muito útil socialmente, mas estaria desprezando a essência, que tanto antecede como vai além do limite social. Estaria, assim, desprezando um ponto de vista diferente, que está fora do social, que me permitiria perceber com plenitude a vida em mim, nos outros e no mundo.

Thadeu Martins

      

ADQUIRA!

Saiba mais

MAPA