Serena - mente - consciente

Como venho comentando, na compreensão hinduísta, tudo o que existe tem uma dupla natureza que forma uma unidade em si: manifestação ("prakriti") e não manifestação ("purusha"). A intermediação entre uma e outra é feita pela mente. O meu processo mental de intermediação e codificação da realidade está sempre ocorrendo, e assim eu vou lidando com a realidade que percebo e compreendo. A manifestação gera percepções e estas vão-se tornando complexas, vão criando uma trama, um envolvimento. Essa realidade interativa é bastante solicitante, e o processo mental deixa tomar-se por completo pelas interações, porque ele tem, pela sua natureza, que interagir com tudo o que lhe aparece.

Cada vez que eu ajo ou reajo, percebo algo e, a partir disso, crio memória. A memória cria impressões, "sanskaras", as quais provocam o surgimento de pensamentos recorrentes, que vêm e voltam aleatoriamente, sem o meu controle. Esse é um ciclo de interação que prossegue até o dia morte.

Praticar Yoga é lidar permanentemente com esses ciclos de comportamento mental. Educar, controlar a mente, de modo que se possa concentrar naquilo que requer atenção – deveres sociais, intenção espiritual, sobrevivência imediata. A prática, no entanto, prossegue para reduzir o envolvimento do intelecto na interpretação da realidade com a qual se convive, de modo que se possa desenvolver a capacidade de perceber a realidade de modo mais direto, com o mínimo de intermediação intelectual, e mais próxima da consciência essencial. Aproveito, aqui, do que diz o físico Amit Goswami, segundo o qual há um estado de consciência essencial, que é especial, porque provoca o "colapso das possibilidades", ou seja, que faz a realidade acontecer.

Esse estado de consciência precipitadora de realidade seria literalmente o padrão de consciência divina, a "consciência absoluta". Quando se alcançam estágios de proximidade dessa consciência especial, pode-se ter a sorte de sair da dimensão espaço-tempo, na qual as interações ocorrem sem cessar, e vir a perceber o que os gregos chamavam de "o lago da memória", o além do espaço-tempo, em que se tem acesso a insights, a tudo o que já foi compreendido e percebido, a tudo o que a memória coletiva já criou ou está a criar.

A mesma mente, que me enreda intelectualmente nas teias das percepções por ela intermediadas, é que também possibilita o acesso à consciência essencial. A minha mente é a minha preceptora, é ela que me possibilita o acesso a tudo. Eu poderia dizer que a mente é a dona do portal da consciência e, por isso, tento colocá-la a meu favor, por meio da prática de Yoga, por exemplo. Assim como, no cultivo da ética, coloca-se o comportamento do ser humano a favor do convívio social, na prática de Yoga, coloca-se a mente a favor da consciência. Quanto mais serenada estiver a minha mente, mais próxima ela estará do nível de consciência essencial, não manifestada ("purusha"), que não precisa de qualquer intermediação. Diante de mim, então, a realidade torna-se menos ilusória, mais cristalina, mais próxima do essencial.

Thadeu Martins

      

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