Mergulho no lago da consciência

Yoga também poderia significar prestar atenção, com as sugestões do sábio Patânjali. Algumas delas são de negação, de alerta; outras são afirmativas, de estímulo. A principal mensagem é cultivar o contentamento e ser persistente, principalmente em cultivar a felicidade (a minha, a sua e a dos outros). Também se enfatiza a compreensão de que eu, você e todo o mundo é criatura divina e terrena, ao mesmo tempo. Sou também constituído de uma matéria que se manifesta e de uma outra que não se manifesta. Essa última constitui uma essência referencial, que possibilita perceber as manifestações, mas que não se altera com elas (não está nem aí). Nesse jogo das manifestações de viver neste mundo, o propósito de praticar Yoga é agir (ou mesmo não agir) com atenção para manter-se atento, para que a mente mantenha-se no presente (nem no passado nem no futuro), de modo que a natureza manifestada corresponda ao referencial essencial (porque este está sempre no presente; ele é o presente).

O desenvolvimento mental e espiritual, que se propõe em Yoga, é para tirar o envolvimento, tirar os excessos sociais que atrapalham a manifestação da vida em si. Quando sereno a mente, o observador essencial que há em mim vê: aquele ator, que cada um é, torna-se presente. Em todas as demais situações, quando a mente não está tranquila, esse observador essencial está enevoado; fica-se, então, entregue ao fluxo das emoções, ao fluxo social. Ao serenar a mente, o ser essencial torna-se "mais" presente.

Essa compreensão foi desenvolvida pelos hinduístas há milênios, numa época em que se formaram os "Vedas", o conhecimento revelado pelos deuses. A tradição dos "Vedas" era transmitida Inicialmente de forma oral, até que surge o "vedanta" (o último conhecimento), em linguagem escrita, o qual prossegue estimulando a sabedoria e a reflexão. As linhas filosóficas hinduístas são convergentes. Basicamente são seis, sempre aos pares. Yoga é uma dessas vertentes, ao lado da filosofia Samkhya, que seria uma ancestral estruturalista da epistemologia. Assim como o Yoga seria um precursor da psicologia, o Samkhya seria o antecedente da gestão de conhecimento. O Samkhya preocupa-se com as questões filosóficas, como a origem da vida, a estrutura da matéria e a natureza humana, entre outras. O Yoga lida com o funcionamento mental e o comportamento.

No Brasil, Yoga está muito relacionado à educação física, tanto que há uma lei que obriga os instrutores a se registrarem ao Conselho Federal de Educação Física. Mas, talvez mais propriamente, Yoga devesse ser ensinado por professor de psicologia ou filosofia. Em Yoga, o tempo todo se fala da mente. Presta-se atenção ao corpo, mas o foco é a atenção com a mente. O corpo é o território, o patrimônio, o que se tem de mais pessoal, junto com a mente e a alma.

Aprendi, com os filósofos, que a alma (no Ocidente) foi "descoberta" no séc. IV - aC, época em que viveram os contemporâneos de Platão, o sábio Patânjali, Buda e Zaratustra. Como dizia o historiador inglês Arnold Toynbee, esse foi o período axial da História. Nessa época, os gregos concluíram que existia uma essência individual (a alma) do habitante da cidade. Quando esse morria, a alma saía da cidade (na visão helênica, a cidade constitui seus habitantes). A alma então se libertava da cidade. Há o conceito análogo em Yoga: "moksha", a libertação da minha essência, que vai além do meu ser social, o ser da cidade. É sabido que os gregos tiveram intenso contato com a Índia, muito antes de Alexandre, o Grande. Até o modo de incinerar os mortos era semelhante. Na Grécia, quando se preparava o corpo do morto, para passar ao reino de Hades, colocava-se, na roupa, uma folhinha de ouro, ou prata ou chumbo. Nessa folhinha ficavam gravadas as dicas para a alma, para esse ser essencial. Ao chegar no mundo livre do social, Hades perguntaria "quem é você?". "Eu sou filho da terra e do céu estrelado", responderia a alma. Hades então voltaria a perguntar: "o que você quer?". "Eu quero beber da água fresca do lago da memória", diria a alma (essa eu ouvi do professor Gabriele Cornelli, da Filosofia da UnB).

De fato, tudo o que se apreende e compreende, toda a consciência, vai para a memória e agrega-se lá. Viver é a realização (na experiência material) da consciência, e essa se situa na memória. Então, o que se faz ao morrer é retornar ao "lago da memória", que a psicologia mais tarde veio a chamar de "inconsciente coletivo". Aproveito então para relembrar que, para o filósofo André Comte-Sponville, o que antecede o espírito é a memória, a qual se constitui em morada do espírito. Para o físico quântico Amit Goswami (autor de "A física da alma"), quando se têm insights criativos, tem-se acesso ao "corpo de significados", que está além do espaço-tempo: um conceito análogo ao "lago da memória", do inconsciente coletivo.

Observo uma convergência de diferentes culturas e pensadores quanto à coexistência de "natureza espiritual e ser social" e também dessa ideia de libertação – da cidade, para os gregos; do mudo do "samsara", das "eternas reencarnações", para os hinduístas. Há também uma variedade de compreensões religiosas e leigas de como lidar com essa dualidade da natureza humana. De qualquer modo, tenho a mente fazendo a intermediação desses dois aspectos, que me constituem como ser vivo: ela sempre me leva para passear pelas margens ou em mergulhos fortuitos nas águas do lago da memória. Minhas compreensões, das experiências vividas, são como pequenos córregos da individualidade, que seguem alimentando de lembranças esse lago extraordinário e coletivo.

Thadeu Martins

      

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